terça-feira, 11 de julho de 2017

Apenas mais uma de amor (23) - Primeira vez

 Ainda sentado no carro, percebeu que sequer piscava. É, o homem planeja e o universo ri. Suas leis não se aplicam aos sentimentos. O amor é uma inconstitucionalidade universal, uma ilegalidade insensata da qual não se cabe recurso. Nenhuma tese defensiva consegue afastar a sentença declaratória de insanidade.

O escarlate desceu as escadas aquecendo a fria noite. Destacava os lábios na pele alva, cortava o vestido preto na cintura e enchia de vida o sapato que ela trazia nos pés. Tempos depois descobriu que se tratava de um scarpin, mas aí já não era importante.

Não queria se apaixonar. Há pouco tempo saíra de um relacionamento. Precisava de tempo para tratar das feridas abertas que ainda se espalhavam pela superfície da pele, mas cada escarlate passo que ela dava em sua direção lhe ordenava para que se apaixonasse. A rubra boca sorria ciente de que o tinha na palma da mão. Se moveu:

- Tô bonita?

Desceu do carro e correu para abrir a porta para ela, rezando para não ser o único condenado.


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