terça-feira, 18 de julho de 2017

Antítese

Se descobriram opostos. Ele ariano, ela canceriana. Sem dúvidas de que ele era racional, lógico e ponderado, enquanto ela era emotiva, sentimental e sensível. Nas suas diferenças eram imiscíveis, as decisões do outro eram incompreensíveis, fugiam do senso comum ao qual estavam acostumados. Neste ritmo, o universo particular em que viviam continuava se expandindo e as galáxias em que viviam se afastavam pouco a pouco, atraídas em direções opostas por buracos negros de incompreensão.

Viveram separados por um vazio, sem se preocupar com os anos-luz que se aglomeravam entre eles. As tentativas de aproximação podiam ser vistas à olho nu de qualquer lugar do universo, liberando a energia e o brilho de uma supernova. Assim permaneceram por anos, até que encontraram o pedaço do outro em si.

Encontraram suas outras metades. O sol em áries se complementou no ascendente em câncer, enquanto a canceriana se completou com o ascendente em áries. Versa e vice. Ela a antítese da sua tese, ele o inverso do seu verso. Não eram opostos, sequer duas faces da mesma moeda. Não. Eram a realeza das cartas do baralho, invertidos na mesma face, o mesmo naipe.

Na infinita marcha expansionista do universo, olharam um para o outro através dos seus telescópios e perceberam que olhavam para si. A mesma galáxias em dimensões paralelas. Contemplaram a imensidão do cosmos de mãos dadas.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Heroína

Foi um amigo que a levou para viajar pela primeira vez. Viajar de verdade, não aquelas idas com os pais para visitar a família no interior, mas sentir o mundo de verdade. Tinha uma ideia diferente sobre se desligar e deixar os problemas um pouco de lado. Era necessário enxergar a vida por uma outra perspectiva de vez em quando, não fugir, só se afastar e analisar como um terceiro observador.

Tinha acabado de terminar com o namorado após descobrir uma traição. Viu sua média despencar na faculdade logo em seguida e passou a fazer acompanhamento psicológico, mas não ajudou. Pelo contrário, a cada sessão lembrava de tudo aquilo que tinha vivido com ele, os planos, os nomes dos filhos, os momentos juntos... Vazio. Solidão. O filho da puta tinha que ir. Tinha? Tinha, e foi, levando com ele a felicidade de tudo aquilo. Deixou apenas um tumor maligno que se espalhava por dentro.

Aquela primeira viagem mudou tudo. Enquanto durou, nada além da sua própria felicidade importava. Que namorado o que, ela agora se bastava em si. Encontrou o caminho do prazer através dos seus próprios sentidos. Sentiu o gosto dos sons que chegavam aos seus ouvidos, o cheiro das cores que enxergava e se sentiu plena mais uma vez, até ser puxada de volta para a regularidade da vidinha de sempre.

Precisou viajar mais, se conhecer mais, se permitir mais, se afastar mais, se perder e se encontrar mais. Cada vez em um lugar diferente, mas o mesmo ponto de partida. Até que, de pico em pico, ganhou um mundo totalmente novo para chamar de casa. A família não conseguiu nem se despedir.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Náufraga

Deixou que lhe convencessem de que deveria fazer aquele cruzeiro. Todas as pessoas da família e todos os conhecidos que vieram antes fizeram e tinham fotos pra mostrar o quão felizes ficaram. Era contra, mas o que podia fazer? A família era quem estava pagando, mal não faria que também escolhesse o destino.

Sua bagagem era grande demais pro navio, teve que deixar várias coisas para trás. Sem falar que a cabine não era tudo aquilo que lhe falaram. Deus!, não era nem mesmo aquilo que esperava na previsão mais pessimista. Agora que estava ali, só queria ir embora. Ligou para os pais e pediu que lhe buscassem. Ora, mal entrou no navio e já quer voltar? Daqui a pouco melhora, e, se não melhorar, cê volta.

Quis voltar na primeira parada, mas  a viagem nem começou! Insistiu para que voltasse na segunda, na terceira, na quarta, na quinta, mas já foi até a metade e vai voltar agora!? Já tá aí, termina! Não aguentava mais aquelas pessoas, aqueles assuntos, nem a equipe do navio animava. Como um marinheiro com escorbuto, a apatia e a irritação tomaram conta dos seus dias. Há muito já nem sabia o que era dormir direito.

Ao se aproximarem da oitava parada, o navio foi pego no meio de uma tempestade. Escorregou no piso do convés ao tentar voltar pra cabine. Ainda tentou se agarrar ao guarda-corpos, mas não teve forças para segurar. Ensaiou algumas braçadas em direção ao barco, mas sabia que não era aquilo que queria e parou. Tão logo veio e tão logo se foi a tempestade, lhe deixando ali sem destino certo, sem rumo. Completamente à deriva no meio da calmaria, flutuou esperando que a correnteza levasse.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Carnaval da vida

Trocaram olhares no meio da multidão de fotos do cardápio humano instalado em seus respectivos celulares, Já sabiam o que faziam da vida, o que estudavam, o que gostavam e que desejavam aquele encontro mutuamente, Já havia ali intimidade para mandar mensagem avisando que o aplicativo insinuara que combinavam, Riram, Fizeram comentários sobre as fotos, Marcaram de se encontrar no mesmo dia para comer alguma coisa, Desviaram no meio do caminho para um motel,  Compartilharam algumas cervejas, mas não sonhos, Fizeram sexo, mas não planos, Transaram no escuro com a perfeição mascarada de um perfil, mas não com as realidades às suas frentes, Tomaram banho, mas não ao mesmo tempo para não exporem suas vergonhas, Prometeram que sairiam de novo, mas nunca mais se falaram.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Apenas mais uma de amor (23) - Primeira vez

 Ainda sentado no carro, percebeu que sequer piscava. É, o homem planeja e o universo ri. Suas leis não se aplicam aos sentimentos. O amor é uma inconstitucionalidade universal, uma ilegalidade insensata da qual não se cabe recurso. Nenhuma tese defensiva consegue afastar a sentença declaratória de insanidade.

O escarlate desceu as escadas aquecendo a fria noite. Destacava os lábios na pele alva, cortava o vestido preto na cintura e enchia de vida o sapato que ela trazia nos pés. Tempos depois descobriu que se tratava de um scarpin, mas aí já não era importante.

Não queria se apaixonar. Há pouco tempo saíra de um relacionamento. Precisava de tempo para tratar das feridas abertas que ainda se espalhavam pela superfície da pele, mas cada escarlate passo que ela dava em sua direção lhe ordenava para que se apaixonasse. A rubra boca sorria ciente de que o tinha na palma da mão. Se moveu:

- Tô bonita?

Desceu do carro e correu para abrir a porta para ela, rezando para não ser o único condenado.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Quadrilha Moderna

João amava Raimundo que amava Teresa
que amava Maria que amava Joaquim e Lili
que era assexuada.
João fez vida nos Esteites, Teresa na faculdade,
Raimundo morreu de Ébola, Maria ficou com Joaquim,
que não aguentou e suicidou-se e Lili manteve as aparências com J. Pinto
que queria colocar seu sobrenome na boca do povo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Pequeno príncipe

E foi então que apareceu a raposa:

- Ring-ding-ding-ding-dingeringeding, disse a raposa.

- Hã?! Respondeu inquisitivamente o princepezinho, que se voltou, mas não viu nada.

Wa-pa-pa-pa-pa-pa-pow, disse a raposa indicando onde se encontrava.

- Quem é que está aí? Perguntou o princepezinho. Tu és bem difícil de entender...

Hatee-hatee-hatee-ho, disse a raposa.

- Sai de onde você está e vem brincar comigo, propôs o princepezinho. Estou tão triste...

Tchoffo-tchoffo-tchoffo-tchoffo-tchoff, disse a raposa em toda sua sapiência.

Porém, o princepezinho, que de raposês nada entendia, deu de ombros e foi embora.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Medo

O homem de bermuda se arrastava pelas ruas do Porto e o medo ia atrás. Seguia alheio ao frio, flanqueado por crentes e descrentes, como um prisioneiro no corredor da morte. Não sabia se apressava o passo e acabava com aquilo ou se retardava a marcha para dilatar o inevitável.

Olhou para trás a tempo de ver o medo correndo em sua direção, mas não permitiria ser alcançado. Mente e corpo inebriados com a sensação de poder, nada tomaria aquele momento das suas mãos. Era o Alfa e o Ômega. Senhor de si.

Imaginou quantos haviam percorrido aquele mesmo caminho e sentido aquele êxtase, para, então, emergirem vitoriosos. Tum tum. Despiu-se de toda a vaidade que vestia. Tum tum. Lembrou de tudo que enfrentara nos últimos seis meses e que o levaram até ali. Tum tum. Pensou na família que estava em contagem regressiva para a sua volta. Tum tum, tum tum. Calculou rapidamente quantos metros o separavam da água e chutou quantos mais o separariam do fundo. Tum tum, tum tum. Sentiu o vento frio tentando desviar a sua atenção enquanto o medo se apoderava do seu corpo. TUM TUM TUM TUM.

Esqueceu o motivo de estar ali. Tinha medo de altura, de morrer, de ir sem dizer adeus, de deixar a família triste, de não deixar herdeiros ou um legado. Fazia graça para esconder o desespero. Queria desistir, mas o corpo continuava. Cruzou a grade da ponte e sabia que não poderia retornar. Desistiu de resistir.

Olhou para baixo e experimentou o sabor de adrenalina do medo. Ainda assim, sentiu se mais corajoso do que nunca. Um. Continuaria vivo para rever todos. Dois. Se formaria para mudar o mundo. Três. Dominar para não ser dominado. Fodeu, puta que pariu.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Nego

Agora eu sou o Negão que trocou o verão do nordeste pelo inverno de Portugal, o oxe pelo ora pois e a moqueca de peixe com camarão por esse tal de bacalhau. Agora não tem mais moleza, nem o conforto de casa. Nada de roupa, passada e lavada, guardada na gaveta, cama feita ou pia da cozinha vazia. A comida não surge nas panelas, os produtos de limpeza não se esfregam no chão, os sacos de lixo não tomam o elevador, e o cheirinho do banheiro vive vazio.

Bebo todos os dias porque o clima é frio, porque sempre tem promoção, porque tem festa, porque chamam, porque não tenho aula, porque tive aula demais, porque não tem nada pra fazer, mas na maioria das vezes, faça chuva ou faça sol, é tão somente porque eu quero. Basta ser líquido, até o tal do mátê quêntê vendo o pôr do sol no teleférico de Gaia.

Jogo frisbee, ando de caiaque, faço slack, corro, e não paro. Agora falo um pouco de francês aqui, uma pitada de italiano ali e um punhado de alemão, não é suficiente pra conversar com ninguém, mas é, por enquanto, o bastante. Não estudo, mas vivo o Direito nas ruas, no povo e no fundo de um copo de cerveja.

Sou da Bahia, de Cuiabá e do Acre, mas também sou mineiro, gaúcho, paulista e catarinense. É uai! com bah!, bolacha com biscoito, língua queimada pelo mátê quêntê no final da tarde. É o rolê num pico doidimais, e, principalmente, concordar que é tudo um demonho mesmo. É deixar de ser sergipano pra me apresentar como brasileiro, com muito orgulho, com muito amor-ôôôô!

Foi nessa mistura retada da peste, que mudei e fui mudado, que acrescentei e fui acrescido. Não porque o intercâmbio muda todo mundo, mas porque tive coragem de sair da minha zona de conforto.

Agora eu sou o Negão, cheio de paixão, te catá, te catá, te catá.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Apenas mais uma de amor (22) - Chico

A fase de negação começou quando vi aquele ser sentado no colo da minha mãe pela primeira vez, não fazia ideia de quem ou o que era aquilo, mas o odiava com todas as minhas forças. Éramos diferentes, mas compartilhávamos o mesmo sangue, mas nada mudaria isso: estava no meu lugar e tomava a atenção que sempre fora minha. Não aceitava ser trocado, preferia que a minha mãe permanecesse gordinha para sempre. A negação era constante. Não queria acreditar que estava acontecendo justo comigo. Eu queria um cachorro e os meus pais me deram uma irmã. Fui traído por quem mais deveria me amar.

Pouco a pouco me conformei com a ideia de que não daria para me livrar dela e a negação começou a ser substituída pela fase da raiva desmedida que só crescia. Não suportava a sua presença e nós não podíamos dividir o mesmo espaço sem que brigássemos. Eu acordava, dava uma surra nela para ela acordar, ia tomar banho e dava outra surra quando a gente se encontrava no corredor. Depois nós descíamos para tomar café e eu dava outra surra nela porque ela queria comer o mesmo que eu. E assim passava o dia, numa mistura de meninices e surras constantes, até que a minha mãe decidiu que um passava a manhã no andar de baixo e o outro no andar de cima, e pela tarde trocávamos.

Mesmo assim ela era o meu saco de pancada e ninguém além de mim tinha o direito de descer a mão nela. A medida que crescíamos as brigas começaram a se tornar menos frequentes, porém mais intensas. Desloquei o braço dela com um chute e ela amassou a porta com um tijolo que era pra acertar a minha cabeça. A gente ficava semanas sem se falar, uma Guerra Fria em menor escala prestes a estourar. E, para ser sincero, não sei o que mudou e nem quando a raiva virou aceitação. Um belo dia nós simplesmente nos tolerávamos e já nos dávamos bem. Nos tornamos civilizados.

Ainda discutimos bastante, mas porque temos a personalidade forte. Ficamos sem nos falar algumas vezes e foram as semanas mais intermináveis da minha vida. Estamos sempre juntos e agora não vejo mais como irmã mais nova e sim como minha amiga. Depois da fase da aceitação, que 6 anos atrás eu achei que fosse a última, veio a fase do amor porque não importa o quanto ela cresça, será pra sempre o meu macaquinho.