Ainda sentado no carro, percebeu que sequer piscava. É, o homem planeja e o universo ri. Suas leis não se aplicam aos sentimentos. O amor é uma inconstitucionalidade universal, uma ilegalidade insensata da qual não se cabe recurso. Nenhuma tese defensiva consegue afastar a sentença declaratória de insanidade.
O escarlate desceu as escadas aquecendo a fria noite. Destacava os lábios na pele alva, cortava o vestido preto na cintura e enchia de vida o sapato que ela trazia nos pés. Tempos depois descobriu que se tratava de um scarpin, mas aí já não era importante.
Não queria se apaixonar. Há pouco tempo saíra de um relacionamento. Precisava de tempo para tratar das feridas abertas que ainda se espalhavam pela superfície da pele, mas cada escarlate passo que ela dava em sua direção lhe ordenava para que se apaixonasse. A rubra boca sorria ciente de que o tinha na palma da mão. Se moveu:
- Tô bonita?
Desceu do carro e correu para abrir a porta para ela, rezando para não ser o único condenado.
Mostrando postagens com marcador Séries. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Séries. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 11 de julho de 2017
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Apenas mais uma de amor (22) - Chico
A fase de negação começou quando vi aquele ser sentado no colo da minha mãe pela primeira vez, não fazia ideia de quem ou o que era aquilo, mas o odiava com todas as minhas forças. Éramos diferentes, mas compartilhávamos o mesmo sangue, mas nada mudaria isso: estava no meu lugar e tomava a atenção que sempre fora minha. Não aceitava ser trocado, preferia que a minha mãe permanecesse gordinha para sempre. A negação era constante. Não queria acreditar que estava acontecendo justo comigo. Eu queria um cachorro e os meus pais me deram uma irmã. Fui traído por quem mais deveria me amar.
Pouco a pouco me conformei com a ideia de que não daria para me livrar dela e a negação começou a ser substituída pela fase da raiva desmedida que só crescia. Não suportava a sua presença e nós não podíamos dividir o mesmo espaço sem que brigássemos. Eu acordava, dava uma surra nela para ela acordar, ia tomar banho e dava outra surra quando a gente se encontrava no corredor. Depois nós descíamos para tomar café e eu dava outra surra nela porque ela queria comer o mesmo que eu. E assim passava o dia, numa mistura de meninices e surras constantes, até que a minha mãe decidiu que um passava a manhã no andar de baixo e o outro no andar de cima, e pela tarde trocávamos.
Mesmo assim ela era o meu saco de pancada e ninguém além de mim tinha o direito de descer a mão nela. A medida que crescíamos as brigas começaram a se tornar menos frequentes, porém mais intensas. Desloquei o braço dela com um chute e ela amassou a porta com um tijolo que era pra acertar a minha cabeça. A gente ficava semanas sem se falar, uma Guerra Fria em menor escala prestes a estourar. E, para ser sincero, não sei o que mudou e nem quando a raiva virou aceitação. Um belo dia nós simplesmente nos tolerávamos e já nos dávamos bem. Nos tornamos civilizados.
Ainda discutimos bastante, mas porque temos a personalidade forte. Ficamos sem nos falar algumas vezes e foram as semanas mais intermináveis da minha vida. Estamos sempre juntos e agora não vejo mais como irmã mais nova e sim como minha amiga. Depois da fase da aceitação, que 6 anos atrás eu achei que fosse a última, veio a fase do amor porque não importa o quanto ela cresça, será pra sempre o meu macaquinho.
domingo, 29 de junho de 2014
Apenas mais uma de amor (21) - Epifania
Há um momento sutil em que, não importa onde você esteja, todas as engrenagens do universo se encaixam. É único, particular e inesperado. Chega a ser orgasmática a súbita compreensão de todas as perguntas que permeiam o imaginário. De repente, respostas. A sensação de colocar um par de óculos novos pela primeira vez. Tudo entra em foco. Agora corria refazendo o percurso que acabara de fazer, talvez fosse tarde, mas nessa vida até menstruação atrasada é bem vinda.
Encheram suas taças com o néctar mais puro. Deixaram-se levar pelo gosto até se embriagarem. Dançaram inebriados uma melodia singular que ninguém mais escutava. Acreditaram na particularidade de uma balada apenas deles. Perdoaram os tropeções. Ai. Desculpa! Não tem problema -sorriso- agora gira e gira. E lá se ia um passo novo em cima da falha. A prática levaria a perfeição. Perderam-se quando não mais permitiram erros.
Trocaram os ritmos, mas não de parceiros. Soltaram as mãos, mas continuaram a dançar até a alvorada tocar suas faces. Cabisbaixos, cada um para um lado. Perdidos com a infinitude de possibilidades que surgiram. Universos alternativos que se formavam a cado passo que davam. O caminho que se estreitava à medida que se distanciavam. Acelerou.
Há um momento brusco em que o caos esbarra com leis universais e toma forma. É geral, incontrolável e desenfreado. Chega a ser assustadora a torrente de novas perguntas que ficamos submissos. De repente, perguntas. A sensação de que o par de lentes já não é mais suficiente para o novo grau. Tudo sai de cena. Agora caminhava pelo percurso que acabará de fazer, talvez fosse cedo, mas nessa vida até parto prematuro é bem vindo.
Correu porque sabia que a dança tinha conteúdo, caminhou porque sabia que faltava forma.
Encheram suas taças com o néctar mais puro. Deixaram-se levar pelo gosto até se embriagarem. Dançaram inebriados uma melodia singular que ninguém mais escutava. Acreditaram na particularidade de uma balada apenas deles. Perdoaram os tropeções. Ai. Desculpa! Não tem problema -sorriso- agora gira e gira. E lá se ia um passo novo em cima da falha. A prática levaria a perfeição. Perderam-se quando não mais permitiram erros.
Trocaram os ritmos, mas não de parceiros. Soltaram as mãos, mas continuaram a dançar até a alvorada tocar suas faces. Cabisbaixos, cada um para um lado. Perdidos com a infinitude de possibilidades que surgiram. Universos alternativos que se formavam a cado passo que davam. O caminho que se estreitava à medida que se distanciavam. Acelerou.
Há um momento brusco em que o caos esbarra com leis universais e toma forma. É geral, incontrolável e desenfreado. Chega a ser assustadora a torrente de novas perguntas que ficamos submissos. De repente, perguntas. A sensação de que o par de lentes já não é mais suficiente para o novo grau. Tudo sai de cena. Agora caminhava pelo percurso que acabará de fazer, talvez fosse cedo, mas nessa vida até parto prematuro é bem vindo.
Correu porque sabia que a dança tinha conteúdo, caminhou porque sabia que faltava forma.
domingo, 30 de março de 2014
Apenas mais uma de amor (20) - Amor maior
Lembrava da primeira vez que ela lhe chamou de pai. Claro que não era verdade e logo a corrigiram, mas foi o suficiente para desencadear a série de eventos que aconteceram no decorrer dos dois seguintes anos. Talvez as coisas já estivessem determinadas a acontecer, só levariam mais tempo. Tempo que não sabiam que não iriam ter. E que não teria mudado em nada se soubessem.
Não a via sempre, nem mesmo todas as semanas. Mesmo assim, todo dia era melhor que o anterior. Era ela que tudo alegrava quando saía cansado do trabalho para visitá-la. Todos os defeitos que tinha e que não conseguia enxergar coloriam qualquer dia cinza. Suas perguntas sem pé nem cabeça, seu riso fácil e a voz manhosa quando queria alguma coisa. De novo, de novo, e lá se ia mais uma infinitude de vezes da mesma brincadeira. Os braços cada vez mais fortes para aguentar o peso que crescia nas mãos. O peso da diminuta vida pela qual era responsável. A vida que a vida tomaria.
Era questão de tempo e nada mais. Ela tinha pai, vivo e, acima de tudo, saudoso. A notícia de que ele voltaria ao Brasil para levá-la foi recebida com ceticismo. Que besteira, que bobagem, levar a menina só por conta disso. Não dava palpites, apenas balançava a cabeça e concordava. Não tinha o direito de opinar. Nem mesmo acreditava que esse dia chegaria. Mas chegou.
E lá estava ela, mochilinha nas costas, tiara na cabeça. Nada mais de Dora ou de Galinha Pintadinha, muito menos músicas diferentes todos os dias ou brincadeiras repetitivas. Ela estava com o pai verdadeiro, não havia nada mais que pudesse ser feito. Nem ao menos sabia como se sentia. Não havia nada, nem raiva por a levarem, nem alegria por vê-la feliz. Por fim, se foi. Foi se, como houvesse uma passagem de volta esperando por ela. Só havia o pai.
Não era o pai dela, nunca seria. Ela, mais do que ninguém, sabia. Não era o pai dela, mas era como se fosse.
Não a via sempre, nem mesmo todas as semanas. Mesmo assim, todo dia era melhor que o anterior. Era ela que tudo alegrava quando saía cansado do trabalho para visitá-la. Todos os defeitos que tinha e que não conseguia enxergar coloriam qualquer dia cinza. Suas perguntas sem pé nem cabeça, seu riso fácil e a voz manhosa quando queria alguma coisa. De novo, de novo, e lá se ia mais uma infinitude de vezes da mesma brincadeira. Os braços cada vez mais fortes para aguentar o peso que crescia nas mãos. O peso da diminuta vida pela qual era responsável. A vida que a vida tomaria.
Era questão de tempo e nada mais. Ela tinha pai, vivo e, acima de tudo, saudoso. A notícia de que ele voltaria ao Brasil para levá-la foi recebida com ceticismo. Que besteira, que bobagem, levar a menina só por conta disso. Não dava palpites, apenas balançava a cabeça e concordava. Não tinha o direito de opinar. Nem mesmo acreditava que esse dia chegaria. Mas chegou.
E lá estava ela, mochilinha nas costas, tiara na cabeça. Nada mais de Dora ou de Galinha Pintadinha, muito menos músicas diferentes todos os dias ou brincadeiras repetitivas. Ela estava com o pai verdadeiro, não havia nada mais que pudesse ser feito. Nem ao menos sabia como se sentia. Não havia nada, nem raiva por a levarem, nem alegria por vê-la feliz. Por fim, se foi. Foi se, como houvesse uma passagem de volta esperando por ela. Só havia o pai.
Não era o pai dela, nunca seria. Ela, mais do que ninguém, sabia. Não era o pai dela, mas era como se fosse.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
E o salário ó (2) - Observação
Não adianta, não importa a quantidade de horas que você levou para se preparar para dar uma aula, sempre há surpresas. O ser humano é imprevisível e você está ali para lidar com vários. Você pode falar sobre o mesmo assunto e discutir o mesmo tópico, mas a reação de cada aluno vai ser única, por isso cada turma é diferente. São essas experiências, pensamentos e histórias variadas que dão cara e ritmo à aula. É esse mistério, essa incerteza, que me fazem gostar tanto de ensinar, mas também é o que mais me assusta.
Dar aula é como jogar roleta russa. Cada vez que o aluno levanta a mão dar sua opinião ou contar alguma história, você, no fundo no fundo, sente uma pontada de desespero e pede, encarecidamente, para que não seja nada demais e que não interrompa muito a aula. Reza para que aquele cartucho não seja o carregado. E não adianta tentar adivinhar quem irá te tomar a atenção e o tempo , pois é de onde menos se espera que a bala vem. A carinha de anjo ou a personalidade séria apenas maquiam a mente criminosa que há por trás.
Estávamos conversando sobre os tipos de livro preferidos e os livros favoritos de cada um. Uma que gosta de romances e dramas, outra que tem nos mistérios a sua preferência, gente que lê qualquer bom livro, e até mesmo gente que não gosta ou não sabe ler. Foi quando estávamos terminando de falar sobre grandes autores de mistério , que notei o braço apoiado na mesa e o dedo levantado. Não estava apontado para mim, mas podia atirar a qualquer momento:
- Alguma dúvida?
- Não, só queria fazer uma observação. - pensei que ela fosse dar uma de chiquinha.
-Pode dizer, doutora. - ainda dei asa pra essa imaginação.
- É porque eu gostaria de dizer que quero ter uma gata e que o nome dela vai ser Christie.
Eu já tinha dado a observação dela como encerrada e já me preparava para mudar a pergunta quando ela concluiu:
- A gata Christie.
É depois de uma dessa que a gente deveria poder pedir a conta e voltar para casa. A única observação que tenho a fazer é que o pior de tudoi foi ter sido engraçado.
Dar aula é como jogar roleta russa. Cada vez que o aluno levanta a mão dar sua opinião ou contar alguma história, você, no fundo no fundo, sente uma pontada de desespero e pede, encarecidamente, para que não seja nada demais e que não interrompa muito a aula. Reza para que aquele cartucho não seja o carregado. E não adianta tentar adivinhar quem irá te tomar a atenção e o tempo , pois é de onde menos se espera que a bala vem. A carinha de anjo ou a personalidade séria apenas maquiam a mente criminosa que há por trás.
Estávamos conversando sobre os tipos de livro preferidos e os livros favoritos de cada um. Uma que gosta de romances e dramas, outra que tem nos mistérios a sua preferência, gente que lê qualquer bom livro, e até mesmo gente que não gosta ou não sabe ler. Foi quando estávamos terminando de falar sobre grandes autores de mistério , que notei o braço apoiado na mesa e o dedo levantado. Não estava apontado para mim, mas podia atirar a qualquer momento:
- Alguma dúvida?
- Não, só queria fazer uma observação. - pensei que ela fosse dar uma de chiquinha.
-Pode dizer, doutora. - ainda dei asa pra essa imaginação.
- É porque eu gostaria de dizer que quero ter uma gata e que o nome dela vai ser Christie.
Eu já tinha dado a observação dela como encerrada e já me preparava para mudar a pergunta quando ela concluiu:
- A gata Christie.
*
É depois de uma dessa que a gente deveria poder pedir a conta e voltar para casa. A única observação que tenho a fazer é que o pior de tudoi foi ter sido engraçado.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
E o salário ó - Jaca
Engana-se quem pensa que dar aula de inglês para níveis avançados é mais difícil. Os níveis básicos são um campo minado cheio de pegadinhas prontas para explodir ao sinal de qualquer movimento brusco. Como toda pessoa que começa algo novo, você não sabe de nada, portanto, o que aparecer já será novidade. Justamente por isso, a moeda mostra os seus dois lados. Ao mesmo tempo que o aluno iniciante se interessa por tudo, eles têm maior sede de conhecimento. E aí, meus caros, não há preparação no mundo que te deixe pronto para o que poderá aparecer. Em algum momento surgirá uma pergunta para a qual você não tem a resposta e aí resta apenas um conselho: se conforme e assuma.
Apesar do pouco tempo, já era uma turma querida. Era apenas a quinta ou sexta aula que dava para aquela turma, mas já tinha a sensação de estar em casa. O grupo era novo, nível iniciante. Ainda davam os primeiros passos com o inglês, e é justamente aí onde morava o perigo. Percebi tarde demais.
É certo que aluno não é raça de gente e sente um prazer inexplicável em apertar sem abraçar. Também sou aluno e sinto a mesma coisa. Quando o aluno já começa a pergunta rindo, das duas uma, ou é safadeza ou ele acha que você não sabe, tudo só para ter o gosto de rir internamente. Já tive professor que inventou a resposta na hora e só descobri anos mais tarde. Entretanto, dessa vez o erro foi meu.
O vocabulário da lição trazia algumas frutas,não muitas, as principais. Quando terminei de ensiná-las, avisei que não sabia todas as frutas, mas que eles poderiam perguntar mesmo assim. Uma a uma, respondi cada pergunta deles, até que perguntaram:
- E jaca? - o sorriso largo estampado.
Depois de uma boa gargalhada de desespero, olhei para o aluno e disse que não sabia, mas que iria procurar. Fiquei com aquilo na cabeça e a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi achar a resposta. Uma semana depois, lá estávamos nós, eu com a resposta na ponta da minha língua e ele com a pergunta na ponta da dele:
- E aí, professor? Achou? - aquele mesmo sorriso que eu esperava apagar.
- Claro! Você acha que eu ia deixar de responder? Jaca é jack fruit. - quem estava rindo agora?
- Mas essa daí é mole ou dura? - o sorriso sem nem mais caber no rosto.
O pior é que pra essa eu tinha a resposta.
Apesar do pouco tempo, já era uma turma querida. Era apenas a quinta ou sexta aula que dava para aquela turma, mas já tinha a sensação de estar em casa. O grupo era novo, nível iniciante. Ainda davam os primeiros passos com o inglês, e é justamente aí onde morava o perigo. Percebi tarde demais.
É certo que aluno não é raça de gente e sente um prazer inexplicável em apertar sem abraçar. Também sou aluno e sinto a mesma coisa. Quando o aluno já começa a pergunta rindo, das duas uma, ou é safadeza ou ele acha que você não sabe, tudo só para ter o gosto de rir internamente. Já tive professor que inventou a resposta na hora e só descobri anos mais tarde. Entretanto, dessa vez o erro foi meu.
O vocabulário da lição trazia algumas frutas,não muitas, as principais. Quando terminei de ensiná-las, avisei que não sabia todas as frutas, mas que eles poderiam perguntar mesmo assim. Uma a uma, respondi cada pergunta deles, até que perguntaram:
- E jaca? - o sorriso largo estampado.
Depois de uma boa gargalhada de desespero, olhei para o aluno e disse que não sabia, mas que iria procurar. Fiquei com aquilo na cabeça e a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi achar a resposta. Uma semana depois, lá estávamos nós, eu com a resposta na ponta da minha língua e ele com a pergunta na ponta da dele:
- E aí, professor? Achou? - aquele mesmo sorriso que eu esperava apagar.
- Claro! Você acha que eu ia deixar de responder? Jaca é jack fruit. - quem estava rindo agora?
- Mas essa daí é mole ou dura? - o sorriso sem nem mais caber no rosto.
O pior é que pra essa eu tinha a resposta.
sábado, 25 de maio de 2013
Despedida - Apenas mais uma de amor (19)
Foi embora sem nem dizer adeus. Era questão de tempo, sabia disso, só não esperava ter sido assim. Nem um último beijo ou abraço, apenas um aceno e um sorriso, e só. Não tinha como adivinhar que ela não voltaria. Confundiu um até logo com um adeus.
Como pudera ser tão cego? Você só pode ter de volta aquilo que um dia foi seu. Estavam juntos, mas não eram um do outro. Por mais que enterrassem sob uma camada de ilusão, a realidade sempre ressurgia. A volta incessante da que não fora. Se deixaram envolver mais do que deveriam, foram além do que imaginaram, e mesmo assim não foram a lugar algum. Deixaram o porto seguro sem puxar a âncora pra dentro do barco. Ficaram onde estavam.
Um sorriso e um aceno. Aquele sorriso. O mesmo que o puxara para o centro do furacão, agora o devolvia para onde havia sido encontrado. Ah, se soubesse, se ao menos não tivesse guardado para si tudo aquilo que pertencia a ela. Todas as alegrias que deixou de provocar, toda raiva que deixou de aplacar, todas as palavras que não disse para não machucar, todas as oportunidades que deixou passar, e tudo isso para que? Ela foi embora do mesmo jeito que entrou, com um aceno e um sorriso. O maldito sorriso.
Como pudera ser tão cego? Você só pode ter de volta aquilo que um dia foi seu. Estavam juntos, mas não eram um do outro. Por mais que enterrassem sob uma camada de ilusão, a realidade sempre ressurgia. A volta incessante da que não fora. Se deixaram envolver mais do que deveriam, foram além do que imaginaram, e mesmo assim não foram a lugar algum. Deixaram o porto seguro sem puxar a âncora pra dentro do barco. Ficaram onde estavam.
Um sorriso e um aceno. Aquele sorriso. O mesmo que o puxara para o centro do furacão, agora o devolvia para onde havia sido encontrado. Ah, se soubesse, se ao menos não tivesse guardado para si tudo aquilo que pertencia a ela. Todas as alegrias que deixou de provocar, toda raiva que deixou de aplacar, todas as palavras que não disse para não machucar, todas as oportunidades que deixou passar, e tudo isso para que? Ela foi embora do mesmo jeito que entrou, com um aceno e um sorriso. O maldito sorriso.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Apenas mais uma de amor - Sacrifício (18)
Não sabia o que esperar daquela conversa. Recebera a mensagem mais cedo: "precisamos conversar" e nada mais. Há tempos já desconfiava que havia algo de errado com o filho. Ele estava mudando, mas achou que fosse apenas uma fase, coisa que o jovem atual precisa passar pra construir caráter. Entretanto, o que deveria ser chuva passageira permaneceu. Se tivesse tomado as rédeas antes, talvez tivesse evitado chegar nesse ponto. Começava a se preparar para o pior e nada do menino chegar.
Era rigoroso, ele mesmo produto de um regime espartano. Fora moldado pelo pai, até porque, naquela época, não tinha dessas de escolher o que queria ser, muito menos essas firulas de sonhar. Não se tinha desse luxo de fazer o que se gostava, de ser livre para ser do jeito que se era. E foi mais ou menos assim que educou seus filhos. Cada um escolheu uma profissão pra seguir, mas dentro de sua casa eram suas regras. Nada dessas viadagens de tatuagem, cabelo diferente ou piercing, que deixassem essas frescuras pra quando pudessem se sustentar. Amava os filhos, mas isso era pedir demais. Arrancaria o couro dele para servir de exemplo se preciso fosse. Teve seus pensamentos interrompidos pelo filho. Cheguei.
- Filho, nem percebi que você estava por aqui já. - tentou disfarçar enquanto se recompunha.
- Tem algo que preciso dizer e que sei que você não vai gostar muito, mas não dá mais pra viver dessa forma. Você vai ter que aprender a me respeitar do jeito que eu sou. - a casa era dele, ele que sustentava tudo, e ainda teria que engolira vontade dos outros? - Eu sou gay e estou namorando há quatro meses com o filho do seu chefe.
Em todos os seus anos de vida, nunca vira o pai vermelho daquele jeito. A mãe, a primeira a ficar sabendo, foi quem interviu afim de não deixar as coisas chegarem às vias de fato. O pai esbravejou, xingou tudo o que sabia e mais um pouco. Por que com ele, Deus? Porque não qualquer outro pai naquela cidade? A culpa era da mulher que passava a mão demais na cabeça das crianças. Saiu deixando aquele complô na sala, sem falar nada, e assim permaneceu por quase uma semana.
Não falou com ninguém dentro de casa. Nem na cama, junto da mulher, dormiu. No sexto dia, foi atrás do filho na cozinha porque sabia que não tinha ninguém em casa. Só falaria tudo que estava guardado apenas uma vez, aquela palhaçada tinha que acabar.
- Presta atenção que não vou repetir. Se não quiser concordar, pode se preparar pra arrumar suas malas. Entendido? - o medo era tanto que a única coisa que conseguiu foi balançar a cabeça. - No último Natal, seu irmão trouxe a namorada nova pra gente conhecer, na última Páscoa, sua irmã trouxe o namorado pra celebrar com a gente. Se você um dia sonhar em trazer esse rapaz aqui, ficaremos muito felizes em recebê-lo. - as lágrimas de ambos agora escorrendo.- Antes de ser qualquer outra coisa, você é meu filho, e isso já é razão suficiente para te amar para sempre.
Era rigoroso, ele mesmo produto de um regime espartano. Fora moldado pelo pai, até porque, naquela época, não tinha dessas de escolher o que queria ser, muito menos essas firulas de sonhar. Não se tinha desse luxo de fazer o que se gostava, de ser livre para ser do jeito que se era. E foi mais ou menos assim que educou seus filhos. Cada um escolheu uma profissão pra seguir, mas dentro de sua casa eram suas regras. Nada dessas viadagens de tatuagem, cabelo diferente ou piercing, que deixassem essas frescuras pra quando pudessem se sustentar. Amava os filhos, mas isso era pedir demais. Arrancaria o couro dele para servir de exemplo se preciso fosse. Teve seus pensamentos interrompidos pelo filho. Cheguei.
- Filho, nem percebi que você estava por aqui já. - tentou disfarçar enquanto se recompunha.
- Tem algo que preciso dizer e que sei que você não vai gostar muito, mas não dá mais pra viver dessa forma. Você vai ter que aprender a me respeitar do jeito que eu sou. - a casa era dele, ele que sustentava tudo, e ainda teria que engolira vontade dos outros? - Eu sou gay e estou namorando há quatro meses com o filho do seu chefe.
Em todos os seus anos de vida, nunca vira o pai vermelho daquele jeito. A mãe, a primeira a ficar sabendo, foi quem interviu afim de não deixar as coisas chegarem às vias de fato. O pai esbravejou, xingou tudo o que sabia e mais um pouco. Por que com ele, Deus? Porque não qualquer outro pai naquela cidade? A culpa era da mulher que passava a mão demais na cabeça das crianças. Saiu deixando aquele complô na sala, sem falar nada, e assim permaneceu por quase uma semana.
Não falou com ninguém dentro de casa. Nem na cama, junto da mulher, dormiu. No sexto dia, foi atrás do filho na cozinha porque sabia que não tinha ninguém em casa. Só falaria tudo que estava guardado apenas uma vez, aquela palhaçada tinha que acabar.
- Presta atenção que não vou repetir. Se não quiser concordar, pode se preparar pra arrumar suas malas. Entendido? - o medo era tanto que a única coisa que conseguiu foi balançar a cabeça. - No último Natal, seu irmão trouxe a namorada nova pra gente conhecer, na última Páscoa, sua irmã trouxe o namorado pra celebrar com a gente. Se você um dia sonhar em trazer esse rapaz aqui, ficaremos muito felizes em recebê-lo. - as lágrimas de ambos agora escorrendo.- Antes de ser qualquer outra coisa, você é meu filho, e isso já é razão suficiente para te amar para sempre.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Sete pecados - Avareza
Saiu da faculdade com fome. A última refeição havia sido ao meio-dia e já eram dez da noite. Já tinha ido trabalhar, cansaço, ainda teve que correr para chegar à tempo de apresentar um trabalho, mais cansaço. Vida de merda. Cada vez menos tempo, mais trabalho, e a fome que não parava de crescer. Sabia que não deveria reclamar, mas faz parte da natureza humana. Sempre tem algo faltando, que poderia mudar ou melhorar. Buscamos preencher essa sensação de vazio de toda maneira, talvez reclamar seja uma delas. Ou isso, ou apenas fome mesmo. Resolveu comer um sanduíche antes de ir para casa, um vazio a menos na sua vida.
A primeira atendente foi logo dizendo que não tinha pão de três queijos. Esse era o sinal para que fosse embora, mas a fome era grande. Ficou. Parmesão e orégano no lugar dos três queijos, carne e queijo prato de recheio. Esquenta? Sim, quem é que come sanduíche frio? A segunda atendente alertou sobre a falta de cebola. É, tomate tinha, mas a cebola que tanto gostava estava em falta, bem como a maionese e o cookie tradicional. Teve que se contentar com o que tinha. Vida de merda. Onde estão os direitos humanos na hora que mais precisamos deles? Todo ser humano deve ter direito a um sanduíche digno do seu paladar após um dia cansativo, mas a fome falou mais alto.
Ao sair, escutou uma voz desconhecida e cansada pedir por um trocado. Mal fez questão de olhar. A voz continuou acompanhando-o até o carro. Qualquer ajuda servia, pelo amor de Deus. Não estava ali porque queria, era professor de inglês com quarenta e cinco anos de estudo. Se a situação fosse outra, se o local fosse outro, se a pessoa fosse outra e se ele mesmo não fosse professor de inglês, talvez aquela voz o tivesse convencido. É certo que professor não ganha muito, mas daí a ser morador de rua já é uma outra história. Abriu o carro sem nem ao menos olhar para o ser humano ao seu lado. Não era seu problema, a culpa era do Estado que deixou aquele indivíduo nas condições que se encontrava. A vida é uma merda, mas cada um cuida da sua. Foi quando a voz desistiu que tudo mudou. Com um sotaque de fazer inveja a muito americano, agradeceu pela atenção e disse para dirigir com cuidado. Virou para olhar o homem que estava ao seu lado.
Ali estava a figura de um homem franzino, de pele castigada e voz rouca de locutor de rádio. Sentiu pena, queria ajudá-lo. Por sorte, ele carregava consigo uma quantidade boa de currículos. Foram até a porta da lanchonete pegar um e, lá mesmo, conversaram sobre as desventuras que o levaram até ali. A ida aos Estados Unidos ainda jovem, a família que se desfez, a família que fez por lá, a separação dos pais, o câncer do pai, a vinda para o Brasil, o trabalho num navio, as amizades e os cursos que fez, a mulher que amou e a que o traiu, o azar de ter o seu mundo tomado das suas mãos. Vida de merda, mas não mais a sua, a daquela pessoa à sua frente. O que era comer um sanduíche diferente comparado a não ter o que comer? Ter pouco tempo e muito trabalho com muito tempo e nenhum trabalho? Os seus problemas com os problemas dele? Deixou o dinheiro que tinha trocado, era pouco, porém um começo. Um começo que aquele exemplo de vida não queria aceitar, preferia que ele apenas entregasse o seu currículo.
A primeira atendente foi logo dizendo que não tinha pão de três queijos. Esse era o sinal para que fosse embora, mas a fome era grande. Ficou. Parmesão e orégano no lugar dos três queijos, carne e queijo prato de recheio. Esquenta? Sim, quem é que come sanduíche frio? A segunda atendente alertou sobre a falta de cebola. É, tomate tinha, mas a cebola que tanto gostava estava em falta, bem como a maionese e o cookie tradicional. Teve que se contentar com o que tinha. Vida de merda. Onde estão os direitos humanos na hora que mais precisamos deles? Todo ser humano deve ter direito a um sanduíche digno do seu paladar após um dia cansativo, mas a fome falou mais alto.
Ao sair, escutou uma voz desconhecida e cansada pedir por um trocado. Mal fez questão de olhar. A voz continuou acompanhando-o até o carro. Qualquer ajuda servia, pelo amor de Deus. Não estava ali porque queria, era professor de inglês com quarenta e cinco anos de estudo. Se a situação fosse outra, se o local fosse outro, se a pessoa fosse outra e se ele mesmo não fosse professor de inglês, talvez aquela voz o tivesse convencido. É certo que professor não ganha muito, mas daí a ser morador de rua já é uma outra história. Abriu o carro sem nem ao menos olhar para o ser humano ao seu lado. Não era seu problema, a culpa era do Estado que deixou aquele indivíduo nas condições que se encontrava. A vida é uma merda, mas cada um cuida da sua. Foi quando a voz desistiu que tudo mudou. Com um sotaque de fazer inveja a muito americano, agradeceu pela atenção e disse para dirigir com cuidado. Virou para olhar o homem que estava ao seu lado.
Ali estava a figura de um homem franzino, de pele castigada e voz rouca de locutor de rádio. Sentiu pena, queria ajudá-lo. Por sorte, ele carregava consigo uma quantidade boa de currículos. Foram até a porta da lanchonete pegar um e, lá mesmo, conversaram sobre as desventuras que o levaram até ali. A ida aos Estados Unidos ainda jovem, a família que se desfez, a família que fez por lá, a separação dos pais, o câncer do pai, a vinda para o Brasil, o trabalho num navio, as amizades e os cursos que fez, a mulher que amou e a que o traiu, o azar de ter o seu mundo tomado das suas mãos. Vida de merda, mas não mais a sua, a daquela pessoa à sua frente. O que era comer um sanduíche diferente comparado a não ter o que comer? Ter pouco tempo e muito trabalho com muito tempo e nenhum trabalho? Os seus problemas com os problemas dele? Deixou o dinheiro que tinha trocado, era pouco, porém um começo. Um começo que aquele exemplo de vida não queria aceitar, preferia que ele apenas entregasse o seu currículo.
terça-feira, 2 de abril de 2013
Coragem - Apenas mais uma de amor (17)
Dava na cara de quem falasse dela, justo ela, moça de família decente. Ainda mais quando vinha da boca de uns e outros que dela falavam, mas não sabiam o que tinham em casa. Dormiam com o inimigo e não sabiam. Umas desavergonhadas, mas que ninguém abria a boca pra falar nada. Isso tudo era inveja de tanta formosura. Deus dera a beleza que deveria ser de todas as moças da redondeza só para ela. Não tinha uma que chegasse aos pés dela, umas desqualificadas que viviam de fazer fuxico pros maridos.
Sempre tinha um pra falar, fosse na mesa do bar, ou na saída da missa. Oras, nenhum deles nem sequer tocara nela, casara virgem e com atestado de pureza dado pelas beatas. Era só porque a danada era bonita por demais, só podia. Um rebanho de mulher feia daquele que só arranjou marido porque os cabras não tinham opção melhor, uns cabras frouxo, cheios de ponta, pulando de cama em cama pra esquecer a miséria que tinham em casa. Qualidadezinha de cidade, viu? Ainda queriam encher a boca pra falar do raio de esperança que atingira aquele fim de mundo, um anjo enviado pra salvar essa terra de mulher feia. Tinha que mandar prender esse povo pra deixarem de ser besta.
Ainda tinham coragem de dizer na cara dele que ela tinha um amante, assim na lata. E como sabiam? Ninguém nunca via nada, ninguém nunca sabia de nada. Sempre a mesma conversa de que suspeitavam de alguma coisa só porque ela andava mais feliz. Ôxe, e ser feliz agora é crime, é? Ele sim que sabia, que estava sempre do lado. Tinha certeza de que ela sempre fora fiel à ele, o único das redondezas que não tinha a cabeça pesada. Se pudesse, levava ela embora, poupava a de tanta calúnia por parte desse povo mulambento. Sua vontade era casar com ela e se mandar dali, mas existe uma grande diferença entre defendê-la da língua afiada daquela gentinha e protegê-la da fúria do coronel quando ele descobrisse que sua mulher fugira com um de seus capangas.
Sempre tinha um pra falar, fosse na mesa do bar, ou na saída da missa. Oras, nenhum deles nem sequer tocara nela, casara virgem e com atestado de pureza dado pelas beatas. Era só porque a danada era bonita por demais, só podia. Um rebanho de mulher feia daquele que só arranjou marido porque os cabras não tinham opção melhor, uns cabras frouxo, cheios de ponta, pulando de cama em cama pra esquecer a miséria que tinham em casa. Qualidadezinha de cidade, viu? Ainda queriam encher a boca pra falar do raio de esperança que atingira aquele fim de mundo, um anjo enviado pra salvar essa terra de mulher feia. Tinha que mandar prender esse povo pra deixarem de ser besta.
Ainda tinham coragem de dizer na cara dele que ela tinha um amante, assim na lata. E como sabiam? Ninguém nunca via nada, ninguém nunca sabia de nada. Sempre a mesma conversa de que suspeitavam de alguma coisa só porque ela andava mais feliz. Ôxe, e ser feliz agora é crime, é? Ele sim que sabia, que estava sempre do lado. Tinha certeza de que ela sempre fora fiel à ele, o único das redondezas que não tinha a cabeça pesada. Se pudesse, levava ela embora, poupava a de tanta calúnia por parte desse povo mulambento. Sua vontade era casar com ela e se mandar dali, mas existe uma grande diferença entre defendê-la da língua afiada daquela gentinha e protegê-la da fúria do coronel quando ele descobrisse que sua mulher fugira com um de seus capangas.
terça-feira, 19 de março de 2013
Marido e mulher - Apenas mais uma de amor (16)
Doutor, o senhor não me conhece, mas deve conhecer alguém na mesma situação que a minha. Claro que conhece, todo mundo tem um conhecido que amou a mulher mais do que tudo nesse mundo, deu amor, carinho e presente pra que a danada não fosse embora, e mesmo assim foi traído. Não vou dizer o que eu penso dela pra vossa excelência porque acaba sendo um desrespeito à sua pessoa e até acabo perdendo a razão, mas sei que uma autarquia do seu calibre consegue imaginar.
Pois o senhor veja como são as coisas, eu trabalhando o dia inteiro, dois empregos, tudo pra fazer as vontades da patroa, que não eram poucas, e ela me enchendo de ponta com um cabra que trazia a água e o botijão de gás. Queria matar a sem-vergonha, e o senhor vá me desculpando o palavreado porque a pessoa até se exalta lembrando dessas coisas, porque é mais fácil matar uma mulher dessas do que um macho diferente toda semana. Pelo contrário, assumi a fama de corno e botei ela pra fora de casa sem fazer muito enxame que eu não sou abelha pra tá incomodando os outros com meus problemas. E veja só, doutor, num deu nem dois meses e eu mandei entregar flores e pendurei faixas pra ela saber o quanto eu ainda pensava nela. Agora, pergunte se ela gostou? Num ligou nem pra agradecer, nem pra dizer que não tinha volta, pelo contrário, mandou uma eminência da sua categoria vir aqui prender um trabalhador que só cometeu o crime de amar a mulher errada.
Ela disse que eu tava difamando a pessoa dela aqui no bairro, mas isso é uma calúnia. Doutor, que tem de errado num coitado como eu dizer que pensa na mulher que amou por tanto tempo? Mesmo depois de tanta ponta, mandei pendurar pelo bairro todo uma ruma de faixa dizendo que pensava nela o dia todo, principalmente no trabalho. Eu só queria demonstrar os meus sentimentos verdadeiros pro bairro todo, não precisava nem ela voltar que eu num sô besta de ter ela aqui de volta. Apaixonado sim, mas abestalhado não. Hã? Com o que eu trabalho? Doutor, eu vou ser sincero com o senhor porque até agora eu não disse nenhuma inverdade, de dia eu sou gari e de noite, porteiro de cabaré, mas eu juro pelo amor que tenho por essa carniça, que foi nas melhores das intenções.
Pois o senhor veja como são as coisas, eu trabalhando o dia inteiro, dois empregos, tudo pra fazer as vontades da patroa, que não eram poucas, e ela me enchendo de ponta com um cabra que trazia a água e o botijão de gás. Queria matar a sem-vergonha, e o senhor vá me desculpando o palavreado porque a pessoa até se exalta lembrando dessas coisas, porque é mais fácil matar uma mulher dessas do que um macho diferente toda semana. Pelo contrário, assumi a fama de corno e botei ela pra fora de casa sem fazer muito enxame que eu não sou abelha pra tá incomodando os outros com meus problemas. E veja só, doutor, num deu nem dois meses e eu mandei entregar flores e pendurei faixas pra ela saber o quanto eu ainda pensava nela. Agora, pergunte se ela gostou? Num ligou nem pra agradecer, nem pra dizer que não tinha volta, pelo contrário, mandou uma eminência da sua categoria vir aqui prender um trabalhador que só cometeu o crime de amar a mulher errada.
Ela disse que eu tava difamando a pessoa dela aqui no bairro, mas isso é uma calúnia. Doutor, que tem de errado num coitado como eu dizer que pensa na mulher que amou por tanto tempo? Mesmo depois de tanta ponta, mandei pendurar pelo bairro todo uma ruma de faixa dizendo que pensava nela o dia todo, principalmente no trabalho. Eu só queria demonstrar os meus sentimentos verdadeiros pro bairro todo, não precisava nem ela voltar que eu num sô besta de ter ela aqui de volta. Apaixonado sim, mas abestalhado não. Hã? Com o que eu trabalho? Doutor, eu vou ser sincero com o senhor porque até agora eu não disse nenhuma inverdade, de dia eu sou gari e de noite, porteiro de cabaré, mas eu juro pelo amor que tenho por essa carniça, que foi nas melhores das intenções.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Apenas mais uma de amor (15)
Já estava desacreditado no amor há um bom tempo. Essa historinha de expressar os sentimentos, até mesmo tê-los, agora parecia muita estupidez. Ninguém podia culpá-lo. As decepções amorosas o levaram a blindar seu coração. Morresse de amores quem quisesse, estava decidido a sobreviver às desilusões da vida à dois. Demorou para se acostumar com essa nova filosofia, mas não sofreria por mais ninguém. Nunca mais nós.
Avisava antes mesmo de se apresentar. Não queria sofrer, mas também não queria enganar ninguém. Prometia a melhor noite da vida delas e só. Um segundo ou um terceiro encontro talvez. Tudo dependia de como elas lidavam com o fato de ser apenas físico. Nada de planos ou ligações para matar a saudade. Oi, como vai, ah, ah, valeu, foi bom, adeus.
Nem todas conseguiam lidar com isso. Não era ele que limitava o número de encontros, mas sim o psicológico delas. A maioria acreditava que iria mudá-lo ou que a conversa inicial era uma brincadeira pra quebrar o gelo. Boa parte delas, psicólogas, acreditavam poder curá-lo do seu trauma com relacionamentos. Essas eram as preferidas, faziam de tudo na tentativa de convertê-lo. Porém, foi pela única que pareceu não se importar, que ele pareceu se apaixonar.
Estavam deitados nus debaixo dos lençóis. Era o sexto encontro deles. Os pais dela tinham viajado, deixando o apartamento vazio para os dois. Ambos ainda arfavam quando o medo se tornou real:
- E aí? - perguntou enquanto encostava o queixo no peito dele, os olhos claros parecendo varrer a mente dele em busca da resposta.
- E aí o que? - sabia o que ela queria dizer, mas não queria deixar a conversa fluir, não dessa vez, não com ela.
- A gente, como é que a gente fica depois de hoje?
O brilho nos olhos dela era especial, único, mas agora já era tarde. Iria sentir falta deles, entretanto, não arriscaria tudo que havia protegido. Do jeito que as coisas se encaminhavam, tudo indicava que acabariam juntos, mas não, ela tinha que ter apressado as coisas. Era a coisa certa a se fazer. Ela merecia uma pessoa que entrasse num relacionamento por completo.
- Você assistia muito desenho quando era mais nova?
- Hã? - a mudança repentina de assunto a pegou de surpresa. - Desenho animado? Assistia...por quê?
- Sabe aqueles desenhos de ninja?
- Sei...- a conversa, cada vez mais estranha, a fez sentar na cama.
- Então, não tinha umas bombinhas de fumaça? To usando uma agora. Puff, adeus.
Pegou suas coisas e foi embora antes dela poder processar os fatos. Sentiria sua falta.
Avisava antes mesmo de se apresentar. Não queria sofrer, mas também não queria enganar ninguém. Prometia a melhor noite da vida delas e só. Um segundo ou um terceiro encontro talvez. Tudo dependia de como elas lidavam com o fato de ser apenas físico. Nada de planos ou ligações para matar a saudade. Oi, como vai, ah, ah, valeu, foi bom, adeus.
Nem todas conseguiam lidar com isso. Não era ele que limitava o número de encontros, mas sim o psicológico delas. A maioria acreditava que iria mudá-lo ou que a conversa inicial era uma brincadeira pra quebrar o gelo. Boa parte delas, psicólogas, acreditavam poder curá-lo do seu trauma com relacionamentos. Essas eram as preferidas, faziam de tudo na tentativa de convertê-lo. Porém, foi pela única que pareceu não se importar, que ele pareceu se apaixonar.
Estavam deitados nus debaixo dos lençóis. Era o sexto encontro deles. Os pais dela tinham viajado, deixando o apartamento vazio para os dois. Ambos ainda arfavam quando o medo se tornou real:
- E aí? - perguntou enquanto encostava o queixo no peito dele, os olhos claros parecendo varrer a mente dele em busca da resposta.
- E aí o que? - sabia o que ela queria dizer, mas não queria deixar a conversa fluir, não dessa vez, não com ela.
- A gente, como é que a gente fica depois de hoje?
O brilho nos olhos dela era especial, único, mas agora já era tarde. Iria sentir falta deles, entretanto, não arriscaria tudo que havia protegido. Do jeito que as coisas se encaminhavam, tudo indicava que acabariam juntos, mas não, ela tinha que ter apressado as coisas. Era a coisa certa a se fazer. Ela merecia uma pessoa que entrasse num relacionamento por completo.
- Você assistia muito desenho quando era mais nova?
- Hã? - a mudança repentina de assunto a pegou de surpresa. - Desenho animado? Assistia...por quê?
- Sabe aqueles desenhos de ninja?
- Sei...- a conversa, cada vez mais estranha, a fez sentar na cama.
- Então, não tinha umas bombinhas de fumaça? To usando uma agora. Puff, adeus.
Pegou suas coisas e foi embora antes dela poder processar os fatos. Sentiria sua falta.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Carlinhos
A primeira coisa que escutei do engenheiro no estágio foi:
- Conseguiu subir a ladeira com carro? Deu sorte, basta chover um pouco mais pra não chegar ninguém aqui em cima.
A chuva não deu trégua durante o resto do dia. Era o meu primeiro dia de trabalho e eu não queria fazer corpo mole, desci para o campo e conheci a obra e os funcionários. Dezesseis blocos de três andares cada, espalhados por uma área toda coberta por barro. A lama era suficiente para cobrir o meu pé inteiro. Mesmo assim, cumpri o meu papel sem reclamar. Quem achou ruim foi a minha mãe quando me viu entrar em casa com as botas imundas sujando o chão. Dois dias depois ela percebeu que tudo na vida pode piorar.
O céu desabava do lado de fora. São pedro, achando pouca a desgraça nos meus dois primeiros dias de trabalho, resolveu descarregar toda a água que ainda estava acumulada nas nuvens de uma só vez. Minha mãe, que nunca me deixou faltar aos meus compromissos, perguntou se realmente eu iria trabalhar. Como era o meu terceiro dia ainda, botei na cabeça que iria mostrar serviço, nem que não fizesse nada por lá, apareceria. Foi só ao terminar de me vestir que lembrei das palavras do engenheiro, por sorte, também lembrei que o meu pai conhecia algumas pessoas que moravam perto da obra. Quando expliquei pra ele que não conseguiria subir de carro e que precisava deixar o meu carro embaixo para subir caminhando, ele me mandou procurar um tal de Carlinhos na primeira casa depois da entrada. Foi o que fiz.
Foi difícil encontrar a casa. Mesmo com o desembaçador ligado, continuava sem enxergar nada direito. Quando finalmente encontrei, o portão já estava aberto e, como não vi ninguém, resolvi entrar. Parei o carro na frente da única porta da casa que se encontrava aberta e buzinei. Surgiu então um homem barrigudo, sem camisa, uma mulher com uma criança no colo e mais duas agarradas na perna. Deduzi que ele era a pessoa pela qual deveria procurar, mas resolvi ir com calma:
- Bom dia, estou procurando o senhor Carlos que mora aqui.
- Bom dia - respondeu meio desconfiado-, mas você vai me desculpar. Aqui não tem nenhum Carlos não.
Comecei a imaginar que estava na casa errada, mas como meu pai conhecia muita gente pela região, arrisquei mais um pouco pra ver no que dava:
- É o seguinte, eu trabalho nessa obra aí do lado, mas nessa chuva não tem como subir de carro. Meu pai me disse que eu viesse aqui atrás do sr. Carlos que ele deixaria eu estacionar o carro na casa dele.
- Como eu já te disse, aqui não tem nenhum Carlos não, mas como é o nome do seu pai?
- Homero, Homero Felizola.
- Ah, rapaz, eu conheço ele. Pode deixar o carro estacionado ali na frente que a gente toma conta.
- Pô,cara, brigadão mesmo. O senhor é que é o dono da casa?
- Não,não, quem mora aqui é Carlinhos, mas ele deu uma saidinha.
E depois disso eu ainda tive que caminhar um quilômetro e meio com o barro cobrindo a calça e a chuva batendo forte no rosto pra chegar na obra e escutar do apontador:
- Você é doido de vir trabalhar nessa chuva, é? Nem os engenheiros e nem os técnicos vieram hoje, Vá pra casa, negão, que você ganha mais.
- Conseguiu subir a ladeira com carro? Deu sorte, basta chover um pouco mais pra não chegar ninguém aqui em cima.
A chuva não deu trégua durante o resto do dia. Era o meu primeiro dia de trabalho e eu não queria fazer corpo mole, desci para o campo e conheci a obra e os funcionários. Dezesseis blocos de três andares cada, espalhados por uma área toda coberta por barro. A lama era suficiente para cobrir o meu pé inteiro. Mesmo assim, cumpri o meu papel sem reclamar. Quem achou ruim foi a minha mãe quando me viu entrar em casa com as botas imundas sujando o chão. Dois dias depois ela percebeu que tudo na vida pode piorar.
O céu desabava do lado de fora. São pedro, achando pouca a desgraça nos meus dois primeiros dias de trabalho, resolveu descarregar toda a água que ainda estava acumulada nas nuvens de uma só vez. Minha mãe, que nunca me deixou faltar aos meus compromissos, perguntou se realmente eu iria trabalhar. Como era o meu terceiro dia ainda, botei na cabeça que iria mostrar serviço, nem que não fizesse nada por lá, apareceria. Foi só ao terminar de me vestir que lembrei das palavras do engenheiro, por sorte, também lembrei que o meu pai conhecia algumas pessoas que moravam perto da obra. Quando expliquei pra ele que não conseguiria subir de carro e que precisava deixar o meu carro embaixo para subir caminhando, ele me mandou procurar um tal de Carlinhos na primeira casa depois da entrada. Foi o que fiz.
Foi difícil encontrar a casa. Mesmo com o desembaçador ligado, continuava sem enxergar nada direito. Quando finalmente encontrei, o portão já estava aberto e, como não vi ninguém, resolvi entrar. Parei o carro na frente da única porta da casa que se encontrava aberta e buzinei. Surgiu então um homem barrigudo, sem camisa, uma mulher com uma criança no colo e mais duas agarradas na perna. Deduzi que ele era a pessoa pela qual deveria procurar, mas resolvi ir com calma:
- Bom dia, estou procurando o senhor Carlos que mora aqui.
- Bom dia - respondeu meio desconfiado-, mas você vai me desculpar. Aqui não tem nenhum Carlos não.
Comecei a imaginar que estava na casa errada, mas como meu pai conhecia muita gente pela região, arrisquei mais um pouco pra ver no que dava:
- É o seguinte, eu trabalho nessa obra aí do lado, mas nessa chuva não tem como subir de carro. Meu pai me disse que eu viesse aqui atrás do sr. Carlos que ele deixaria eu estacionar o carro na casa dele.
- Como eu já te disse, aqui não tem nenhum Carlos não, mas como é o nome do seu pai?
- Homero, Homero Felizola.
- Ah, rapaz, eu conheço ele. Pode deixar o carro estacionado ali na frente que a gente toma conta.
- Pô,cara, brigadão mesmo. O senhor é que é o dono da casa?
- Não,não, quem mora aqui é Carlinhos, mas ele deu uma saidinha.
E depois disso eu ainda tive que caminhar um quilômetro e meio com o barro cobrindo a calça e a chuva batendo forte no rosto pra chegar na obra e escutar do apontador:
- Você é doido de vir trabalhar nessa chuva, é? Nem os engenheiros e nem os técnicos vieram hoje, Vá pra casa, negão, que você ganha mais.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Sete pecados - Gula
Há quanto tempo já não ficava excitada daquele jeito? Fez um esforço, mas desistiu. Não iria e nem queria lembrar. Estava decidida sobre mais uma mudança na sua vida. Mais um grande salto que daria na vida. Nem o Papa a impediria. Ele que entendesse que a necessidade fazia o homem, e a mulher também. Deus haveria de perdoá-la,nessa vida ou nas que viessem.
Não era sua culpa, o marido que arcasse com ela. Foram os erros dele que levaram-na a pecar. Chegou em casa com umas conversas esquisitas que ouvira do padre durante a missa. Tinham acabado de se casar na época, era hora de aproveitar os momentos a sós que não tiveram quando saiam para namorar. A mãe dele, muito ciumenta, que não deixava os dois em paz, o pai dela, coronel, que só permitia as saídas deles se levassem os cunhados juntos. Tudo que chegaram até chegar naquele ponto pareceu ter sido em vão depois de escutar a boa nova. Mais uma privação em nome do amor que tinha por ele.
Foram meses difíceis. Tentava mudar foco,mas não deixavam, as amigas principalmente. Toda vez que se encontravam, não importava por onde começavam, o assunto sempre voltava para aquele-que-não-deveria-ser-comentado. Uma falava que o do marido era o melhor, a outra defendia que o do dela era mais suculento, ao ponto de dar água na boca, mas ela só desconversava. Não tinha muita competência para falar do assunto, algumas vezes até mentia para não ficar por baixo. Acabou por se encher da palhaçada do marido. Ele quisesse resistir, que fosse sozinho. Ela se entregaria aos prazeres da carne.
Saiu de casa preparada. Foi direto ao local certo. Disse o que queria e as suas intenções ao primeiro que passou. Estava sedenta, era perceptível. Ele a levou para um lugar mais vazio, ali ela saciaria a sua vontade em paz. Pediu que ela sentasse, voltaria em instantes para satisfazê-la. Voltou já preparado, do jeito que ela tanto desejara. Lambeu os beiços para o pedaço de carne que se aproximava da sua boca. Se arrepiou toda quando sentiu aquele calor tão vivo encostar seus lábios. Gemeu baixinho. Cada centímetro do seu corpo pedia por mais. Isso, continue. Ficou ali sentadinha até atingir um orgasmo gastronômico.
Não era sua culpa, o marido que arcasse com ela. Foram os erros dele que levaram-na a pecar. Chegou em casa com umas conversas esquisitas que ouvira do padre durante a missa. Tinham acabado de se casar na época, era hora de aproveitar os momentos a sós que não tiveram quando saiam para namorar. A mãe dele, muito ciumenta, que não deixava os dois em paz, o pai dela, coronel, que só permitia as saídas deles se levassem os cunhados juntos. Tudo que chegaram até chegar naquele ponto pareceu ter sido em vão depois de escutar a boa nova. Mais uma privação em nome do amor que tinha por ele.
Foram meses difíceis. Tentava mudar foco,mas não deixavam, as amigas principalmente. Toda vez que se encontravam, não importava por onde começavam, o assunto sempre voltava para aquele-que-não-deveria-ser-comentado. Uma falava que o do marido era o melhor, a outra defendia que o do dela era mais suculento, ao ponto de dar água na boca, mas ela só desconversava. Não tinha muita competência para falar do assunto, algumas vezes até mentia para não ficar por baixo. Acabou por se encher da palhaçada do marido. Ele quisesse resistir, que fosse sozinho. Ela se entregaria aos prazeres da carne.
Saiu de casa preparada. Foi direto ao local certo. Disse o que queria e as suas intenções ao primeiro que passou. Estava sedenta, era perceptível. Ele a levou para um lugar mais vazio, ali ela saciaria a sua vontade em paz. Pediu que ela sentasse, voltaria em instantes para satisfazê-la. Voltou já preparado, do jeito que ela tanto desejara. Lambeu os beiços para o pedaço de carne que se aproximava da sua boca. Se arrepiou toda quando sentiu aquele calor tão vivo encostar seus lábios. Gemeu baixinho. Cada centímetro do seu corpo pedia por mais. Isso, continue. Ficou ali sentadinha até atingir um orgasmo gastronômico.
domingo, 30 de outubro de 2011
Engenharia como nunca civil (4)
Quando resolvi fazer engenharia civil, saí perguntando às pessoas que conhecia como era o curso. Foram só elogios. Curso bom, momento de crescimento e ótimos salários. Não pensei duas vezes e prestei vestibular pra me tornar engenheiro. Depois que entrei foi que vi a furada que eu tinha entrado. Tudo o que me falaram é realmente verdade, mas até chegar no lugar que você quer, você sofre e sofre muito:
Antes eu tivesse visto esse vídeo mais cedo.
sábado, 22 de outubro de 2011
Apenas mais uma de amor (14)
Chegou em casa tão apressado que nem viu o homem sentado na calçada. Há dias estava fora de casa, mas terminara o serviço mais cedo e decidira fazer uma surpresa para a esposa. Tocou a campainha uma, duas, três vezes e nada. Ela deveria estar em casa. Tinha mandado uma mensagem horas antes avisando que tinha organizado um sarau em casa. Ele ficara bastante feliz ao saber que ela finalmente começara a se interessar por livros. Foi só após a quarta tentativa que notou a presença daquele estranho:
- Se veio pra festinha que tava rolando, perdeu a viagem. Os tiras receberam umas denúncias anônimas dos vizinhos e levaram todo mundo pra delegacia, era pó demais. Deram nem tempo pro pessoal se vestir...
- Er... desculpa, mas o senhor deve ter confundido a minha casa com a casa de shows que fica no outro quarteirão. Todo mundo aqui na rua já esperava que isso acontecesse um dia.
- Não, não, é aqui mesmo. Tá aqui escrito no convite, pode ler se quiser.
- Huuum, parece tá certo. Rua B, número 69, próximo ao posto de gasolina e assinado por... como é mesmo esse nome aqui? Arlete Boqu... Porra mermão, mas essa daqui é a minha muher. Que palhaçada é essa? Mais cedo eu recebi uma mensagem dizendo que estava rolando uma festinha em casa, só que ela me disse que era um sarau. Uma festa culta e refinada, não essa pouca vergonha daqui.
- Ah, mas isso foi. Culta e curta. Ela até fez citações do livro daquela escritora famosa que lançou filme recentemente.
- A Stephenie Meyer?
- Não, a Raquel Pacheco. Ela pegou o livro nas mãos e disse em alto e bom som que hoje não iria dar, só distribuir.
- Ma... ma... mas ela me disse que era só um sarau!
- Vai ver ela digitou suruba errado. É aquela coisa, digitar mensagem em cima de um mecânico não é pra qualquer um.
- Teve touro mecânico!?
- Rapaz, se ele era um touro na cama eu não sei, mas mecânico eu sei que ele era porque vi o macacão sujo de óleo.
- Eu sabia que não devia ter confiado, todo mundo sabia e já tinha me alertado. Só o trouxa aqui ainda quis acreditar na palavra daquela vagabunda miserável. Sempre foi assim piranha na cama só que dizia que era só comigo. Ela que fique lá presa pra aprender. Na delegacia eu só vou com o meu advogado e os papéis da separação.
- É, meu amigo, quem mandou confiar em mulher? Bom...o recado tá dado e eu ainda tenho muito o que fazer. Até mais.
- Peraí, só mais uma coisa que ainda não entendi. Como é que você sabe disso tudo sem estar na festa?
- Pra falar a verdade eu estava, mas fui expulso pouco antes da polícia chegar. Quando chegou a minha vez, a senhora sua mulher mandou eu me vestir e ir embora. Disse que não queria ninguém com um nome que lembrasse você. Quando ela estava saindo daqui no camburão, me pediu pra tomar conta da casa por uns dias que eu seria recompensado depois, mas eu juro que não sabia que ela era casada! Só descobri porque ela falou quando me botou pra fora.
- Quer dizer que aquela rapariga ia te dar, mas ficou com pena do otário aqui? Aquela filha da puta me paga, vou acabar com a vida dela.
- Aí já é briga de marido e mulher e eu não tenho que meter a minha colher, com todo respeito. Papo tá bom, mas como já disse, tenho que ir. Satisfação te conhecer.
- De certo modo foi bom ter te encontrado aqui ainda. Primeiro porque isso me fez acreditar no que me diziam e depois porque é difícil achar alguém com um nome tão esquisito como Adalgamir.
- Adalgamir? Eu acho que você se enganou. Meu nome é Cornélio.
Acompanhou o outro ir embora com o olhar. Os vizinhos já começavam a aparecer nas janelas e portas. Não iria aguentar a gozação. Mudou-se sem nem avisar à família.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Tempos de escola - Coordenação
Durante toda a minha vida escolar, aproveitei bastante o dinheiro dos meus pais. Utilizei todos os serviços que a escola poderia me oferecer, dentro e fora do horário de funcionamento. Da sala de aula à enfermaria, que na época era apenas uma caixa enorme com uma tesoura e um punhado de gases, passando pela quadra, piscina, sala de informática (vulga lan house), sala de artes, biblioteca, secretaria, coordenação e diretoria, com ênfase nesses dois últimos.
A profissão de coordenador é a de engenheiro e a de mestre-de-obras da área de humanas. É ele que tem que interagir com os alunos e resolver os problemas deles. Como se não bastasse o fato de não se ter reconhecimento, estudante não é raça que preste. Faz amizade, mas na hora de fazer besteira não lembra que além de amigo, existe ali um profissional ao qual ele deve ser submisso. Bati muita boca com as coordenadoras até o ensino médio, às vezes com razão e às vezes sem, mas tudo isso acabou no 2º ano com a chegada de Lívia.
Ela é do tipo de pessoa que tenta ser amiguinha de todo mundo distribuindo sorrisos, mas que pelas costas só te passa rasteira. Era uma agente infiltrada pra acabar com a nossa alegria. Todos os dias ela ficava na portaria dando bom dia para os alunos, fato que sempre me fez crer que a tinham contrado para a função errada. Por educação, a gente respondia pra que ela se sentisse útil ali. Entretanto, as pessoas não têm a mesma paciência. Algumas têm mais, outras menos e outras simplesmente não têm. Esse último caso era o do Alexandre.
Todos os dias ela o cumprimentava assim que ele chegava e duas coisas aconteciam, ou ele passava direto ou dava uma resposta nela. Era sempre a mesma coisa:
- Bom dia, Alexandre!
- Só se for pra você.
O pior é que ela não desistia ou reclamava, mas, um dia, a paciência dela se esgotou com ele:
- Bom dia, Alexandre...Alexandre, eu disse bom dia, deixe de ser mal-educado e responda.
- Minha amiga, mal-educado eu vou ser no dia que te responder.
Sabem aquele ditado que diz que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura? Foi desse dia em diante que eu percebi que existem pedras que é melhor você deixar virgem.
A profissão de coordenador é a de engenheiro e a de mestre-de-obras da área de humanas. É ele que tem que interagir com os alunos e resolver os problemas deles. Como se não bastasse o fato de não se ter reconhecimento, estudante não é raça que preste. Faz amizade, mas na hora de fazer besteira não lembra que além de amigo, existe ali um profissional ao qual ele deve ser submisso. Bati muita boca com as coordenadoras até o ensino médio, às vezes com razão e às vezes sem, mas tudo isso acabou no 2º ano com a chegada de Lívia.
Ela é do tipo de pessoa que tenta ser amiguinha de todo mundo distribuindo sorrisos, mas que pelas costas só te passa rasteira. Era uma agente infiltrada pra acabar com a nossa alegria. Todos os dias ela ficava na portaria dando bom dia para os alunos, fato que sempre me fez crer que a tinham contrado para a função errada. Por educação, a gente respondia pra que ela se sentisse útil ali. Entretanto, as pessoas não têm a mesma paciência. Algumas têm mais, outras menos e outras simplesmente não têm. Esse último caso era o do Alexandre.
Todos os dias ela o cumprimentava assim que ele chegava e duas coisas aconteciam, ou ele passava direto ou dava uma resposta nela. Era sempre a mesma coisa:
- Bom dia, Alexandre!
- Só se for pra você.
O pior é que ela não desistia ou reclamava, mas, um dia, a paciência dela se esgotou com ele:
- Bom dia, Alexandre...Alexandre, eu disse bom dia, deixe de ser mal-educado e responda.
- Minha amiga, mal-educado eu vou ser no dia que te responder.
Sabem aquele ditado que diz que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura? Foi desse dia em diante que eu percebi que existem pedras que é melhor você deixar virgem.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Apenas mais uma de amor (13)
Nasceu um romântico e assim continuaria até o final dos seus dias. Não por escolha ou experiência próprias. Estava no sangue da sua família. Do pai até o pai do pai do pai... Todos foram maridos para esposa nenhuma botar defeito, mas o destino o pregara uma peça. Seus ancestrais viveram em tempos diferentes. As ideias e as mulheres eram outras. Quando chorou pela primeira vez, o mundo já era um lugar hostil e a sua espécie estava em extinção. Pregava então o destino uma nova peça. Herdara uma mutação daquelas que só aparecem de tantas em tantas gerações. De caça, passou a caçador.
Os pais perceberam logo cedo que o menino era único. Sua primeira palavra foi bejo e com ela conquistou beijos de todas que o pegavam no colo. Deu seus primeiros passos quando tentava colher algumas flores para as primas no quintal. Os tios riam das travessuras do moleque, mas o pai pensava de outra forma. Quem tivesse suas cabritas que prendesse, não seria ele que desistimularia o filho. Mas foi na escola que a sua lenda teve início. A primeira coisa que fez ao aprender a escrever, foi uma carta para cada coleguinha e uma especial para a professora. Foi nesse dia que surgiram as primeiras fãs e os primeiros amores platônicos. E ele só estava começando.
Dos corações que arrebatou, todos amou. Alguns por dias, outros por meses e raros por anos. Partiu e teve o seu partido todas as vezes. Ao menos foi eterno com cada uma que se apaixonou. Fez surpresas e mais suspresas, sem nunca esquecer datas especiais ou trocar nomes. Foi sempre bem recebido pelas sogras e ficou tão amigo dos sogros que ainda se reunem para assistir o jogo. Escutava sempre dos ex-sogros que eles ainda eram jovens e que o destino sabia o que estava fazendo. Se não deu certo foi porque não era pra ser e só não era pra ser porque o seu defeito era amar todas ao mesmo tempo. E que culpassem o destino por tê-lo feito daquele jeito.
As coisas eram muito fáceis. Mulheres têm um fraco por romantismo e ele sabia. A maioria desejava um homem carinhoso e atencioso do lado. Mesmo que isso significasse dividí-lo com outra. Já ele desejava obter novas conquistas. Foi atrás de mais um sim que escutou o primeiro não. Não quero, não vou com você, não venha atrás de mim, não apareça mais na minha casa. Largou todas para ir atrás dela. Mostrar que poderia ser bom se assim quisesse. Estava apenas esperando ela chegar. Alguém que não queria conquistá-lo, mas sim deixar-se conquistar. Nascera um romântico e assim continuaria até o final dos seus dias.
Os pais perceberam logo cedo que o menino era único. Sua primeira palavra foi bejo e com ela conquistou beijos de todas que o pegavam no colo. Deu seus primeiros passos quando tentava colher algumas flores para as primas no quintal. Os tios riam das travessuras do moleque, mas o pai pensava de outra forma. Quem tivesse suas cabritas que prendesse, não seria ele que desistimularia o filho. Mas foi na escola que a sua lenda teve início. A primeira coisa que fez ao aprender a escrever, foi uma carta para cada coleguinha e uma especial para a professora. Foi nesse dia que surgiram as primeiras fãs e os primeiros amores platônicos. E ele só estava começando.
Dos corações que arrebatou, todos amou. Alguns por dias, outros por meses e raros por anos. Partiu e teve o seu partido todas as vezes. Ao menos foi eterno com cada uma que se apaixonou. Fez surpresas e mais suspresas, sem nunca esquecer datas especiais ou trocar nomes. Foi sempre bem recebido pelas sogras e ficou tão amigo dos sogros que ainda se reunem para assistir o jogo. Escutava sempre dos ex-sogros que eles ainda eram jovens e que o destino sabia o que estava fazendo. Se não deu certo foi porque não era pra ser e só não era pra ser porque o seu defeito era amar todas ao mesmo tempo. E que culpassem o destino por tê-lo feito daquele jeito.
As coisas eram muito fáceis. Mulheres têm um fraco por romantismo e ele sabia. A maioria desejava um homem carinhoso e atencioso do lado. Mesmo que isso significasse dividí-lo com outra. Já ele desejava obter novas conquistas. Foi atrás de mais um sim que escutou o primeiro não. Não quero, não vou com você, não venha atrás de mim, não apareça mais na minha casa. Largou todas para ir atrás dela. Mostrar que poderia ser bom se assim quisesse. Estava apenas esperando ela chegar. Alguém que não queria conquistá-lo, mas sim deixar-se conquistar. Nascera um romântico e assim continuaria até o final dos seus dias.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Engenharia como nunca civil (3)
Apesar de não entender muito bem a forma como as matérias da parte de desenho são dispostas, a aula de desenho arquitetônico foi das melhores desse período. Durante duas horas inteiras, o professor ficava sentado lá na frente enquanto a gente se virava projetando, desenhar é coisa de arquiteto e designer. Como não tinha aula propriamente dita, éramos livres para fazermos o que quiséssemos. Podiamos até mesmo conversar como se estivéssemos na mesa do bar. Se o professor não se incomodava, quem iria reclamar?
Em uma dessas aulas, um colega estava parado olhando para o seu projeto com um olhar pensativo. Então, começou a girar em torno da prancheta pensando no que iria fazer. O amigo dele, que estava na prancheta ao lado, não aguentou e foi até ele para saber o que estava acontecendo:
- Ei fófis, que é que você tanto pensa?
- Rapaz...Essa porta aqui do banheiro.
- Que é que tem ela?
- Na hora que ela abrir, vai bater na pia.
- Oxem, mermão, diminua ela então.
- Aí eu não vou passar na porta.
- E por que você não coloca uma porta de correr?
- Euuu, vai que eu não alcanço ela depois...
Em uma dessas aulas, um colega estava parado olhando para o seu projeto com um olhar pensativo. Então, começou a girar em torno da prancheta pensando no que iria fazer. O amigo dele, que estava na prancheta ao lado, não aguentou e foi até ele para saber o que estava acontecendo:
- Ei fófis, que é que você tanto pensa?
- Rapaz...Essa porta aqui do banheiro.
- Que é que tem ela?
- Na hora que ela abrir, vai bater na pia.
- Oxem, mermão, diminua ela então.
- Aí eu não vou passar na porta.
- E por que você não coloca uma porta de correr?
- Euuu, vai que eu não alcanço ela depois...
terça-feira, 12 de julho de 2011
Apenas mais uma de amor (12)
Se fôssemos perguntar de porta em porta qual a coisa mais importante para um relacionamento, tenho certeza que a resposta mais escutada seria amor. Filmes, novelas, livros, em todos os lugares em que há romance, o amor nunca é esquecido. Seu espaço estará sempre guardado nos discursos de casamento e nas cartas dos enamorados. Sem ele, casais não se uniriam para formar uma família. É bem verdade que ele é um sentimento poderoso e universal, mas existe um que é mais forte e mais importante. Um que depende mais da pessoa que está com você, do que de você: a admiração.
O mundo está cheio de amores mal resolvidos. Casais que se separam, mas que ainda se amam. Por mais forte que esse amor ainda seja, eles não voltam atrás porque não sentem mais admiração um pelo outro. Ao contrário do amor, que demora pra nascer, porém demora a ser esquecido, a admiração surge tão rápida quanto desaparece. Sem ela, some a vontade de continuar lutando para que tudo que existe naquele relacionamento continue existindo. O problema é que isso não depende de você.
É possível amar uma pessoa sem que ela te dê motivos. O jeito dela, as qualidades, defeitos, características, personalidade, podem te atrair mesmo que essa pessoa não tenha essa intenção. Depende de você, vê-la ou não com outros olhos. Mas admirar é diferente, você precisa que ela faça alguma coisa, por menor que seja, para que algo dentro de você acorde, porém, basta ela fazer o oposto para que o sentimento volte a dormir dentro de você.
São promessas quebradas, atitudes contraditórias, traições descobertas e datas esquecidas. Tudo isso pode causar feridas que são saradas pelo amor, mas uma vez que fica uma cicatriz no lugar, as coisas podem nunca mais voltar a ser como eram. E aí, não existe amor no mundo que mantenha esse casal unido.
O mundo está cheio de amores mal resolvidos. Casais que se separam, mas que ainda se amam. Por mais forte que esse amor ainda seja, eles não voltam atrás porque não sentem mais admiração um pelo outro. Ao contrário do amor, que demora pra nascer, porém demora a ser esquecido, a admiração surge tão rápida quanto desaparece. Sem ela, some a vontade de continuar lutando para que tudo que existe naquele relacionamento continue existindo. O problema é que isso não depende de você.
É possível amar uma pessoa sem que ela te dê motivos. O jeito dela, as qualidades, defeitos, características, personalidade, podem te atrair mesmo que essa pessoa não tenha essa intenção. Depende de você, vê-la ou não com outros olhos. Mas admirar é diferente, você precisa que ela faça alguma coisa, por menor que seja, para que algo dentro de você acorde, porém, basta ela fazer o oposto para que o sentimento volte a dormir dentro de você.
São promessas quebradas, atitudes contraditórias, traições descobertas e datas esquecidas. Tudo isso pode causar feridas que são saradas pelo amor, mas uma vez que fica uma cicatriz no lugar, as coisas podem nunca mais voltar a ser como eram. E aí, não existe amor no mundo que mantenha esse casal unido.
Assinar:
Postagens (Atom)