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sábado, 10 de maio de 2014

Minha mãe é uma peça

Minha mãe não xingava, nunca bebia, reclamava o tempo inteiro da bagunça no quarto, achava errado que a gente fosse pra aniversário de 15 anos sem ser convidado e ainda por cima sem nem levar presente. Entretanto, como diz o ditado, se não pode vencê-los, junte-se a eles. Hoje o motorista que entra sem dar sinal é filho da puta, uma taça de vinho já deixa ela doida, quem quiser viver num chiqueiro que viva e é pra levar o meu irmão pra festa junto comigo que ninguém vai se incomodar.

Ela é o motivo pelo qual não tenho saudade da comida de casa porque até água ela queima. Quando era mais novo achava que o meu pai não era romântico por sempre comprar jogos de panela no dia das mães, mas hoje sei que as panelas precisavam ser trocadas sempre que ela resolvia cozinhar. Meus amigos ficavam felizes nas datas comemorativas porque a mãe deles cozinhava só coisa boa. Eu ficava feliz porque a gente pedia comida. Pior ainda era quando ela "aprendia" uma receita nova e experimentava na gente, lá se ia o dia inteiro de só-sai-daí-quando-comer-tudo. Mesmo assim, não troco o cuscuz da velhota por nada.

Acredito que a minha ingratidão tenha começado já quando eu disse as minhas primeiras palavras: papá. Depois de 9 meses, mais o tempo de amamentação, tantos cuidados pro infeliz chamar pelo pai que estava sempre trabalhando. Por um outro lado, bastava ela chegar cansada, claro, que eu ia atrás com um livro para que ela lesse a mesma história pela décima quinta vez. Naquele dia. Até que ela comprou livros novos.

Sem sombra de dúvidas ela é a pessoa que mais me ama nesse mundo. Sempre fiz o que quis e ela me apoiou em tudo sem questionar. Mesmo nas várias vezes em que eu pedi para que ela fechasse as janelas do carro ligeiro e logo depois peidei, ela deixou de confiar em mim. Nem quando me escondia na dispensa e gritava pra ela aparecer na cozinha só pra ver se o coração dela estava funcionando bem, ela quis me deserdar.

Diferente da maioria das pessoas que têm na mãe a melhor amiga, eu não tenho. Entretanto, ela me conhece melhor do que ninguém. Ela finge que acredita e eu finjo que engano. Nada passa despercebido. Eu achava que era sortudo por ela sempre chegar em casa fazendo barulho porque dava tempo de me vestir, sendo que ela pagava o meu irmão pra entrar batendo a bola no chão e não ver nada.

As pessoas têm a concepção de que ter a mãe médica é a melhor coisa do mundo porque ela cuida de você e ainda te dá atestados. Se vocês encontrarem uma assim, favor entrar em contato pra fazer a troca porque lá em casa o buraco é mais embaixo. A gente não faltava aula. Se tinha força pra ir até o quarto dela pedir remédio, também tinha pra ir pra escola. Eu perdi prova na faculdade porque tava com uma diarreia de lascar o ser em dois e ela me mandou ficar e tomar muito líquido, mas na hora que eu pedi um atestado ela disse que só dava atestado aos pacientes que iam ao consultório.

Acho que só tem um pessoal que ama mais a minha mãe que a própria família, os funcionários da SMTT. Ela é a maior contribuinte e pelos motivos mais absurdos. É como se todo o cuidado e atenção ficassem no consultório com ela. Só ela consegue tomar multas pelo mesmo motivo e no mesmo local. Ainda tem a cara de pau de dizer que a multa é pra mim.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Tatuagem

Veio ao mundo para pagar pelos seus pecados e estava conformada . Poderia ter chamado tudo aquilo que enfrentou de carma, mas seria apenas um eufemismo. Pensara assim quando era mais nova, que a culpa era dela e que deveria sofrer por ser uma filha ruim. Apanhava porque era isso que merecia, todos os dias. Além disso, preferia ser espancada sem motivos a acreditar que a mãe não tinha capacidade ou condições para criá-la. Esse era o inferno dantesco no qual veio nascer. Apenas quando viu a morte beijar a mãe nos lábios pela última vez, venceu seus demônios.

Viu sua mãe se matar aos poucos durante os seis anos que ficaram juntas. Muitas vezes com a sua ajuda. O prêmio de melhor filha do mundo era dela, quando obedecia e saía para comprar droga, mas dormia com manchas pelo corpo quando brincava na rua até mais tarde. Entretanto, mesmo na sua dicotomia, tinham seus caprichos juntas. Mesmo assim, não foi o suficiente. Era muita dor para pouco sorriso, muita regra para pouco exemplo. Quando ela deu o último suspiro, chorou por ter ficado feliz.

Venceu a roda do destino e contrariou Sartre. Rolou para longe da árvore para mostrar ao mundo que é possível ter um começo difícil e ser diferente. É fato que sentia sim a necessidade de ser protegida, mas não queria por compaixão. Não precisou da piedade de ninguém antes e não seria agora que iria implorar por cuidados. Tornou-se tenaz porque a vida assim a fez e ensinou a ser. Venceria o que quer que fosse.

*

Ali sentada, esperava para tatuar na pele aquilo que a vida já tatuara na carne: 

Veni.
Vidi.
Vici.

terça-feira, 26 de março de 2013

O ídolo

Vivia feito passarinho engaiolado. Passara nove meses preso dentro da mãe, pra sair e passar mais um ano e meio enjaulado dentro de casa. E tinha opção? Mal sabia falar. Com esforço, aprendeu a  informar quando estava com fome ou somente com a fralda suja, sempre caprichando nas duas únicas habilidades que tinha naquele momento. Tirando um ou outro choro, não incomodava muita gente, afinal, não tinha do que reclamar. Nada faltava, tudo que pedia ganhava. Ainda não havia sido apresentado ao capitalismo, não tinha como conhecer nada além daquilo que davam para ele. Até conhecer a televisão.

Foi depois dos desenhos animados e dos comerciais que começou a querer conhecer o mundo, queria encontrar os amiguinhos que via na tevê. De tanto insistir, de tanto condenar, conseguiu o que queria. A mãe sapecou lhe uma roupa e levou pra passear. Pela primeira vez, pôde ver o mundo com seus próprios olhos. Aquilo sim era full HD de verdade. Não conhecia nada, mas mesmo assim gostava do que via. Era toda aquela beleza que estava perdendo preso em casa. De repente, parou.

A mãe olhou pra trás e lá estava ele, parado, olhos fixos e brilhantes. Parecia deslumbrado com alguma coisa. A mãe olhou ao redor e nada. Além deles, algumas outras pessoas passavam correndo, parando apenas em frente de alguma loja que chamasse a atenção. Abaixou-se para descobrir o problema:

- Que foi, meu amor?
- Cê num vai "quiditá"!
- No que, menino?
- Vamo, mãe, rápido.

E partiu ligeiro em direção à uma das lojas, parando apenas perto do rapaz negro que arrumava uma das vitrines.

- Que foi que saiu correndo assim, hein, rapazinho? -o brilho nos olhos agora no rosto inteiro.

Com toda a sua inocência de criança, com toda pureza ainda não corrompida dentro de si, encheu os pulmões de ar e gritou o mais alto que pôde:

- OLHA MÃE, É O SACI-PERERÊ!

*
Dois anos depois, ainda está de castigo sem poder assistir o Sítio do Picapau Amarelo.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Tempos de escola - Coordenação

Durante toda a minha vida escolar, aproveitei bastante o dinheiro dos meus pais. Utilizei todos os serviços que a escola poderia me oferecer, dentro e fora do horário de funcionamento. Da sala de aula à enfermaria, que na época era apenas uma caixa enorme com uma tesoura e um punhado de gases, passando pela quadra, piscina, sala de informática (vulga lan house), sala de artes, biblioteca, secretaria, coordenação e diretoria, com ênfase nesses dois últimos.

A profissão de coordenador é a de engenheiro e a de mestre-de-obras da área de humanas. É ele que tem que interagir com os alunos e resolver os problemas deles. Como se não bastasse o fato de não se ter reconhecimento, estudante não é raça que preste. Faz amizade, mas na hora de fazer besteira não lembra que além de amigo, existe ali um profissional ao qual ele deve ser submisso. Bati muita boca com as coordenadoras até o ensino médio, às vezes com razão e às vezes sem, mas tudo isso acabou no 2º ano com a chegada de Lívia.

Ela é do tipo de pessoa que tenta ser amiguinha de todo mundo distribuindo sorrisos, mas que pelas costas só te passa rasteira. Era uma agente infiltrada pra acabar com a nossa alegria. Todos os dias ela ficava na portaria dando bom dia para os alunos, fato que sempre me fez crer que a tinham contrado para a função errada. Por educação, a gente respondia pra que ela se sentisse útil ali. Entretanto, as pessoas não têm a mesma paciência. Algumas têm mais, outras menos e outras simplesmente não têm. Esse último caso era o do Alexandre.

Todos os dias ela o cumprimentava assim que ele chegava e duas coisas aconteciam, ou ele passava direto ou dava uma resposta nela. Era sempre a mesma coisa:

- Bom dia, Alexandre!
- Só se for pra você.

O pior é que ela não desistia ou reclamava, mas, um dia, a paciência dela se esgotou com ele:

- Bom dia, Alexandre...Alexandre, eu disse bom dia, deixe de ser mal-educado e responda.
- Minha amiga, mal-educado eu vou ser no dia que te responder.

Sabem aquele ditado que diz que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura? Foi desse dia em diante que eu percebi que existem pedras que é melhor você deixar virgem.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Merthiolate no joelho dos outros é refresco

Como dá pra conferir aqui embaixo, essa é a primeira das novidades que tenho pro blog: tirinhas feitas por mim. Seja o que Deus quiser.


Vê se aprende a ficar quieto agora

Comentem e mandem ideias.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Já é Natal (2)

Faltam pouco para o dia mais esperado do ano. Povos de todos os continentes comemoram da sua própria maneira a data. Em alguns lugares vemos desfiles, grandes festas e shows pirotécnicos pra celebrar o Natal. Em todos os continentes as pessoas festejam, só não sabem o por quê.

Quando era pequeno, descobri de uma maneira bastante dolorosa que o papai Noel, o coelho da Páscoa e a fada dos dentes não existiam, cada um na sua hora. Depois disso, achei que a vida nunca mais iria me enganar. Acreditava que nada e nem ninguém poderiam me iludir novamente. É claro que eu ainda não sabia o que era amor, mas isso não vem ao caso agora. Como não é de se estranhar, me ludibriaram outra vez. Eu e todos vocês.

Se eu perguntasse agora, valendo tudo ou nada, o que é que comemoramos no Natal, a maioria esmagadora diria que essa é uma pergunta fácil, idiota e que o motivo de tanta festa é o nascimento do menino Jesus. Parabéns, você está errado. Antes de se sentir indignado, ultrajado e sair para convocar uma turba furiosa com tochas e forcados para caçar um herege enviado pelo Satanás, deixe me perguntar duas coisas: em qual Bíblia e em qual passagem você encontrou a data de nascimento do Salvador? Ou você só acredita por que lhe disseram? Ninguém sabe quando Ele nasceu, em nenhum momento as escrituras sagradas indicam o dia em que Cristo veio ao mundo. O dia 25 realmente é uma data muito especial, mas não para os cristãos.

No Natal, acontece o solstício de inverno. Nessa data, os povos pagãos celebravam o Deus Sol. Esses povos foram conquistados por civilizações cristãs e, para facilitar a transição entre uma religião e outra, a Igreja decidiu que as comemorações continuariam, porém, por outros motivos. Desde então, geração após geração, especial de Natal após especial de Natal, as pessoas continuaram a disseminar essa mentira sem que nenhum de nós questionasse. E você se achando o espertão por ganhar presente no aniversário dos outros, né?

sábado, 9 de outubro de 2010

Tempos de escola (2)

Apesar de não gostar da escola que estudei a maior parte da minha vida, sempre gostei de ir pra lá todos os dias. Meus melhores amigos e boa parte dos meus amigos de infância, estudaram e cresceram comigo por lá. Estivemos juntos praticamente o ensino fundamental e médio inteiros. Alguns tiveram a sorte de abandonar o barco mais cedo, outros não. Permaneci até o final do segundo ano do ensino médio. Até hoje ainda bato no peito para dizer que não fui expulso. Saí porque fui injustiçado, queriam me proibir de assistir as aulas, vê se pode.

Se o Liceu desse prêmios ao final de cada ano, dois deles seriam meus: maior frequência e maior tempo na sala da diretora. No meu discurso, no dia da entrega, agradeceria a minha mãe por nunca me deixar faltar e aos meus colegas por terem ido comigo até o purgatório.

Todos os dias, fizesse sol ou chuva, tempestade de areia, neve ou raios, eu ia para a escola. Se minha mãe não pudesse me levar, ia de carona, se não tivesse carona, ia caminhando. Não importava como, tinha que ir. Naquela época, o moleque espirrava em casa e a mãe já mandava fazer um suco de laranja e deixava ele em casa vendo desenho debaixo das cobertas. Aqui em casa era completamente diferente.

Minha mãe é médica, então, pra ela, sempre poderia estar pior. Quando ficava com febre, corpo mole e ânsia de vômito, ela vinha e me perguntava se estava bem. Não importava a minha resposta, ela sempre dizia que se eu conseguia falar é porque dava pra ir pra escola. Mesmo doente tinha que estar lá sorrindo e distribuindo simpatia pela manhã, o máximo que eu ganhava era um comprimido pra tomar caso piorasse e o direito de ligar pra ela caso o comprimido não adiantasse. O pior de tudo era que se você tivesse que ligar para sua mãe e precisasse de algum remédio enquanto esperava por ela, o colégio não tinha. Tudo que eles ofereciam era chá.

Não importava a doença ou os sintomas que você apresentava, a cura para todos os seus males era chá. Caiu no chão e cortou a perna? Chá de boldo. Tá com febre? Chá de camomila. Dor de cabeça? Erva cidreira. Tá triste? Capim santo. Nervoso? Hortelã. Dor de corno? Erva doce. Só tinha isso, a caixa de primeiros socorros era enorme, mas dentro só tinha uma tesoura e um pacote de gazes, nem esparadrapo tinha. Era como se fosse um hospital público, mas sem as filas. Descobri isso da pior maneira possível.

Uma vez, saí da sala porque estava com uma puta vontade de vomitar e fui até a secretaria. A secretária chamou uma das inspetoras que resolveu fazer um chá para mim. Nunca gostei de tomar essa porcaria, mas ela me disse que ele faria com que a vontade de vomitar passasse na hora. Ela estava certa. Assim que tomei, saí correndo para o banheiro mais próximo e vomitei tudo na pia.

Depois de ter vomitado, lembrei do dia em que bati a cabeça e abri o supercílio quando era primeira série. Quando cheguei na secretaria, com metade do rosto coberto de sangue, a secretária já veio toda agoniada:

- Meu Deus, que foi isso?

- Ah, bati a cabeça...

- Vije Maria, a coisa tá feia. Melhor você olhar pra cima.

- Assim?

- É.

- Vai melhorar?

- Não, mas vai melar menos agora.

Talvez, se tivessem me oferecido um chá de canela, eu não tivesse tomado tanto ponto. Se bem que, pro tamanho do corte, iam precisar de algo mais forte: chá de carqueja com biscoitos.

Tempos de escola

Quando era pequeno, me disseram que a escola é a nossa segunda casa. Se é na cozinha que a gente fica com dor de barriga e solta uns peidinhos e no banheiro que tudo termina em merda, então, a sala de aula era a minha cozinha e as salas da coordenadora e da diretora eram os meus banheiros. Afinal, por mais que a coisa começasse a feder na sala, só dava merda quando passava por aquelas portas. Tinha dias pela manhã que eu já estava lá esperando, antes mesmo delas abrirem a sala. No primeiro dia, foi um susto, nos outros, foi uma ironia atrás da outra. Que bela surpresa você por aqui. Há quanto tempo, sabia que já estávamos com saudade? A verdade é que elas tinham medo de mim. Sabiam que a qualquer hora eu podia entrar na justiça e tomar a sala delas por usocapião.

A melhor coisa do mundo era ir para lá, significava que eu havia vencido e o professor perdido. Sabe quando você era pequeno e você brigava com alguém na rua e a pessoa saia correndo gritando que ia contar para a mãe? Você imaginava a platéia de aplaudindo de pé e o juiz segurando a sua mão lá no alto. Era a mesma sensação. Pena que a minha versão era sempre a errada. Ninguém nunca acreditava em mim, mas eu não me importava, lembrava da história e sorria pelo canto da boca. Ninguém gosta de um sorriso pelo canto da boca quando está dando uma bronca. Significa que, por mais que a pena seja dura, o crime compensou. E sempre compensava pra mim.

O bom de tomar uma advertência era a oportunidade de ir para casa mais cedo. Era como se o moleque que você havia batido fosse chamar a mãe dele e quando ela chegasse você batesse nela também e ela saisse correndo dizendo que ia chamar a sua mãe. Você vencia novamente, mas sabia que quando chegasse em casa ia tomar uma baita duma surra. Só que comigo era diferente. Meu pai foi pior do que eu, ele me entendia, sabia que a tradição havia sido passada adiante pelo sangue. Tanto é que, quando ligavam para ele, para dizer que eu estava atrapalhando o andamento da aula, ele dizia que era pra me deixarem em paz porque eles estavam fazendo a mesma coisa com o trabalho dele e nem por isso ele reclamava.

Quem ia lá resolver os problemas da escola era a minha mãe. Toda vez que ela voltava de lá, ela me perguntava se eu achava que estava certo. Bom, errado é que eu não estava. Da única vez em que eu fui suspenso por pular o muro, ela me levou para almoçar fora para que a gente pudesse conversar sobre o assunto. Foi nesse dia que ela me disse que nunca ia brigar comigo pelo que eu fazia na escola porque eu estava sob o comando dos meus genes. A única coisa que ela me disse é que iria na escola pegar todas as advertências que eu já tinha tomado, xerocá-las e fazer um mural para colocar no meu quarto. Bem que eu queria ter ganho esse mural, mas tudo bem. No outro dia, a diretora me perguntou o que eu havia ganho com tudo aquilo e eu apenas disse a verdade: um almoço e três dias de férias.

Nesse mesmo dia do almoço, meu pai me deu um conselho que resolvi seguir para o resto da vida: faça arte, mas nunca assine a obra, fica mais famosa a obra que o artista é desconhecido porque fica todo mundo querendo saber quem foi o gênio criativo. Ele estava certo, existem muitos mistérios sem solução no Liceu. Mistérios os quais eu prefiro que nunca sejam solucionados.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Psicotapa

Na semana passada, li algo sobre a nova lei que proíbe castigos físicos de qualquer tipo, inclusive, o psicotapa. Quando terminei de ler, parei para lembrar da minha infância. Jamais apanhei, mas vivia com medo de levar uns tapas no bumbum. Não que não merecesse, pois merecia. Aprontei tudo que tive direito e mais um pouco. Quando tinha reunião de família na casa das minhas avós, minha mãe, ligava antes pra avisar que estávamos chegando pra dar tempo de guardar as coisas que poderia quebrar. Mesmo assim, nenhuma mão, chinelo ou cinto, jamais encostou em mim. Minha mãe só precisava dizer que ia me dar umas chineladas ou me pegar pela orelha que me aquietava.

Dos três filhos, minha mãe só bateu na minha irmã. Foi um tapa de leve, só para repreendê-la por ter mentido. Nunca fez mal algum, ela não desenvolveu nenhum trauma ou ficou depressiva por causa disso. Pelo contrário, ela nem de Crepúsculo gosta. Matutei mais um pouco sobre o assunto, mas acabei por deixá-lo de lado. A minha opnião não mudaria em nada. Resolvi tomar banho.

Como a resistência do meu chuveiro estava quebrada, fui tomar banho no quarto da minha irmã. Ao entrar, estranhei o fato dela estar deitada no chão fazendo abdominais. Afinal, ela estava há quase duas semanas sem ir para a academia. Fiz cara de pensativo e segui em frente, tudo o que queria naquela hora era só o banho quente. Entrei no boxe e esqueci do mundo do lado de fora. Terminado o banho, me enxuguei, peguei as roupas que havia deixado espalhadas e sai do banheiro. Qual não foi a minha surpresa ao dar de cara com a minha irmã:

- Que porra é essa?! Isso é um cabo de vassoura, né?
- Saia daqui vá.
- Mas você tá fazendo exercícios com o cabo da vassoura.
- Meu filho, vá cuidar da sua vida,vá.
- Minha mãe paga R$120 pra você ir pra academia, tem duas semanas que você não vai e agora tá aí com o cabo da vassoura.
- Doido, saia do meu quarto, me deixe em paz.

Sai, mas dei uma última resmungada antes de fechar a porta:

- Um cabo de vassoura? Puta que pariu!

Pensei:

- Minha mãe deveria ter batido mais forte...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O dom de reclamar

Quando Deus fez o mundo, as coisas e os animais, Ele deu um dom a cada um. As plantas tem a fotossíntese, os peixes nadam, pássaros voam, baratas resistem ataques nucleares e os seres humanos reclamam.

Se engana aquele que pensa que ao ser humano foi dado o dom de raciocinar. Todos os outros mamíferos são mais inteligentes que nós. Os cachorros, por exemplo, conseguem nos entender, mas nós não conseguimos decifrar todos aqueles latidos. Só porque eles obedecem, não quer dizer que sejam burros. Vejam os negros.

Nós nunca estamos satisfeitos com nada. É o nosso talento nato. Estamos tão acostumados, que reclamamos quando os outros reclamam. Até pra puxar assunto a gente reclama. Nas filas do banco a gente reclama do atendimento e da demora para não ficar calado por só-Deus-sabe quantas-horas, nos dias quentes reclamamos do calor e nos dias frios, reclamamos do frio. Estranho seria reclamar do calor nos dias frios e vice-versa. Nós somos contraditórios, queremos e pedimos as coisas, mas quando elas não acontecem bem exatamente do jeito que queríamos, reclamamos. Se não gosta do frio e nem do calor, não peça por dias frios ou quentes, peça por dias mornos.

Muitas vezes nem sabemos porque estamos reclamando, mas isso não empata em nada. O importante é arrumar um defeito. O pior é que a vida conspira para isso e sempre dá um defeito. Nada é tão perfeito que não possa ser melhorado. E os adolescentes comprovam isso.

Toda geração diz que a geração seguinte está perdida. Nós olhamos para a nossa geração e vemos que não dará tempo de mudar tudo o que queríamos e resolvemos deixar a conclusão dessa mudança para a próxima. Quando a próxima chega no lugar em que estávamos e faz a mesma coisa, a gente apedreja e diz que não se fazem mais adolescentes, revoluções e orgias como antigamente. Realmente, não fazem, mas venhamos e convenhamos, uma geração que curte Cine e Restart e que os maiores ídolos são um vampiro corno viado, não necessariamente nessa ordem, e um lobisomem depilado, é pior do que a geração que curtiu Harry Potter e escutou Fresno e Nx Zero. Não muito, mas deixa pra lá.

terça-feira, 23 de março de 2010

Onde está?

Onde está o sorriso que você carregava no rosto?
Nunca mais vi aquele que me fazia esperar acordado até você chegar do trabalho,
nem o que demonstrava o orgulho que você tinha de ser meu pai,
e nem o que se divertia com as minhas meninices.

Não lembro do sorriso que deu quando montei sozinho pela primera vez,
muito menos daqueles que ostentava nos meus aniversários,
ou os que você guardava para quando eu estava triste.

Cadê aquele sorriso que você usava quando ia me ver nadar?
E o outro que você segurou quando pulei o muro do colégio?
Tinha também um amarelo para quando eu falava besteira
e um que só vestia quando estávamos a sós.

Ficaram todos naquelas velhas fotos e nos albúns de quando era criança,
alguns poucos e perdidos continuarão vivos na lembrança,
mas a maioria só será lembrada em histórias que nem eu saberei dizer se são verdadeiras.

*
É, isso é um poema. Sem rimas, sem métrica, sem nada, nada além do meu desabafo. Vou ser sincero com vocês, estou revoltado com o mundo, com uma dor de cabeça dos infernos, uma porrada de coisa acontecendo de uma vez só e vontade de tomar sorvete. A vida não é fácil pra ninguém e também não tem que ser pra mim.

Dá pra ver que ando com problemas com o meu pai, mas isso não quer dizer muita coisa. Nada de novo. Sei que muitos de vocês estão/estiveram nesse mesmo barco que estou agora e que nem por isso vocês deram uma de mariquinha e escreveram um poeminha pra passar a raivinha, mas a culpa não é minha. As minhas bolas ficaram na calourada e mandaram avisar que só voltam quando a farra acabar, só lamento. Contudo, todavia, porém, vou deixar uma bela ironia para vocês. Ontem, depois de ter discutido mais uma vez com o meu pai e antes de dormir, o céu derramava as suas lágrimas enquanto a lua minguante sorria para mim. Se quiser mais irnoia que isso, volte amanhã. E tenho dito!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Resumindo...

Ontem eu tive prova e hoje já é sexta-feira, dia de calourada de medicina. Então, pra quem vai ficar em casa nessa sexta, deixo o vídeo a seguir:


Conheço alguém que faria o mesmo se trocassem o marshmallow por uma garrafa de uísque.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

I'm Just a Kid and Life is a Nightmare


Desculpem, estou um pouco atrasado, mas espero que ainda dê tempo de postar o que eu havia prometido. Ontem foi dia das crianças e eu passei o dia quase inteiro na praia. O bar que eu fiquei estava cheio, mas quase não tinha crianças. Era dia das crianças e provavelmente todas elas estavam no cinema. Só os dois irmãos que eu encontrei brincavam alegremente na areia enquanto sua mãe reclamava da sujeira em que eles se encontravam.

Quando eu era pequeno, o dia da criança só não era mais esperado do que o natal e o meu aniversário. Não porque eu ganhava muitos presentes, mas sim porque a gente sempre fazia um passeio. Na minha infância eu não estava preocupado em ganhar os melhores ou os mais caros presentes. Tudo o que eu queria era passear e poder brincar ao ar livre, sujar-me todo e ver minha mãe rindo. Isso era dia das crianças e eu era uma criança de verdade.

Na minha época, não que eu seja muito velho, a gente brincava na rua o quanto quiséssemos sem se preocupar com nada. Só parávamos pra ir à escola, agora, até a escola mudou. Nos recreios nós brincávamos de pega-pega, esconde-esconde, polícia e ladrão. Muita criança hoje em dia não deve nem saber o que é isso. Os meninos só jogam futebol e as meninas se reúnem pra ficar fofocando. Época boa foi a nossa em que as meninas brincavam com os meninos e nós só percebíamos que elas não eram meninos de cabelo grande muito depois. Éramos iguais e ninguém morria por causa disso.

Eu estudava pela tarde e já chegava da escola correndo pra assistir Disney Cruj. Ali sim tinha desenhos legais. Poucos dos desenhos de hoje em dia são tão bons quanto os que eu assistia. Até mesmo os primeiros Power Rangers eram mais legais. Eu tenho pena das crianças que chegam em casa correndo para assistir malhação, comer, isso quando não come na frente da TV, e depois assistir mais um batalhão de novelas antes de dormir.


Cruj,cruj,cruj,tchau.

Lembro do primeiro vídeo game que eu ganhei. Tinha mais ou menos uns seis anos e nós morávamos na casa da minha avó na época. Ele nem se comparava com o Super Nintendo ou o Mega Drive. Fita eu só tinha uma com vários jogos, mas mesmo assim eu jogava feliz. Joguei muito pouco, tanto é que eu nunca cheguei a acabar nenhum dos jogos. Doeu quando eu tive que trocá-lo pelo Nintendo 64, demorou bastante pra que eu me acostumasse. Hoje não. O vídeo game é só mais um brinquedo descartável, assim que você ganha um novo o outro já está ultrapassado. Os momentos que vocês passaram juntos nem são lembrados. Um amigo do meu irmão mesmo tem mais vídeo games do que as mãos dele podem jogar.


Você conhece o Mário? Aqueles das fases aquáticas.

E o primeiro beijo? A gente dava brincando de salada mista ou no verdade ou conseqüência, mas mesmo assim muito diferente do que se acontece com as crianças de hoje. Era tudo planejado. A gente beijava a menina que gostava e só. No verdade ou conseqüência a gente aproveitava pra pedi-la em namoro. Namorar naquela época era brincar mais com aquela pessoa e escrever cartinhas tímidas. Semana passada eu escutei duas meninas, aparentando ter seus doze anos, conversando sobre meninos. Uma delas dizia que se “ele” não pedisse ela em namoro antes, ela ia assumir que estava ficando com o “outro”. Até mesmo pra mim, que tenho a cabeça bastante aberta, aquilo foi um choque. Não é uma coisa que você está acostumado a escutar, mesmo tendo vivido bastante.

Nem era tão gostoso assim.


Hoje os shoppings estão cada vez mais cheios. Pode ir pra um e olhar pro lado, com certeza tem um monte de criança metido a adulto. Você olha pra baixo, porque nem tamanho eles tem, e vê meninos metidos a maloqueiro e meninas parecendo bonecas barbies. As meninas saem cheias de maquiagem pra fazer compras, enquanto os meninos saem pra zoar com a galera. Se sentem adultos. De quem é a culpa? Nossa. Eles dizem aos pais para deixarem os filhos tomar suas decisões, mas sem a ajuda dos pais, os filhos tomam as decisões pela maioria. Eles não têm mais identidade. Estão só seguindo o “cabeça” do grupo. Ninguém consegue enxergar que animais fazem isso? Concordo que somos animais, mas somos racionais e temos nossa identidade.

Foi-se embora aquela inocência. As crianças de hoje talvez nem sejam tão saudosistas como nós. Pelo menos, eu não teria saudades de uma infância assim. À minha geração eu digo: é melhor a gente mudar o mundo agora do que deixar o futuro nas mãos deles.

O mundo seguiu adiante enquanto eu brincava na lama.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Movidos à Pilha

Como ontem eu falei sobre pais, hoje eu resolvi falar sobre filhos, em especial, os danadinhos. Eu gostaria de deixar bem claro que essa história de dizer que tal criança é hiperativa não passa de eufemismo. É como dizer que anões são pessoas verticalmente prejudicadas, negros são afro-descendentes e gays são homossexuais. E não, eu não sou racista. Então vocês me perguntam “Ah, Diego, você resolveu falar sobre crianças sapequinhas por quê?” Porque eu quis

Bom, ontem eu fui à loja de conveniência do posto com a minha mãe. Meu irmão queria que ela comprasse salgadinhos para uma festinha na escola e, como eu precisava de uma carona, eu fui junto. A fila para comprar os salgadinhos estava grande e só tinha uma pessoa atendendo. Enquanto esperávamos na fila, entraram três pessoas: a mãe, a babá e o pequeno lobo na pele de um cordeiro. Vocês pensam que eu estou exagerando? O menino devia ter no máximo uns dois anos de idade. Tinha uma carinha de anjinho que não levantava nenhuma suspeita. Na hora, nem eu suspeitei, mas bastou a mãe colocá-lo no chão que o menino simplesmente se transformou.
Você nunca imaginaria que ele seria capaz disso...
...Ou disso.

No instante em que aquela criaturinha colocou os pés no chão, foi como ele tivesse levado um choque de 10.000 W. O moleque saiu correndo pela loja inteira com a babá em seu encalço. Se ali fosse Alcatraz, ele com certeza teria conseguido escapar. Ele só “parou” quando encontrou a prateleira dos petiscos. Pegou tudo o que as suas pequenas mãozinhas conseguiram alcançar e voltou a correr. Dessa vez só parou quando deu de cara com um cartaz no meio da loja. Vocês pensam que ele parou e começou a chorar? Ledo engano. Ele deixou os petiscos no chão, os quais a babá devolveu a prateleira, e voltou a correr. A mãe foi quem o parou.

A essa altura, nós já estávamos na fila do caixa e a mulher ficou um pouco mais atrás da gente. Quando entrou na fila ela deixou o pimpolho voltar para o chão com a condição de que ele não mexeria mais nos petiscos. Ele cumpriu as ordens e não mexeu nos petiscos, foi pegar uma garrafa de smirnoff caipirinha. A mãe correu pra segurar e já foi dizendo:
- Nessa idade e já vai atrás de bebida.
Foi aí que eu parei e pensei um pouco. Primeiro ele pegou os petiscos, depois já foi pegar a vodka. Se fosse dois anos mais velhos ele tinha dado uma piscadinha e deixado o número do celular pra mulher do caixa.

Já na porta da loja, ainda pude ver o momento em que ele foi até o cartaz e deu um tapa para se vingar por ele ter ficado no caminho.

*
Eu não posso falar muito dele porque eu fui uma criança assim e, adivinhem, não me arrependo de nada. Meus pais vivem falando no quanto eu dei trabalho, mas eles sempre falam isso rindo, ou seja, eles se divertiram às pampas comigo. Claro que se divertiram. Crianças assim são mais espertas, mais alegres e mais divertidas. Ta que elas dão mais trabalho, mas compensa. Elas sempre estão dispostas e gostam de aprender coisas novas. Sem sombra de dúvidas eu quero filhos assim.
Você pode ter um Picasso em casa e nem saber.

Vocês devem ter pensado que por eu ter sido uma criança assim, eu acabaria contando minhas histórias aqui, nada mais justo, certo? Errado. Vou ficar devendo as minhas histórias porque elas dão um post inteiro. Por hora, fiquem com uma foto que dá uma idéia de como será este post.

- Vamos comigo que depois te explico.

Em tempo, gostaria de desejar um feliz aniversário a um amigo das antigas. Com certeza você deve ter dado trabalho em casa Huguinho.