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quarta-feira, 11 de junho de 2014

10 maneiras de tomar (ou não) uma advertência

1º Ria. Não importa se você ri alto ou baixo, estrondosamente ou delicadamente. Rir tira a concentração de qualquer um. Durante a bronca, ria ironicamente pelo canto da boa, isso garantirá um passe livre.

2º Passeie. A sala nunca é grande ou pequena o bastante para você circular. O importante é não ficar parado. Passeie dentro da sala que certamente você expandirá seus horizontes.

3º Relembre. Seus tempos de criança te ajudarão nessa árdua batalha. Acorde o demônio adormecido nos confins do seu âmago. Invente as mais variadas brincadeiras. Use a imaginação. Vença e comemore sua vitória em casa.

4º Mate. Pernilongos, formigas e outros insetos não fazem parte do ambiente. Aproveite os momentos de silêncio para caçá-los. Mate quantos forem precisos. Quanto mais você matar, mais pontos serão acumulados. Dez pontos são suficientes para você ganhar seu bônus e passar de fase em sua caçada.

5º Discuta. Mesmo estando errado você deve se achar certo. Confronte tudo e todos. Repita o primeiro item enquanto discute que certamente sua discussão chegará a algum lugar.

6º Dispute. Converse o mais alto que puder, dispute voz com quem for preciso para alcançar a hegemonia do espaço sonoro, mas não espere que a sua palavra seja a final.

7º Aproveite. Qualquer discussão serve de faísca para que o circo pegue fogo. Certifique-se de manter  a vantagem durante toda a briga e que alguém esteja olhando. Mantenha a calma, brigue o suficiente para uma advertência, mas nunca o bastante para uma suspensão.

8º Transforme. A sala é o limite. Transforme-a. Ela pode virar um campo de futebol, uma quadra de vôlei ou uma trincheira, mas não se preocupe com as regras. Sempre haverá um juiz com um cartão vermelho esperando.

9º Forme. Um grupo de pagode nunca é demais. Junte canetas, os cadernos, batucar na mesa também vale. Crie um refrão animado e repita-o durante toda a música. Talvez você fique famoso e seja convidado a tocar na coordenação.

10º Dance. Enquanto realizam o nono item, levante-se e remexa. Não precisa ficar acanhado. Dance do jeito que achar o mais engraçado. Certifique-se de que a maioria esteja realizando o primeiro item. Se isso acontecer, se prepare para realizar o quinto item. Seu talento também será reconhecido e você também será convidado a dançar para pessoas mais importantes.


Se depois de tudo isso, você ainda assim permanecer na sala, sem sombra de dúvida, você é o filho da diretora.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

E o salário ó (2) - Observação

Não adianta, não importa a quantidade de horas que você levou para se preparar para dar uma aula, sempre há surpresas. O ser humano é imprevisível e você está ali para lidar com vários. Você pode falar sobre o mesmo assunto e discutir o mesmo tópico, mas a reação de cada aluno vai ser única, por isso cada turma é diferente. São essas experiências, pensamentos e histórias variadas que dão cara e ritmo à aula.  É esse mistério, essa incerteza, que me fazem gostar tanto de ensinar, mas também é o que mais me assusta.

Dar aula é como jogar roleta russa. Cada vez que o aluno levanta a mão dar sua opinião ou contar alguma história, você, no fundo no fundo, sente uma pontada de desespero e pede, encarecidamente, para que não seja nada demais e que não interrompa muito a aula. Reza para que aquele cartucho não seja o carregado. E não adianta tentar adivinhar quem irá te tomar a atenção e o tempo , pois é de onde menos se espera que a bala vem. A carinha de anjo ou a personalidade séria apenas maquiam a mente criminosa que há por trás.

Estávamos conversando sobre os tipos de livro preferidos e os livros favoritos de cada um. Uma que gosta de romances e dramas, outra que tem nos mistérios a sua preferência, gente que lê qualquer bom livro, e até mesmo gente que não gosta ou não sabe ler. Foi quando estávamos terminando de falar sobre grandes autores de mistério , que notei o braço apoiado na mesa e o dedo levantado. Não estava apontado para mim, mas podia atirar a qualquer momento:

- Alguma dúvida?
- Não, só queria fazer uma observação. - pensei que ela fosse dar uma de chiquinha.
-Pode dizer, doutora. - ainda dei asa pra essa imaginação.
- É porque eu gostaria de dizer que quero ter uma gata e que o nome dela vai ser Christie.

Eu já tinha dado a observação dela como encerrada e já me preparava para mudar a pergunta quando ela concluiu:

- A gata Christie.

*

É depois de uma dessa que a gente deveria poder pedir a conta e voltar para casa. A única observação que tenho a fazer é que o pior de tudoi foi ter sido engraçado.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Tatuagem

Veio ao mundo para pagar pelos seus pecados e estava conformada . Poderia ter chamado tudo aquilo que enfrentou de carma, mas seria apenas um eufemismo. Pensara assim quando era mais nova, que a culpa era dela e que deveria sofrer por ser uma filha ruim. Apanhava porque era isso que merecia, todos os dias. Além disso, preferia ser espancada sem motivos a acreditar que a mãe não tinha capacidade ou condições para criá-la. Esse era o inferno dantesco no qual veio nascer. Apenas quando viu a morte beijar a mãe nos lábios pela última vez, venceu seus demônios.

Viu sua mãe se matar aos poucos durante os seis anos que ficaram juntas. Muitas vezes com a sua ajuda. O prêmio de melhor filha do mundo era dela, quando obedecia e saía para comprar droga, mas dormia com manchas pelo corpo quando brincava na rua até mais tarde. Entretanto, mesmo na sua dicotomia, tinham seus caprichos juntas. Mesmo assim, não foi o suficiente. Era muita dor para pouco sorriso, muita regra para pouco exemplo. Quando ela deu o último suspiro, chorou por ter ficado feliz.

Venceu a roda do destino e contrariou Sartre. Rolou para longe da árvore para mostrar ao mundo que é possível ter um começo difícil e ser diferente. É fato que sentia sim a necessidade de ser protegida, mas não queria por compaixão. Não precisou da piedade de ninguém antes e não seria agora que iria implorar por cuidados. Tornou-se tenaz porque a vida assim a fez e ensinou a ser. Venceria o que quer que fosse.

*

Ali sentada, esperava para tatuar na pele aquilo que a vida já tatuara na carne: 

Veni.
Vidi.
Vici.

sábado, 25 de maio de 2013

Despedida - Apenas mais uma de amor (19)

Foi embora sem nem dizer adeus. Era questão de tempo, sabia disso, só não esperava ter sido assim. Nem um último beijo ou abraço, apenas um aceno e um sorriso, e só. Não tinha como adivinhar que ela não voltaria. Confundiu um até logo com um adeus.

Como pudera ser tão cego? Você só pode ter de volta aquilo que um dia foi seu. Estavam juntos, mas não eram um do outro. Por mais que enterrassem sob uma camada de ilusão, a realidade sempre ressurgia. A volta incessante da que não fora. Se deixaram envolver mais do que deveriam, foram além do que imaginaram, e mesmo assim não foram a lugar algum. Deixaram o porto seguro sem puxar a âncora pra dentro do barco. Ficaram onde estavam.

Um sorriso e um aceno. Aquele sorriso. O mesmo que o puxara para o centro do furacão, agora o devolvia para onde havia sido encontrado. Ah, se soubesse, se ao menos não tivesse guardado para si tudo aquilo que pertencia a ela. Todas as alegrias que deixou de provocar, toda raiva que deixou de aplacar, todas as palavras que não disse para não machucar, todas as oportunidades que deixou passar, e tudo isso para que? Ela foi embora do mesmo jeito que entrou, com um aceno e um sorriso. O maldito sorriso.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sete pecados - Avareza

Saiu da faculdade com fome. A última refeição havia sido ao meio-dia e já eram dez da noite. Já tinha ido trabalhar, cansaço, ainda teve que correr para chegar à tempo de apresentar um trabalho, mais cansaço. Vida de merda. Cada vez menos tempo, mais trabalho, e a fome que não parava de crescer. Sabia que não deveria reclamar, mas faz parte da natureza humana. Sempre tem algo faltando, que poderia mudar ou melhorar. Buscamos preencher essa sensação de vazio de toda maneira, talvez reclamar seja uma delas. Ou isso, ou apenas fome mesmo. Resolveu comer um sanduíche antes de ir para casa, um vazio a menos na sua vida.

A primeira atendente foi logo dizendo que não tinha pão de três queijos. Esse era o sinal para que fosse embora, mas a fome era grande. Ficou. Parmesão e orégano no lugar dos três queijos, carne e queijo prato de recheio. Esquenta? Sim, quem é que come sanduíche frio? A segunda atendente alertou sobre a falta de cebola. É, tomate tinha, mas a cebola que tanto gostava estava em falta, bem como a maionese e o cookie tradicional. Teve que se contentar com o que tinha. Vida de merda. Onde estão os direitos humanos na hora que mais precisamos deles? Todo ser humano deve ter direito a um sanduíche digno do seu paladar após um dia cansativo, mas a fome falou mais alto.

Ao sair, escutou uma voz desconhecida e cansada pedir por um trocado. Mal fez questão de olhar. A voz continuou acompanhando-o até o carro. Qualquer ajuda servia, pelo amor de Deus. Não estava ali porque queria, era professor de inglês com quarenta e cinco anos de estudo. Se a situação fosse outra, se o local fosse outro, se a pessoa fosse outra e se ele mesmo não fosse professor de inglês, talvez aquela voz o tivesse convencido. É certo que professor não ganha muito, mas daí a ser morador de rua já é uma outra história. Abriu o carro sem nem ao menos olhar para o ser humano ao seu lado. Não era seu problema, a culpa era do Estado que deixou aquele indivíduo nas condições que se encontrava. A vida é uma merda, mas cada um cuida da sua. Foi quando a voz desistiu que tudo mudou. Com um sotaque de fazer inveja a muito americano, agradeceu pela atenção e disse para dirigir com cuidado. Virou para olhar o homem que estava ao seu lado.

Ali estava a figura de um homem franzino, de pele castigada e voz rouca de locutor de rádio. Sentiu pena, queria ajudá-lo. Por sorte, ele carregava consigo uma quantidade boa de currículos. Foram até a porta da lanchonete pegar um e, lá mesmo, conversaram sobre as desventuras que o levaram até ali. A ida aos Estados Unidos ainda jovem, a família que se desfez, a família que fez por lá, a separação dos pais, o câncer do pai, a vinda para o Brasil, o trabalho num navio, as amizades e os cursos que fez, a mulher que amou e a que o traiu, o azar de ter o seu mundo tomado das suas mãos. Vida de merda, mas não mais a sua, a daquela pessoa à sua frente. O que era comer um sanduíche diferente comparado a não ter o que comer? Ter pouco tempo e muito trabalho com muito tempo e nenhum trabalho? Os seus problemas com os problemas dele? Deixou o dinheiro que tinha trocado, era pouco, porém um começo. Um começo que aquele exemplo de vida não queria aceitar, preferia que ele apenas entregasse o seu currículo.

terça-feira, 26 de março de 2013

O ídolo

Vivia feito passarinho engaiolado. Passara nove meses preso dentro da mãe, pra sair e passar mais um ano e meio enjaulado dentro de casa. E tinha opção? Mal sabia falar. Com esforço, aprendeu a  informar quando estava com fome ou somente com a fralda suja, sempre caprichando nas duas únicas habilidades que tinha naquele momento. Tirando um ou outro choro, não incomodava muita gente, afinal, não tinha do que reclamar. Nada faltava, tudo que pedia ganhava. Ainda não havia sido apresentado ao capitalismo, não tinha como conhecer nada além daquilo que davam para ele. Até conhecer a televisão.

Foi depois dos desenhos animados e dos comerciais que começou a querer conhecer o mundo, queria encontrar os amiguinhos que via na tevê. De tanto insistir, de tanto condenar, conseguiu o que queria. A mãe sapecou lhe uma roupa e levou pra passear. Pela primeira vez, pôde ver o mundo com seus próprios olhos. Aquilo sim era full HD de verdade. Não conhecia nada, mas mesmo assim gostava do que via. Era toda aquela beleza que estava perdendo preso em casa. De repente, parou.

A mãe olhou pra trás e lá estava ele, parado, olhos fixos e brilhantes. Parecia deslumbrado com alguma coisa. A mãe olhou ao redor e nada. Além deles, algumas outras pessoas passavam correndo, parando apenas em frente de alguma loja que chamasse a atenção. Abaixou-se para descobrir o problema:

- Que foi, meu amor?
- Cê num vai "quiditá"!
- No que, menino?
- Vamo, mãe, rápido.

E partiu ligeiro em direção à uma das lojas, parando apenas perto do rapaz negro que arrumava uma das vitrines.

- Que foi que saiu correndo assim, hein, rapazinho? -o brilho nos olhos agora no rosto inteiro.

Com toda a sua inocência de criança, com toda pureza ainda não corrompida dentro de si, encheu os pulmões de ar e gritou o mais alto que pôde:

- OLHA MÃE, É O SACI-PERERÊ!

*
Dois anos depois, ainda está de castigo sem poder assistir o Sítio do Picapau Amarelo.

sábado, 28 de abril de 2012

Conversávamos há algumas horas quando, não me lembro bem como, o assunto enveredou pelo caminho religioso. Apesar de acreditar que política, religião e Hitler, não se discutem, tenho imenso prazer em debater qualquer um dos três assuntos com pessoas que estejam dispostas a criticar e ter suas ideias criticadas. A conversa rendeu por um bom tempo. Relatos esotéricos misturavam-se com piadas e histórias engraçadas. Enquanto os outros dialogavam entre si, a Bruna virou-se para mim e disse que tinha uma pergunta a fazer:

- Bem, você conversa com Deus?

Simples e direto. Não queria responder, mas não tinha pra onde fugir.

- Claro que converso, amor.
- Quando acorda e quando vai dormir?
- Também, só que é mais quando to no bar bebendo. Sempre puxo uma cadeira pra Ele sentar e a gente trocar umas ideias.
- Ave Maria, eu aqui falando sério com você e você vem com essas brincadeiras bestas.

Mulheres, bah. Sempre fazendo perguntas com respostas que não querem ouvir.

- Eu to falando sério, você que acha que to de sacanagem.
- Ô, bem, eu só te fiz uma pergunta. Se não queria responder, também não precisava falar assim.
- Mas é sério! Quem você acha que me traz pra casa são e salvo todas as vezes que eu bebo?

Ponto para mim. Fé é que nem inteligência: cada um tem a sua e muita gente não tem nenhuma. Ela se manifesta de maneira diferente em cada indivíduo. Se Deus é onipresente, por que eu deveria ir à igreja conversar com Ele?

Alguns minutos depois, disse que achara bonito o que eu havia dito. É, a fé se manifesta de maneiras imprevisíveis.




quinta-feira, 12 de abril de 2012

Carlinhos

A primeira coisa que escutei do engenheiro no estágio foi:

- Conseguiu subir a ladeira com carro? Deu sorte, basta chover um pouco mais pra não chegar ninguém aqui em cima.

A chuva não deu trégua durante o resto do dia. Era o meu primeiro dia de trabalho e eu não queria fazer corpo mole, desci para o campo e conheci a obra e os funcionários. Dezesseis blocos de três andares cada, espalhados por uma área toda coberta por barro. A lama era suficiente para cobrir o meu pé inteiro. Mesmo assim, cumpri o meu papel sem reclamar. Quem achou ruim foi a minha mãe quando me viu entrar em casa com as botas imundas sujando o chão. Dois dias depois ela percebeu que tudo na vida pode piorar.

O céu desabava do lado de fora. São pedro, achando pouca a desgraça nos meus dois primeiros dias de trabalho, resolveu descarregar toda a água que ainda estava acumulada nas nuvens de uma só vez. Minha mãe, que nunca me deixou faltar aos meus compromissos, perguntou se realmente eu iria trabalhar. Como era o meu terceiro dia ainda, botei na cabeça que iria mostrar serviço, nem que não fizesse nada por lá, apareceria. Foi só ao terminar de me vestir que lembrei das palavras do engenheiro, por sorte, também lembrei que o meu pai conhecia algumas pessoas que moravam perto da obra. Quando expliquei pra ele que não conseguiria subir de carro e que precisava deixar o meu carro embaixo para subir caminhando, ele me mandou procurar um tal de Carlinhos na primeira casa depois da entrada. Foi o que fiz.

Foi difícil encontrar a casa. Mesmo com o desembaçador ligado, continuava sem enxergar nada direito. Quando finalmente encontrei, o portão já estava aberto e, como não vi ninguém, resolvi entrar. Parei o carro na frente da única porta da casa que se encontrava aberta e buzinei. Surgiu então um homem barrigudo, sem camisa, uma mulher com uma criança no colo e mais duas agarradas na perna. Deduzi que ele era a pessoa pela qual deveria procurar, mas resolvi ir com calma:

- Bom dia, estou procurando o senhor Carlos que mora aqui.
- Bom dia - respondeu meio desconfiado-, mas você vai me desculpar. Aqui não tem nenhum Carlos não.

Comecei a imaginar que estava na casa errada, mas como meu pai conhecia muita gente pela região, arrisquei mais um pouco pra ver no que dava:

- É o seguinte, eu trabalho nessa obra aí do lado, mas nessa chuva não tem como subir de carro. Meu pai me disse que eu viesse aqui atrás do sr. Carlos que ele deixaria eu estacionar o carro na casa dele.
- Como eu já te disse, aqui não tem nenhum Carlos não, mas como é o nome do seu pai?
- Homero, Homero Felizola.
- Ah, rapaz, eu conheço ele. Pode deixar o carro estacionado ali na frente que a gente toma conta.
- Pô,cara, brigadão mesmo. O senhor é que é o dono da casa?
- Não,não, quem mora aqui é Carlinhos, mas ele deu uma saidinha.

E depois disso eu ainda tive que caminhar um quilômetro e meio com o barro cobrindo a calça e a chuva batendo forte no rosto pra chegar na obra e escutar do apontador:

- Você é doido de vir trabalhar nessa chuva, é? Nem os engenheiros e nem os técnicos vieram hoje, Vá pra casa, negão, que você ganha mais.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Teste de nivelamento

Estávamos todos reunidos na casa dos meus avós. Meu tio que mora em Salvador estava aqui também, o que implica alguma data comemorativa, só não recordo qual. Esperávamos esse mesmo tio voltar do aeroporto com o filho para que pudéssemos começar a almoçar. Assim que ele chegou, nos espalhamos pela mesa, móveis e sofá para comer. Quem almoça em casa de vó no final de semana sabe bem como é: nunca falta comida, mas só os mais velhos e os mais rápidos têm bons lugares para comer.

O meu primo estava, depois de um ano, voltando do seu intercâmbio no Canadá. Como ele não mora aqui, não temos muito contato, mas uma viagem dessas não se guarda para si, então, eu e Augusto sentamos à mesa para escutar as histórias que Breno tinha para contar. No meio da conversa, fomos interrompidos pelo meu avô que já chegou abrindo espaço para sentar entre os outros dois:

- Dê uma licencinha aqui, meu filho, pro seu avô sentar - disse ajeitando a cadeira de forma que os dois pudessem se olhar com ele no meio-, quer dizer que você agora sabe falar o inglês?
- É, vô, deu pra aprender algumas coisas - disse Breno já meio sem jeito-, mas ainda tem muita coisa pra aprender.
- Sei, sei...Augusto tá fazendo um cursinho aqui, quero ver você falando aqui com ele pra gente ver se tá valendo à pena.

Os dois ficaram ali, parados, apenas olhando do outro para o meu avô, ambos achando que era tudo parte de alguma brincadeira dele. Até que perceberam que o coroa estava falando sério. Ainda encabulados, engataram uma conversa sem muitos rodeios, respostas simples e diretas. O velho Eurípedes acompanhava a conversa com o olhar e os braços cruzados. E ali do lado só rindo, admirado que o meu avô conseguia acompanhar tudo. Queria saber se os dois estavam mesmo dominando o idioma. Quando viu que os dois já estavam diminuindo o ritmo da conversa, interrompeu novamente:

- Pronto, tá bom. E aí Breno, seu primo tá sabendo falar direitinho?
- É, só tá precisando melhorar algumas coisas, mas fora isso tá tudo certinho.
- E você, Augusto, me diga aí o que foi que você entendeu da conversa com seu primo.
- Rapaz...ele tava me contando como eram algumas coisas lá no Canadá e me falando um pouco da viagem.
- Foi mesmo? Certeza? Eu escutei ele falando mais um monte de coisa...
- Resumindo foi isso, mas o senhor entendeu a conversa pra tá sabendo que faltou algo, foi?
- Meu filho, e eu lá entendo porra nenhuma dessas coisas. Vocês falaram um monte de coisa aí e depois você veio querendo me enrolar com uma resposta sapecada.

E foi assim que eu descobri que o meu avô não entendia nada da língua inglesa, mas que tinha experiência de sobra pra saber que estava sendo enrolado. Os três ali tinham uma boa fluência, mas ele era o verdadeiro mestre.

domingo, 30 de outubro de 2011

Engenharia como nunca civil (4)

Quando resolvi fazer engenharia civil, saí perguntando às pessoas que conhecia como era o curso. Foram só elogios. Curso bom, momento de crescimento e ótimos salários. Não pensei duas vezes e prestei vestibular pra me tornar engenheiro. Depois que entrei foi que vi a furada que eu tinha entrado. Tudo o que me falaram é realmente verdade, mas até chegar no lugar que você quer, você sofre e sofre muito:


Antes eu tivesse visto esse vídeo mais cedo.

sábado, 22 de outubro de 2011

Apenas mais uma de amor (14)

Chegou em casa tão apressado que nem viu o homem sentado na calçada. Há dias estava fora de casa, mas terminara o serviço mais cedo e decidira fazer uma surpresa para a esposa. Tocou a campainha uma, duas, três vezes e nada. Ela deveria estar em casa. Tinha mandado uma mensagem horas antes avisando que tinha organizado um sarau em casa. Ele ficara bastante feliz ao saber que ela finalmente começara a se interessar por livros. Foi só após a quarta tentativa que notou a presença daquele estranho:

- Se veio pra festinha que tava rolando, perdeu a viagem. Os tiras receberam umas denúncias anônimas dos vizinhos e levaram todo mundo pra delegacia, era pó demais. Deram nem tempo pro pessoal se vestir...
- Er... desculpa, mas o senhor deve ter confundido a minha casa com a casa de shows que fica no outro quarteirão. Todo mundo aqui na rua já esperava que isso acontecesse um dia.
- Não, não, é aqui mesmo. Tá aqui escrito no convite, pode ler se quiser.
- Huuum, parece tá certo. Rua B, número 69, próximo ao posto de gasolina e assinado por... como é mesmo esse nome aqui? Arlete Boqu... Porra mermão, mas essa daqui é a minha muher. Que palhaçada é essa? Mais cedo eu recebi uma mensagem dizendo que estava rolando uma festinha em casa, só que ela me disse que era um sarau. Uma festa culta e refinada, não essa pouca vergonha daqui.
- Ah, mas isso foi. Culta e curta. Ela até fez citações do livro daquela escritora famosa que lançou filme recentemente.
- A Stephenie Meyer?
- Não, a Raquel Pacheco. Ela pegou o livro nas mãos e disse em alto e bom som que hoje não iria dar, só distribuir.
- Ma... ma... mas ela me disse que era só um sarau!
- Vai ver ela digitou suruba errado. É aquela coisa, digitar mensagem em cima de um mecânico não é pra qualquer um.
- Teve touro mecânico!?
- Rapaz, se ele era um touro na cama eu não sei, mas mecânico eu sei que ele era porque vi o macacão sujo de óleo.
- Eu sabia que não devia ter confiado, todo mundo sabia e já tinha me alertado. Só o trouxa aqui ainda quis acreditar na palavra daquela vagabunda miserável. Sempre foi assim piranha na cama só que dizia que era só comigo. Ela que fique lá presa pra aprender. Na delegacia eu só vou com o meu advogado e os papéis da separação.
- É, meu amigo, quem mandou confiar em mulher? Bom...o recado tá dado e eu ainda tenho muito o que fazer. Até mais.
- Peraí, só mais uma coisa que ainda não entendi. Como é que você sabe disso tudo sem estar na festa?
- Pra falar a verdade eu estava, mas fui expulso pouco antes da polícia chegar. Quando chegou a minha vez, a senhora sua mulher mandou eu me vestir e ir embora. Disse que não queria ninguém com um nome que lembrasse você. Quando ela estava saindo daqui no camburão, me pediu pra tomar conta da casa por uns dias que eu seria recompensado depois, mas eu juro que não sabia que ela era casada! Só descobri porque ela falou quando me botou pra fora.
- Quer dizer que aquela rapariga ia te dar, mas ficou com pena do otário aqui? Aquela filha da puta me paga, vou acabar com a vida dela.
- Aí já é briga de marido e mulher e eu não tenho que meter a minha colher, com todo respeito. Papo tá bom, mas como já disse, tenho que ir. Satisfação te conhecer.
- De certo modo foi bom ter te encontrado aqui ainda. Primeiro porque isso me fez acreditar no que me diziam e depois porque é difícil achar alguém com um nome tão esquisito como Adalgamir.
- Adalgamir? Eu acho que você se enganou. Meu nome é Cornélio.

Acompanhou o outro ir embora com o olhar. Os vizinhos já começavam a aparecer nas janelas e portas. Não iria aguentar a gozação. Mudou-se sem nem avisar à família.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Apenas mais uma de amor (13)

Nasceu um romântico e assim continuaria até o final dos seus dias. Não por escolha ou experiência próprias. Estava no sangue da sua família. Do pai até o pai do pai do pai... Todos foram maridos para esposa nenhuma botar defeito, mas o destino o pregara uma peça. Seus ancestrais viveram em tempos diferentes. As ideias e as mulheres eram outras. Quando chorou pela primeira vez, o mundo já era um lugar hostil e a sua espécie estava em extinção. Pregava então o destino uma nova peça. Herdara uma mutação daquelas que só aparecem de tantas em tantas gerações. De caça, passou a caçador.

Os pais perceberam logo cedo que o menino era único. Sua primeira palavra foi bejo e com ela conquistou beijos de todas que o pegavam no colo. Deu seus primeiros passos quando tentava colher algumas flores para as primas no quintal. Os tios riam das travessuras do moleque, mas o pai pensava de outra forma. Quem tivesse suas cabritas que prendesse, não seria ele que desistimularia o filho. Mas foi na escola que a sua lenda teve início. A primeira coisa que fez ao aprender a escrever, foi uma carta para cada coleguinha e uma especial para a professora. Foi nesse dia que surgiram as primeiras fãs e os primeiros amores platônicos. E ele só estava começando.

Dos corações que arrebatou, todos amou. Alguns por dias, outros por meses e raros por anos. Partiu e teve o seu partido todas as vezes. Ao menos foi eterno com cada uma que se apaixonou. Fez surpresas e mais suspresas, sem nunca esquecer datas especiais ou trocar nomes. Foi sempre bem recebido pelas sogras e ficou tão amigo dos sogros que ainda se reunem para assistir o jogo. Escutava sempre dos ex-sogros que eles ainda eram jovens e que o destino sabia o que estava fazendo. Se não deu certo foi porque não era pra ser e só não era pra ser porque o seu defeito era amar todas ao mesmo tempo. E que culpassem o destino por tê-lo feito daquele jeito.

As coisas eram muito fáceis. Mulheres têm um fraco por romantismo e ele sabia. A maioria desejava um homem carinhoso e atencioso do lado. Mesmo que isso significasse dividí-lo com outra. Já ele desejava obter novas conquistas. Foi atrás de mais um sim que escutou o primeiro não. Não quero, não vou com você, não venha atrás de mim, não apareça mais na minha casa. Largou todas para ir atrás dela. Mostrar que poderia ser bom se assim quisesse. Estava apenas esperando ela chegar. Alguém que não queria conquistá-lo, mas sim deixar-se conquistar. Nascera um romântico e assim continuaria até o final dos seus dias.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Engenharia como nunca civil (2)

Existem matérias em todos os cursos que os alunos, às vezes os próprios professores, não entendem bem a função delas na formação ou a razão para serem do jeito que são. Por exemplo, para vários engenharias, cálculo 1, 2 e 3 poderia ser uma única matéria: cálculo de áreas e volumes. As várias físicas e os seus laboratórios poderiam ter exemplos práticos para um engenheiro civil, e assim por diante. Enfim, são coisas que não serão alteradas somente porque desejo que o curso seja mais fácil. Porém, existem quatro matérias que realmente não entendo o funcionamento: expressão gráfica 1, desenho geométrico, expressão gráfica 2 e desenho arquitetônico.

Para as duas primeiras, tive que comprar a mais variada gama de materiais de desenho. Sempre vestindo a camisa do meu curso pra atendente não achar que eu fazia arquitetura. Aprendi a representar pontos, retas e planos em uma e a como desenhar sem a ajuda dos instrumentos na outra. Isso mesmo, você leu certo. Comprei todas aquelas tranqueiras para logo depois aprender a como me virar sem elas. Sem falar que ninguém representa ponto por ponto em um desenho e muito menos precisa saber qual é o tipo de reta que tá colocando na planta. No dia em que pararem de fabricar transferidores, compasso e escalímetro, e os clientes começarem a exigir números mínimos de retas oblíquas nos projetos das suas casas, elas serão úteis.

Como nem tudo no curso não tem sentido, eis que surgiu expressão gráfica 2 para colocar um pouco de senso nas matérias de desenho. Existe um programa, o qual só descobri na faculdade, que faz todo o desenho para você, contanto que você saiba manuseá-lo. Você não precisa daquela tralha em cima da mesa, nem se preocupar em borrar a folha, nem com a precisão do projeto, apenas em ter o programa no computador e saber utilizá-lo. Para mim, foi uma das maiores invenções do século. Uma verdadeira evolução. Aí veio desenho arquitetônico e ferrou tudo isso.

A gente aprende a desenhar de forma mais eficaz e mais eficiente para logo em seguida voltarmos a pré-história. Arquitetônico é igual a expressão 2, mas com lápis, papel e borracha. O motivo pra isso é: "Como você vai desenhar se não tiver um computador?". Essa é a pior desculpa possível. Talvez em 1990 ela fizesse sentido, mas agora não. Desenhar na mão um projeto, consome muito tempo. Tempo esse suficiente para arranjar um notebook e instalar o programa. Mas não, o professor tinha que ser arquiteto e inventar moda. Agora fico eu desenhando no feriado uma coisa que já poderia ter acabado no começo do semestre. Só engenheiro sabe a dor de cabeça que um arquiteto causa.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Tempos de escola - Bullying

Na quarta série, hoje quinto ano, eu era um menino franzino e magrinho, assim como boa parte dos meus colegas. Entretanto, alguma coisa saiu muito errada no final daquele ano que eu voltei para a quinta série mais cheinho e com as bochechas mais arredondadas. Assim fiquei até a oitava série, quando comecei a gostar de uma colega e emagreci por vaidade.

Naquela época, primos, amigos e até mesmo o meu pai, me sacaneavam quando tinham a oportunidade. Nunca cheguei a ser obeso e nem fiquei muito acima do meu peso, mas isso não importava muito. Pros meus amigos eu estava em fase de crescimento lateral, para as minhas tias eu estava fofinho e, pro meu pai, gordo só prestava boi e vaca. Assim como eu, vários outros passavam pela mesma coisa diariamente. Ninguém nunca foi agredido fisicamente por ser diferente e, até onde eu saiba, ninguém teve danos psicológicos. Pelo contrário, de tanto me encherem o saco, emagreci e emagreci até mais do que o necessário, mas coisas mudaram e até a brincadeira mudou de nome. Virou até crime.

Não acredito que as coisas tenham mudado muito desde o meu tempo. Meu irmão mais novo passa pelo mesmo que passei e com um bônus: eu. Ao invés de ficar trancado dentro do quarto chorando deprimido e escutando restart enquanto pensa em matar metade da família, ele vai pra escola e se diverte como toda criança normal. O problema não está nas relações entre as crianças, mas nas relações entre pais e filhos:



Pais superprotetores estão arruinando geração atrás de geração. Eles tomam as dores do filhos e controlam tudo que eles fazem. Se a criança briga com um amigo, a amizade tá proibida. Se botarem apelido nela, tem que contar pra "tia". Será que não percebem que isso só piora? Eles sempre se resolvem entre eles, e, se não se resolverem, aí sim deve ser procurada a ajuda de um adulto. Tanto se entendem que, na primeira série, briguei com um colega que hoje é como um irmão pra mim. Foi o meu pai que me ensinou as duas regras básicas de sobrevivência que me levaram, sem traumas, até a sexta série:
  • Nunca arrume confusão.
  • Nunca volte apanhado pra casa.
Era olho por olho e dente por dente, mas pelo menos a gente brincava em paz.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Classificar pra quê?

Negro, branco, amarelo, mulato, albino, caboclo, indígena e pardo. Jovem, adulto e idoso. Capitalista, socialista e anarquista. Evolucionista, criacionista e panspermista. Homo, bi e trisexual. Americano, asiático, europeu, africano e oceânico. Católico, muçulmano, budista, evangélico, ateu, hindu, agnóstico, mórmon, evangélico, judeu, testemunha de Jeová, umbandista e wicca. Rico e pobre, alto e baixo, gordo e magro, doente e sadio, careca e cabeludo, sortudo e azarado. Deus é onipresente e reside em cada um de nós. Isso nos faz iguais em todos os sentidos. Não importa como você enxerga as outras pessoas, seres humanos serão sempre seres humanos, e, o que nos une, é o medo da morte.

Alguns acreditam em vida após a morte, outros em reencarnação, em céu e inferno, em Dia do Julgamento e outros não acreditam em nada disso. Cada um com o seu modo de alcançar as graças do seu salvador. Porém, importa tanto assim saber o que vai acontecer com a nossa alma depois que ela abandonar o nosso corpo? Ou melhor, importa tanto julgar o que é certo e o que é errado e condenar o próximo por ele ser, pensar e agir diferente?



O problema do mundo é a intolerância e o fanatismo, afinal, todas as religiões têm o amor ao próximo como salvação. O caminho que você toma não importa, pois, todos levam ao mesmo lugar. Amando mais uns aos outros, sem pensarmos em quem nos aconselhou a fazer isso, dando valor à mensagem e não ao mensageiro, alcançaremos a tão sonhada paz.

"Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus (João, 1-4)".

segunda-feira, 21 de março de 2011

A culpa não é nossa

Nada está tão na moda quanto a preservação do planeta. Tudo que acontece no mundo é culpa do aquecimento que, por sua vez, dizem que é culpa nossa. Os terremotos ficaram mais fortes e constantes, enchentes e tsunamis começaram a se tornar mais frequentes e o calor é cada vez maior. Os cientistas se dividem, mas não chegam a uma conclusão: somos responsáveis ou não? Enquanto eles discutem entre si, escolhi no que acreditar:


A prepotência e a arrogância nos trouxeram até aqui.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Da Guerra Fria às bandas coloridas

Com o fim da Guerra Fria, o mundo deixou de ser bipolar e passou a ser globalizado. Nessa época, os meios de comunicação já estavam tão desenvolvidos que, conhecer outras culturas, deixou de ser possibilidade para ser necessidade. Com o passar dos anos, ela começou a exigir mais e em um espaço menor de tempo, coisas para as quais os livros não estavam preparados. Nesse mesmo período, começou a se popularizar as duas criações que iriam mudar a história da humanidade: o computador pessoal e a internet.

Diferente dos livros e revistas, a internet tem uma grande quantidade de informações ao alcance de um clique. Sites que funcionam com o conceito wiki, á exemplo do Wikipédia, funcionam como verdadeiras bibliotecas. Entretanto, com a vantagem de ter uma capacidade ilimitada para armazenar informações. Soma-se a isso a possibilidade de atualizá-las a todo momento. O problema é que passamos a utilizá-la da forma errada.

Na sua versão 2.0, a web viu surgir dentro dela os sites de relacionamentos e compartilhamento de vídeos. Foi aqui que as coisas começaram a sair dos eixos. Qualquer pessoa, repito, qualquer pessoa passa a ter, ao alcance de um clique, a chance de ser famosa. Sabe a sua secretária que se acha a Joelma do Calypso? Tá lá. E aquele seu primo gordo que faz gordice? Tá lá também. A sua filha disse que vai dormir na casa da amiga? Relaxa, amanhã você vê e revê o vídeo dela vomitando e pegando todos na festa. Tudo o que as pessoas fazem elas querem que os outros saibam e vejam. Claro, não adianta só falar se não pode provar. Claro que tudo isso é engraçado, com exceção da sua filha, mas quem de nós diria que algo ali daria errado? Pois deu.

No começo, as gravadoras separavam o joio do trigo, decidiam quem era bom e acolhido pelo público e investiam neles. Com a inclusão digital e a internet 2.0, as coisas mudaram, as bandas começaram a colocar músicas suas nela e as pessoas começaram a dizer o que era bom e o que era ruim. Dessa forma, as gravadoras passam a saber o que irá e o que não irá dar retorno. Porém, nem tudo que dá lucro presta. Essas bandinhas coloridinhas são a prova disso tudo.

Sem os sites como o Youtube e o Myspace, esse povo nunca teria a oportunidade de sair da garagem. Não antes do vizinho tocar fogo nela. Só que eles sairam. As menininhas apaixonadinhas que tiveram os seus corações partidos e não acreditavam mais nos homens e no amor, renderam-se a elas. Antes você era o cara quando pegava o violão e tocava Exagerado, Palpite, Apenas mais uma de amor ou qualquer música sertaneja. Isso sim era romantismo, mas mulher mal amada é o mal do mundo. Os moleques, sem saída, seguiram a onda e cá estamos nós. Creio que está mais do que na hora de classificar todas essas bandas como pornografia. Afinal, estão fodendo toda uma geração bem na nossa frente.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Sonho de liberdade

No nordeste dos Estados Unidos, existia uma pequena propriedade dedicada à plantação de maçãs. Paul era quem cuidava delas junto com a mulher e um filho, mas o papel dele não será importante agora. As macieiras tinham duas opções que variavam de acordo com qual lado da cerca elas nasciam. Davam frutos vermelhos se nasciam do lado esquerdo e verdes quando brotavam do lado direito. Elisabeth nascera do esquerdo.

Desde pequena, quando ainda germinava e não entendia nada do mundo e do planeta em que estava, sentia-se diferente. Cresceu com essa sensação estranha. Teve a confirmação que precisava quando viu a cor das suas maçãs. Vermelho? Não existia cor mais feia e fora de moda. Aquela não era cor para ela. Queria algo mais, diferente e que a destacasse das demais. Ela nascera pra brilhar no meio de toda aquela cafonice. Não adiantou em nada a tentativa das amigas de tirar aquela ideia da cabeça dela. Macieira do lado esquerdo só tem essa opção, reclamasse ela com o fazendeiro. Ela apenas ria e sonhava.

Como vocês bem sabem, em fazenda pequena a fofoca corre rápido. Em pouco tempo, o pomar inteiro sabia que havia uma sonhadora. Uma assanhada, isso sim. Ela de espécie de família querendo se misturar com outras espécies quaisquer. Não naquele pomar. Entretanto, Lisa, como era carinhosamente conhecida, já estava decidida. Na próxima safra ela apresentaria novas cores.

Na primeira, o máximo que ela conseguiu foi deixar as maçãs menos vermelhas. Na segunda, algumas poucas ficaram metade verdes e metade amarelas. Na terceira, metade delas estava verde. Só na quarta ela conseguiu mudar a cor e o gosto de todas. Pena essa não ser uma história com final feliz. Queria encerrar aqui e contar que Lisa viveu por muitos anos feliz e do jeito que sonhou, mas não foi assim que as coisas aconteceram.

Paul era agricultor formado no campo e com especialização no seu pomar. Conhecia cada árvore e cuidava de cada uma delas. Quando percebeu que a coloração dos frutos de uma delas estava diferente, fez o diagnóstico e a medicou. Safra após safra, ele cuidou dela sem muitos resultados. Na quarta, após ter diagnosticado o problema, desistiu. Estavam todos os frutos verdes e nenhum dos pesticidas adiantou. Foi com grande pesar que ele pegou a serra, cortou a macieira e arrancou a raiz. Teve que ser assim, antes que as outras fossem contaminadas e ele falisse.

Ao menos fora livre uma vez na vida.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sete pecados - Luxúria

Pela manhã ela era Isaura, dona de uma loja de roupas no centro da cidade, divorciada, mãe de um casal de gêmeos, a separação logo após o nascimento. Pela noite ela era a insaciável Scarlet, dançarina de pole dance, seios fartos saltando do espartilho, estrias da gravidez mascaradas pela luz vermelha, mas isso era apenas um hobby.

Fosse Isaura ou Scarlet, ela desejava todos os olhares. Homens que desejavam aquele corpo sedutor deitado em suas camas, chamando pelos seus nomes entre gemidos e suspiros. Mulheres que a invejavam por ter um corpo tão formoso mesmo após ter posto no mundo duas crianças. Gostava tanto de imaginar todas aquelas pessoas com o olhar preso nela que só gozava pensando nelas.

Não tinha jeito. Podia ser negro, branco ou amarelo, pequeno, médio ou grande, grosso ou fino, romântico ou selvagen, vibrante ou não, se ela não conseguisse visualizar aqueles olhares ela não tinha orgasmos. Nenhum deles nunca se decepcionou por não ter feito seu serviço direito, mesmo ela pagando por cada um. Muito menos ela os culpava, o problema era com a imaginação dela. Nunca ligou para reclamar de nenhum e até mesmo dava nova chance aos que falhavam.

Só descobriu o que faltava na sua cama quando se separou do marido e começou a notar as olhadas que os homens do prédio davam. Por um tempo, a imagem deles foi suficiente, mas ela queria mais, muito mais. Foi aí que surgiu a ideia de trabalhar pela noite para variar o cardápio. E assim viveu a sua vida, conquistando olhares pela noite e dinheiro para comprar vibradores pela manhã. Não gostava de ser observada nos momentos de prazer.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Direitos humanos

Uma cidade aterrorizada, avenidas bloqueadas com carros em chamas e uma população que sai de casa com medo de não voltar. Os noticiários deixaram de exibir seus quadros habituais para mostrar apenas a situação do Rio de Janeiro. A rotina dos moradores que não conseguem dormir com os tiros e nem podem chegar próximos aos portões e janelas de suas casas. O país inteiro comovido e preocupado com a situação das famílias dos inocentes que se encontram no meio de uma guerra civil. É essa mesma compaixão com as vítimas que transformou as favelas em verdadeiras terras onde as leis do Estado não alcançam.

Quando a polícia ou os grupos táticos vão atrás de traficantes, a função deles é trazê-los vivos. Alguns acabam morrendo no embate, mas vários também são presos e levados à julgamento. Eles serão levados para penitenciárias onde serão sustentados pelo governo, ou seja, pelos nossos impostos. As famílias dos que morreram e humanistas partem em defesa dos que tombaram frente à invasão. Perguntam onde estavam os direitos humanos daquelas pessoas, meras vítimas do problema social do nosso país, quando foram mortas pela máquina de guerra do Estado. Respondo: estavam enterrados com os verdadeiros inocentes, incapazes de fazer nada para os que realmente mereciam.

Os traficantes que não são mortos, continuam a comandar o crime da cadeia. A população tira do bolso o dinheiro que mantêm vivos seus futuros algozes. Dinheiro esse que poderia ser utilizado na melhoria de vida do povo. Em entrevista, um Capitão do BOPE alegou "Só Deus pode julgar estes traficantes, o papel do BOPE é promover este encontro". O pessoal caiu em cima dizendo que ele o seu batalhão são monstros inescrupulosos. Vamos lá. Concordo com os direitos humanos e acredito que todo homem tem o direito de viver, mas acredito também que os direitos humanos valem apenas para aqueles que são humanos. O dono da boca não se preocupa com os direitos dos moradores da favela e nem pensa nisso quando manda eliminar algum desafeto. Então, por que é que devemos tolerar e perdoar as atrocidades cometidas por bandidos se eles mesmo não toleram e nem perdoam ninguém?

Humanismo é pra quem é humano e acabou. Se eles alegam que traficante é vítima, então a população é vítima em dobro. Gente metida a pseudo-intelectual que parte em defesa deles, transferindo a culpa toda para os governantes. O cara entra no crime porque quer. Ninguém obriga. Se toda pessoa que se sente abandonada pelos políticos que elegeu entrasse pro tráfico, teríamos um estereótipo de que todo favelado é bandido. Entretanto, o que vemos é a luta diária de famílias de trabalhadores honestos contra o crime. A polícia tinha mais era que ter atirado em todos os que fugiram da Vila Cruzeiro para o Morro do Alemão. É errado? Quer dizer que devemos ter pena do cara que, além de matar, destrói uma família vendendo drogas? Falam isso porque a desgraça não é nas famílias deles. Piedade é o cacete, bala na caveira mesmo.