Deixou que lhe convencessem de que deveria fazer aquele cruzeiro. Todas as pessoas da família e todos os conhecidos que vieram antes fizeram e tinham fotos pra mostrar o quão felizes ficaram. Era contra, mas o que podia fazer? A família era quem estava pagando, mal não faria que também escolhesse o destino.
Sua bagagem era grande demais pro navio, teve que deixar várias coisas para trás. Sem falar que a cabine não era tudo aquilo que lhe falaram. Deus!, não era nem mesmo aquilo que esperava na previsão mais pessimista. Agora que estava ali, só queria ir embora. Ligou para os pais e pediu que lhe buscassem. Ora, mal entrou no navio e já quer voltar? Daqui a pouco melhora, e, se não melhorar, cê volta.
Quis voltar na primeira parada, mas a viagem nem começou! Insistiu para que voltasse na segunda, na terceira, na quarta, na quinta, mas já foi até a metade e vai voltar agora!? Já tá aí, termina! Não aguentava mais aquelas pessoas, aqueles assuntos, nem a equipe do navio animava. Como um marinheiro com escorbuto, a apatia e a irritação tomaram conta dos seus dias. Há muito já nem sabia o que era dormir direito.
Ao se aproximarem da oitava parada, o navio foi pego no meio de uma tempestade. Escorregou no piso do convés ao tentar voltar pra cabine. Ainda tentou se agarrar ao guarda-corpos, mas não teve forças para segurar. Ensaiou algumas braçadas em direção ao barco, mas sabia que não era aquilo que queria e parou. Tão logo veio e tão logo se foi a tempestade, lhe deixando ali sem destino certo, sem rumo. Completamente à deriva no meio da calmaria, flutuou esperando que a correnteza levasse.
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quinta-feira, 13 de julho de 2017
quarta-feira, 12 de julho de 2017
Carnaval da vida
Trocaram olhares no meio da multidão de fotos do cardápio humano instalado em seus respectivos celulares, Já sabiam o que faziam da vida, o que estudavam, o que gostavam e que desejavam aquele encontro mutuamente, Já havia ali intimidade para mandar mensagem avisando que o aplicativo insinuara que combinavam, Riram, Fizeram comentários sobre as fotos, Marcaram de se encontrar no mesmo dia para comer alguma coisa, Desviaram no meio do caminho para um motel, Compartilharam algumas cervejas, mas não sonhos, Fizeram sexo, mas não planos, Transaram no escuro com a perfeição mascarada de um perfil, mas não com as realidades às suas frentes, Tomaram banho, mas não ao mesmo tempo para não exporem suas vergonhas, Prometeram que sairiam de novo, mas nunca mais se falaram.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Quadrilha Moderna
João amava Raimundo que amava Teresa
que amava Maria que amava Joaquim e Lili
que era assexuada.
João fez vida nos Esteites, Teresa na faculdade,
Raimundo morreu de Ébola, Maria ficou com Joaquim,
que não aguentou e suicidou-se e Lili manteve as aparências com J. Pinto
que queria colocar seu sobrenome na boca do povo.
que amava Maria que amava Joaquim e Lili
que era assexuada.
João fez vida nos Esteites, Teresa na faculdade,
Raimundo morreu de Ébola, Maria ficou com Joaquim,
que não aguentou e suicidou-se e Lili manteve as aparências com J. Pinto
que queria colocar seu sobrenome na boca do povo.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Pequeno príncipe
E foi então que apareceu a raposa:
- Ring-ding-ding-ding-dingeringeding, disse a raposa.
- Hã?! Respondeu inquisitivamente o princepezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Wa-pa-pa-pa-pa-pa-pow, disse a raposa indicando onde se encontrava.
- Quem é que está aí? Perguntou o princepezinho. Tu és bem difícil de entender...
- Hatee-hatee-hatee-ho, disse a raposa.
- Sai de onde você está e vem brincar comigo, propôs o princepezinho. Estou tão triste...
- Tchoffo-tchoffo-tchoffo-tchoffo-tchoff, disse a raposa em toda sua sapiência.
Porém, o princepezinho, que de raposês nada entendia, deu de ombros e foi embora.
- Ring-ding-ding-ding-dingeringeding, disse a raposa.
- Hã?! Respondeu inquisitivamente o princepezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Wa-pa-pa-pa-pa-pa-pow, disse a raposa indicando onde se encontrava.
- Quem é que está aí? Perguntou o princepezinho. Tu és bem difícil de entender...
- Hatee-hatee-hatee-ho, disse a raposa.
- Sai de onde você está e vem brincar comigo, propôs o princepezinho. Estou tão triste...
- Tchoffo-tchoffo-tchoffo-tchoffo-tchoff, disse a raposa em toda sua sapiência.
Porém, o princepezinho, que de raposês nada entendia, deu de ombros e foi embora.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Nego
Agora eu sou o Negão que trocou o verão do nordeste pelo inverno de Portugal, o oxe pelo ora pois e a moqueca de peixe com camarão por esse tal de bacalhau. Agora não tem mais moleza, nem o conforto de casa. Nada de roupa, passada e lavada, guardada na gaveta, cama feita ou pia da cozinha vazia. A comida não surge nas panelas, os produtos de limpeza não se esfregam no chão, os sacos de lixo não tomam o elevador, e o cheirinho do banheiro vive vazio.
Bebo todos os dias porque o clima é frio, porque sempre tem promoção, porque tem festa, porque chamam, porque não tenho aula, porque tive aula demais, porque não tem nada pra fazer, mas na maioria das vezes, faça chuva ou faça sol, é tão somente porque eu quero. Basta ser líquido, até o tal do mátê quêntê vendo o pôr do sol no teleférico de Gaia.
Jogo frisbee, ando de caiaque, faço slack, corro, e não paro. Agora falo um pouco de francês aqui, uma pitada de italiano ali e um punhado de alemão, não é suficiente pra conversar com ninguém, mas é, por enquanto, o bastante. Não estudo, mas vivo o Direito nas ruas, no povo e no fundo de um copo de cerveja.
Sou da Bahia, de Cuiabá e do Acre, mas também sou mineiro, gaúcho, paulista e catarinense. É uai! com bah!, bolacha com biscoito, língua queimada pelo mátê quêntê no final da tarde. É o rolê num pico doidimais, e, principalmente, concordar que é tudo um demonho mesmo. É deixar de ser sergipano pra me apresentar como brasileiro, com muito orgulho, com muito amor-ôôôô!
Foi nessa mistura retada da peste, que mudei e fui mudado, que acrescentei e fui acrescido. Não porque o intercâmbio muda todo mundo, mas porque tive coragem de sair da minha zona de conforto.
Agora eu sou o Negão, cheio de paixão, te catá, te catá, te catá.
Bebo todos os dias porque o clima é frio, porque sempre tem promoção, porque tem festa, porque chamam, porque não tenho aula, porque tive aula demais, porque não tem nada pra fazer, mas na maioria das vezes, faça chuva ou faça sol, é tão somente porque eu quero. Basta ser líquido, até o tal do mátê quêntê vendo o pôr do sol no teleférico de Gaia.
Jogo frisbee, ando de caiaque, faço slack, corro, e não paro. Agora falo um pouco de francês aqui, uma pitada de italiano ali e um punhado de alemão, não é suficiente pra conversar com ninguém, mas é, por enquanto, o bastante. Não estudo, mas vivo o Direito nas ruas, no povo e no fundo de um copo de cerveja.
Sou da Bahia, de Cuiabá e do Acre, mas também sou mineiro, gaúcho, paulista e catarinense. É uai! com bah!, bolacha com biscoito, língua queimada pelo mátê quêntê no final da tarde. É o rolê num pico doidimais, e, principalmente, concordar que é tudo um demonho mesmo. É deixar de ser sergipano pra me apresentar como brasileiro, com muito orgulho, com muito amor-ôôôô!
Foi nessa mistura retada da peste, que mudei e fui mudado, que acrescentei e fui acrescido. Não porque o intercâmbio muda todo mundo, mas porque tive coragem de sair da minha zona de conforto.
Agora eu sou o Negão, cheio de paixão, te catá, te catá, te catá.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
La sirena di Napoli
Andava sem rumo pela cidade até que encontrou o mar. A beleza de Roma ofuscava ainda mais os segredos a serem revelados em Nápoles. Todos as estradas levam a Roma, nenhuma delas deveria sair. Seu corpo chegou na costa, entretanto, seus pensamentos haviam sido aprisionados em uma velha moeda de euro. Seus desejos repousavam no fundo das claras águas da Fontana di Trevi.
Foi retirado do seu limbo particular por um riso angelical. Seus olhos percorreram o horizonte para encontrar uma deusa no meio dos homens. Nem mesmo a Capela Sistina poderia se comparar em beleza, nem provocar tamanha impressão. A arquitetura do Panteão invejaria sua perfeição.
A mais bela criatura a pisar na terra fez com que parasse. Ela sabia que ele a encarava, estupefato. Seu sorriso malicioso e os olhos de Capitu agora o puxavam para mais perto. Se sentia sugado pelo vácuo entre eles.
Se sentou na muralha que separava a terra e o oceano. Seus ondulados cabelos castanhos ondulavam em sintonia com o mar. Olhos fechados. Foi quando ele ensaiou dar o último passo em sua direção que ela mergulhou na salgada água deixando apenas bolhas para trás.
Foi retirado do seu limbo particular por um riso angelical. Seus olhos percorreram o horizonte para encontrar uma deusa no meio dos homens. Nem mesmo a Capela Sistina poderia se comparar em beleza, nem provocar tamanha impressão. A arquitetura do Panteão invejaria sua perfeição.
A mais bela criatura a pisar na terra fez com que parasse. Ela sabia que ele a encarava, estupefato. Seu sorriso malicioso e os olhos de Capitu agora o puxavam para mais perto. Se sentia sugado pelo vácuo entre eles.
Se sentou na muralha que separava a terra e o oceano. Seus ondulados cabelos castanhos ondulavam em sintonia com o mar. Olhos fechados. Foi quando ele ensaiou dar o último passo em sua direção que ela mergulhou na salgada água deixando apenas bolhas para trás.
domingo, 29 de junho de 2014
Apenas mais uma de amor (21) - Epifania
Há um momento sutil em que, não importa onde você esteja, todas as engrenagens do universo se encaixam. É único, particular e inesperado. Chega a ser orgasmática a súbita compreensão de todas as perguntas que permeiam o imaginário. De repente, respostas. A sensação de colocar um par de óculos novos pela primeira vez. Tudo entra em foco. Agora corria refazendo o percurso que acabara de fazer, talvez fosse tarde, mas nessa vida até menstruação atrasada é bem vinda.
Encheram suas taças com o néctar mais puro. Deixaram-se levar pelo gosto até se embriagarem. Dançaram inebriados uma melodia singular que ninguém mais escutava. Acreditaram na particularidade de uma balada apenas deles. Perdoaram os tropeções. Ai. Desculpa! Não tem problema -sorriso- agora gira e gira. E lá se ia um passo novo em cima da falha. A prática levaria a perfeição. Perderam-se quando não mais permitiram erros.
Trocaram os ritmos, mas não de parceiros. Soltaram as mãos, mas continuaram a dançar até a alvorada tocar suas faces. Cabisbaixos, cada um para um lado. Perdidos com a infinitude de possibilidades que surgiram. Universos alternativos que se formavam a cado passo que davam. O caminho que se estreitava à medida que se distanciavam. Acelerou.
Há um momento brusco em que o caos esbarra com leis universais e toma forma. É geral, incontrolável e desenfreado. Chega a ser assustadora a torrente de novas perguntas que ficamos submissos. De repente, perguntas. A sensação de que o par de lentes já não é mais suficiente para o novo grau. Tudo sai de cena. Agora caminhava pelo percurso que acabará de fazer, talvez fosse cedo, mas nessa vida até parto prematuro é bem vindo.
Correu porque sabia que a dança tinha conteúdo, caminhou porque sabia que faltava forma.
Encheram suas taças com o néctar mais puro. Deixaram-se levar pelo gosto até se embriagarem. Dançaram inebriados uma melodia singular que ninguém mais escutava. Acreditaram na particularidade de uma balada apenas deles. Perdoaram os tropeções. Ai. Desculpa! Não tem problema -sorriso- agora gira e gira. E lá se ia um passo novo em cima da falha. A prática levaria a perfeição. Perderam-se quando não mais permitiram erros.
Trocaram os ritmos, mas não de parceiros. Soltaram as mãos, mas continuaram a dançar até a alvorada tocar suas faces. Cabisbaixos, cada um para um lado. Perdidos com a infinitude de possibilidades que surgiram. Universos alternativos que se formavam a cado passo que davam. O caminho que se estreitava à medida que se distanciavam. Acelerou.
Há um momento brusco em que o caos esbarra com leis universais e toma forma. É geral, incontrolável e desenfreado. Chega a ser assustadora a torrente de novas perguntas que ficamos submissos. De repente, perguntas. A sensação de que o par de lentes já não é mais suficiente para o novo grau. Tudo sai de cena. Agora caminhava pelo percurso que acabará de fazer, talvez fosse cedo, mas nessa vida até parto prematuro é bem vindo.
Correu porque sabia que a dança tinha conteúdo, caminhou porque sabia que faltava forma.
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
E o salário ó - Jaca
Engana-se quem pensa que dar aula de inglês para níveis avançados é mais difícil. Os níveis básicos são um campo minado cheio de pegadinhas prontas para explodir ao sinal de qualquer movimento brusco. Como toda pessoa que começa algo novo, você não sabe de nada, portanto, o que aparecer já será novidade. Justamente por isso, a moeda mostra os seus dois lados. Ao mesmo tempo que o aluno iniciante se interessa por tudo, eles têm maior sede de conhecimento. E aí, meus caros, não há preparação no mundo que te deixe pronto para o que poderá aparecer. Em algum momento surgirá uma pergunta para a qual você não tem a resposta e aí resta apenas um conselho: se conforme e assuma.
Apesar do pouco tempo, já era uma turma querida. Era apenas a quinta ou sexta aula que dava para aquela turma, mas já tinha a sensação de estar em casa. O grupo era novo, nível iniciante. Ainda davam os primeiros passos com o inglês, e é justamente aí onde morava o perigo. Percebi tarde demais.
É certo que aluno não é raça de gente e sente um prazer inexplicável em apertar sem abraçar. Também sou aluno e sinto a mesma coisa. Quando o aluno já começa a pergunta rindo, das duas uma, ou é safadeza ou ele acha que você não sabe, tudo só para ter o gosto de rir internamente. Já tive professor que inventou a resposta na hora e só descobri anos mais tarde. Entretanto, dessa vez o erro foi meu.
O vocabulário da lição trazia algumas frutas,não muitas, as principais. Quando terminei de ensiná-las, avisei que não sabia todas as frutas, mas que eles poderiam perguntar mesmo assim. Uma a uma, respondi cada pergunta deles, até que perguntaram:
- E jaca? - o sorriso largo estampado.
Depois de uma boa gargalhada de desespero, olhei para o aluno e disse que não sabia, mas que iria procurar. Fiquei com aquilo na cabeça e a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi achar a resposta. Uma semana depois, lá estávamos nós, eu com a resposta na ponta da minha língua e ele com a pergunta na ponta da dele:
- E aí, professor? Achou? - aquele mesmo sorriso que eu esperava apagar.
- Claro! Você acha que eu ia deixar de responder? Jaca é jack fruit. - quem estava rindo agora?
- Mas essa daí é mole ou dura? - o sorriso sem nem mais caber no rosto.
O pior é que pra essa eu tinha a resposta.
Apesar do pouco tempo, já era uma turma querida. Era apenas a quinta ou sexta aula que dava para aquela turma, mas já tinha a sensação de estar em casa. O grupo era novo, nível iniciante. Ainda davam os primeiros passos com o inglês, e é justamente aí onde morava o perigo. Percebi tarde demais.
É certo que aluno não é raça de gente e sente um prazer inexplicável em apertar sem abraçar. Também sou aluno e sinto a mesma coisa. Quando o aluno já começa a pergunta rindo, das duas uma, ou é safadeza ou ele acha que você não sabe, tudo só para ter o gosto de rir internamente. Já tive professor que inventou a resposta na hora e só descobri anos mais tarde. Entretanto, dessa vez o erro foi meu.
O vocabulário da lição trazia algumas frutas,não muitas, as principais. Quando terminei de ensiná-las, avisei que não sabia todas as frutas, mas que eles poderiam perguntar mesmo assim. Uma a uma, respondi cada pergunta deles, até que perguntaram:
- E jaca? - o sorriso largo estampado.
Depois de uma boa gargalhada de desespero, olhei para o aluno e disse que não sabia, mas que iria procurar. Fiquei com aquilo na cabeça e a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi achar a resposta. Uma semana depois, lá estávamos nós, eu com a resposta na ponta da minha língua e ele com a pergunta na ponta da dele:
- E aí, professor? Achou? - aquele mesmo sorriso que eu esperava apagar.
- Claro! Você acha que eu ia deixar de responder? Jaca é jack fruit. - quem estava rindo agora?
- Mas essa daí é mole ou dura? - o sorriso sem nem mais caber no rosto.
O pior é que pra essa eu tinha a resposta.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Parabéns
Entraram as duas, mãe e filha. Ambas preocupadas, ambas apreensivas. Cumprimentaram o médico e sentaram-se nos seus respectivos assentos, sendo a mais velha apenas a acompanhante. A essa altura, já sabiam de cor e salteado toda a história que começara quatro meses antes no Carnaval, mas contaram mesmo assim, na esperança de que essa fosse a última pessoa a escutá-las.
As duas filhas ficaram doentes. Uma melhorou, a outra não. Mesmo assim, continuou medicando os mesmos remédios. Oras, se foi bom para uma, havia de ser bom para todas. Entretanto, nenhum funcionou. Eram dores, enjoos e náuseas, que iam e vinham sem aviso prévio. Senhora sempre muito religiosa, devota de muitos santos, rezou todas as orações que sabia e nada. Como saúde é coisa séria, não teve jeito se não marcar uma consulta. Foi aí que teve inicio uma bateria interminável de exames.
Verdade seja dita, ninguém sabia o que dizer. Já tinha feito vários exames, mas nada parecia se encaixar no quadro clínico. No exame anterior, achou que descobririam a causa e, mais uma vez, criou esperanças que logo foram destruídas. Fizeram uma tal de pesquisa de bactéria, como se bactéria alguma tivesse tempo para responder questionário. O médico então decidiu pedir uma ultrassonografia abdominal total. O que quer que estivesse ali, teria que aparecer.
Depois de escutar a história, pediu que levantasse a blusa para que ele pudesse espalhar o carbogel. Começou o exame sem saber ao certo onde procurar, mas estava procurando uma agulha no palheiro. Resolveu buscar mais informações:
- Desculpe a pergunta, mas a senhorita tem uma vida sexual ativa? - perguntou sem nem tirar os olhos da tela.
- Como? - entendera a pergunta, mas não queria acreditar que ela estava sendo feito. Pode ver sua mãe empertigar-se na cadeira pelo canto do olho.
- Vida sexual, a senhorita tem? - já nem piscava de tanta atenção que prestava.
- Não.
- É virgem ainda? - a indiferença agora transparecendo.
- Com certeza.
- Ela é religiosa como eu, doutor.
- Sei, sei.
Continuou olhando por mais alguns instantes e sorriu. Tirou os óculos e prosseguiu:
- A senhora tem filhos?
- Não, apenas duas meninas, essa e a outra que tava doente.
- E netos?
- Não.
- Parabéns, o primeiro tá aí, tem quatro meses e é um menino.
*
Depois ficou pensando se não teria sido mais engraçado dizer que era o novo messias.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Gran finale
Estava decidida. Definitivamente estava cansada também. Há alguns meses já vinha desconfiando da fidelidade do marido, mas sem nunca encontrar nenhuma prova das traições. As coisas pioraram quando os vizinhos começaram a perguntar sobre a mulher que sempre vinha visitar o marido enquanto ela não estava. Ele, é claro, desconversava. Safado. Ela podia ser boba, mas não burra. Pediu para que a avisassem da próxima vez que a tal mulher aparecesse. Foi justamente por conta da ligação que recebeu minutos antes, que decidiu pegá-lo no flagra.
Ligou para o celular dele para avisar que demoraria a chegar em casa. Precisava deixá-lo à vontade para ter certeza que não teria dúvidas do que estava acontecendo quando chegasse. Nada a não ser a caixa de mensagens. Seria o primeiro e último aniversário de casamento dos dois. Queria só ver a desculpa que o filho da mãe daria.
Entrou em casa calada e fechou a porta devagarinho. Escutava as molas da cama gemendo no quarto. Todas as janelas e cortinas estavam fechadas, dando um ar de abandono por conta da escuridão, provavelmente para esconder a safadeza dos vizinhos, mas ela usaria isso ao seu favor. A outra não teria lugar nenhum por onde fugir a não ser passando por ela na porta. Estava caminhando lentamente ao encontro dos dois quando o barulho que vinha das molas do colchão parou. Escutou o barulho dos lençóis e de passos rápidos. Escutou o baque seco da porta do guarda-roupa, correu e acendeu a luz:
- Que palhaçada é essa aqui? -disse vasculhando o quarto com os olhos à procura da outra ou de algum dos pertences dela.
- Que palhaçada? -o descarado estava apoiado no encosto e com as mãos cruzadas sobre o lençol como se nada tivesse acontecido.
- Eu sei que você tem outra, eu e todo mundo aqui no bairro. Cadê o seu celular? De hoje que te ligo e você não atende.
- Meu amor, não poderia atender o meu celular nunca. Esse tempo todo ele esteve com você.
- Comigo!? Você tá ficando doido? Você não me deixa nem chegar perto daquele aparelho, diz que é invasão de privacidade, mas agora eu entendi tudo. Não me trate como idiota.
- Conte até três, respire fundo e abra a sua bolsa.
- Você tá de sacanagem comigo, né? -contou até dez e respirou bem fundo para não voar no pescoço dele- Se esse celular estivesse aqui, eu teria escutado ele toc... Mas como ele veio parar aqui?! Eu tenho certeza de que não peguei nele e eu teria escutado caso ele tocasse.
- Vai ver você estava tão concentrada nisso que não percebeu e...
- Não me venha com essa conversa! Ainda não terminei com você. Tinha uma vagabunda e eu sei que ela está aqui, não to ficando doida. Escutei ela se escondendo -começou a chorar caminhando em direção ao guarda-roupa- a nossa história termina aqui.
- Se você tem certeza do que está fazendo, não vou te impedir, mas por que você não respira fundo e conta até três?
Não fez o que ele pediu apenas porque considerou aquilo como um último pedido de um condenado à morte, mas porque precisava daquilo para se controlar quando desse de cara com quem quer que estivesse lá. Quando puxou a porta não acreditou no que viu. Se não fosse pelas roupas dos dois, estaria vazio. Arrastou-o um pouco para ver a parte de trás, mas nada. Rodou o quarto todo e nem sinal de mulher alguma, marca de batom, perfume, maquiagem na fronha do travesseiro, peça de roupa, nada.
Ele tirou um buquê e uma caixa de bombons finos debaixo do lençol:
- Surpresa, feliz aniversário de casamento! -gritou sorrindo.
*
Anos mais tarde, ele divertia os netos com os truques que costumava encantar as plateias quando a mulher lembro do ocorrido. Ela foi ao seu encontro e sussurrou no seu ouvido:
- Como foi que você fez aquilo?
Ao que ele prontamente respondeu, sem nem tirar os olhos das crianças:
- Um mágico nunca revela seus truques.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Tempos de escola - Bullying
Na quarta série, hoje quinto ano, eu era um menino franzino e magrinho, assim como boa parte dos meus colegas. Entretanto, alguma coisa saiu muito errada no final daquele ano que eu voltei para a quinta série mais cheinho e com as bochechas mais arredondadas. Assim fiquei até a oitava série, quando comecei a gostar de uma colega e emagreci por vaidade.
Naquela época, primos, amigos e até mesmo o meu pai, me sacaneavam quando tinham a oportunidade. Nunca cheguei a ser obeso e nem fiquei muito acima do meu peso, mas isso não importava muito. Pros meus amigos eu estava em fase de crescimento lateral, para as minhas tias eu estava fofinho e, pro meu pai, gordo só prestava boi e vaca. Assim como eu, vários outros passavam pela mesma coisa diariamente. Ninguém nunca foi agredido fisicamente por ser diferente e, até onde eu saiba, ninguém teve danos psicológicos. Pelo contrário, de tanto me encherem o saco, emagreci e emagreci até mais do que o necessário, mas coisas mudaram e até a brincadeira mudou de nome. Virou até crime.
Não acredito que as coisas tenham mudado muito desde o meu tempo. Meu irmão mais novo passa pelo mesmo que passei e com um bônus: eu. Ao invés de ficar trancado dentro do quarto chorando deprimido e escutando restart enquanto pensa em matar metade da família, ele vai pra escola e se diverte como toda criança normal. O problema não está nas relações entre as crianças, mas nas relações entre pais e filhos:
Pais superprotetores estão arruinando geração atrás de geração. Eles tomam as dores do filhos e controlam tudo que eles fazem. Se a criança briga com um amigo, a amizade tá proibida. Se botarem apelido nela, tem que contar pra "tia". Será que não percebem que isso só piora? Eles sempre se resolvem entre eles, e, se não se resolverem, aí sim deve ser procurada a ajuda de um adulto. Tanto se entendem que, na primeira série, briguei com um colega que hoje é como um irmão pra mim. Foi o meu pai que me ensinou as duas regras básicas de sobrevivência que me levaram, sem traumas, até a sexta série:
- Nunca arrume confusão.
- Nunca volte apanhado pra casa.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Sonho de liberdade
No nordeste dos Estados Unidos, existia uma pequena propriedade dedicada à plantação de maçãs. Paul era quem cuidava delas junto com a mulher e um filho, mas o papel dele não será importante agora. As macieiras tinham duas opções que variavam de acordo com qual lado da cerca elas nasciam. Davam frutos vermelhos se nasciam do lado esquerdo e verdes quando brotavam do lado direito. Elisabeth nascera do esquerdo.
Desde pequena, quando ainda germinava e não entendia nada do mundo e do planeta em que estava, sentia-se diferente. Cresceu com essa sensação estranha. Teve a confirmação que precisava quando viu a cor das suas maçãs. Vermelho? Não existia cor mais feia e fora de moda. Aquela não era cor para ela. Queria algo mais, diferente e que a destacasse das demais. Ela nascera pra brilhar no meio de toda aquela cafonice. Não adiantou em nada a tentativa das amigas de tirar aquela ideia da cabeça dela. Macieira do lado esquerdo só tem essa opção, reclamasse ela com o fazendeiro. Ela apenas ria e sonhava.
Como vocês bem sabem, em fazenda pequena a fofoca corre rápido. Em pouco tempo, o pomar inteiro sabia que havia uma sonhadora. Uma assanhada, isso sim. Ela de espécie de família querendo se misturar com outras espécies quaisquer. Não naquele pomar. Entretanto, Lisa, como era carinhosamente conhecida, já estava decidida. Na próxima safra ela apresentaria novas cores.
Na primeira, o máximo que ela conseguiu foi deixar as maçãs menos vermelhas. Na segunda, algumas poucas ficaram metade verdes e metade amarelas. Na terceira, metade delas estava verde. Só na quarta ela conseguiu mudar a cor e o gosto de todas. Pena essa não ser uma história com final feliz. Queria encerrar aqui e contar que Lisa viveu por muitos anos feliz e do jeito que sonhou, mas não foi assim que as coisas aconteceram.
Paul era agricultor formado no campo e com especialização no seu pomar. Conhecia cada árvore e cuidava de cada uma delas. Quando percebeu que a coloração dos frutos de uma delas estava diferente, fez o diagnóstico e a medicou. Safra após safra, ele cuidou dela sem muitos resultados. Na quarta, após ter diagnosticado o problema, desistiu. Estavam todos os frutos verdes e nenhum dos pesticidas adiantou. Foi com grande pesar que ele pegou a serra, cortou a macieira e arrancou a raiz. Teve que ser assim, antes que as outras fossem contaminadas e ele falisse.
Ao menos fora livre uma vez na vida.
Desde pequena, quando ainda germinava e não entendia nada do mundo e do planeta em que estava, sentia-se diferente. Cresceu com essa sensação estranha. Teve a confirmação que precisava quando viu a cor das suas maçãs. Vermelho? Não existia cor mais feia e fora de moda. Aquela não era cor para ela. Queria algo mais, diferente e que a destacasse das demais. Ela nascera pra brilhar no meio de toda aquela cafonice. Não adiantou em nada a tentativa das amigas de tirar aquela ideia da cabeça dela. Macieira do lado esquerdo só tem essa opção, reclamasse ela com o fazendeiro. Ela apenas ria e sonhava.
Como vocês bem sabem, em fazenda pequena a fofoca corre rápido. Em pouco tempo, o pomar inteiro sabia que havia uma sonhadora. Uma assanhada, isso sim. Ela de espécie de família querendo se misturar com outras espécies quaisquer. Não naquele pomar. Entretanto, Lisa, como era carinhosamente conhecida, já estava decidida. Na próxima safra ela apresentaria novas cores.
Na primeira, o máximo que ela conseguiu foi deixar as maçãs menos vermelhas. Na segunda, algumas poucas ficaram metade verdes e metade amarelas. Na terceira, metade delas estava verde. Só na quarta ela conseguiu mudar a cor e o gosto de todas. Pena essa não ser uma história com final feliz. Queria encerrar aqui e contar que Lisa viveu por muitos anos feliz e do jeito que sonhou, mas não foi assim que as coisas aconteceram.
Paul era agricultor formado no campo e com especialização no seu pomar. Conhecia cada árvore e cuidava de cada uma delas. Quando percebeu que a coloração dos frutos de uma delas estava diferente, fez o diagnóstico e a medicou. Safra após safra, ele cuidou dela sem muitos resultados. Na quarta, após ter diagnosticado o problema, desistiu. Estavam todos os frutos verdes e nenhum dos pesticidas adiantou. Foi com grande pesar que ele pegou a serra, cortou a macieira e arrancou a raiz. Teve que ser assim, antes que as outras fossem contaminadas e ele falisse.
Ao menos fora livre uma vez na vida.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Segunda guerra mundial
Ninguém nunca havia percebido potencial algum nele além. Não que fosse ruim, mas também não era bom. Era suficiente. Também, ele se esforçava apenas para fugir dos valentões. A explosão e a resposta dos seus músculos eram perfeitas, mas só por alguns metros. Era realmente bom em nada. Sempre quieto no seu canto, passou do jardim infantil para a escola e de lá a a universidade. Não era das melhores faculdades na Alemanha, mas já era bastante para ele. Foi perto de se formar que a sua vida mudou.
Durante as férias, estava voltando para casa quando viu um senhor sendo assaltado. Para azar de um e sorte do outro, ao invés de tentar derrubar o ladrão que vinha na sua direção, fez uma finta e desviou rapidamente. Baixou a cabeça quando viu o ancião caminhar para perto dele, mas, ao invés de ser novamente menosprezado e chamado de covarde, ele foi convidado a acompanhá-lo. Decidiu que acompanhar aquele estranho era o mínimo que poderia fazer para compensar a carteira perdida.
Ao chegar na frente de um galpão abandonado, o desconhecido perguntou se ele já havia treinado boxe. Não ficou claro? Era um covarde, preferia correr a lutar. Aquele senhor era treinador e acreditava que ele tinha potencial, aquele jogo de cintura não era encontrado em qualquer lugar. Pediu um mês para torná-lo mais forte. Fez o jovem prometer que treinaria duro durante pelo menos um mês. Era o mínimo que poderia fazer.
E assim foi feito, durante as três primeiras semanas ele treinou os músculos pela manhã, técnicas e golpes pela tarde e a mente durante a noite. Na última semana, treinou com os outros alunos, ou melhor, foi espancado por eles. Todos os dias ele subia no ringue e fechava a guarda ao soar do gongo. Os conselhos do treinador de nada adiantavam, ele tinha medo. No último dia do mês, após horas apanhando, sem nem mais sentir os socos que acertavam o seu estômago, de olhos fechados, contra-atacou pela primeira vez. O barulho do corpo do adversário batendo no chão ecoou na sala, estavam todos calados com os olhos arregalados. Quando abriu os olhos, viu o sangue escorrendo da sua mão e pela primeira vez sentiu o gosto de vitória.
Apareceu no outro dia e nocateou todos aqueles que tinham lhe acertado. Não por vingança, mas porque gostava daquela sensação. Tornou-se um lutador perfeito. Ao bater do gongo, ele explodia para dentro da guarda do adversário e atacava com um potente cruzado ou direto. Nenhum deles conseguia acompanhar a sua velocidade. Tombaram todos aos seus pés e aí, as vitórias não tinham mais tanta graça. Mesmo a academia não tendo dinheiro, eles conseguiam fundos suficientes para pagar as passagens de ônibus. Logo, começou a frequentar os torneios locais, os regionais e depois de pouco tempo já estava lutando no nacional. Todos queriam enfrentar o novato. Em vão. Mesmo os que conseguiam manter uma guarda bem fechada, se ajoelhavam e rezavam quando encontravam os seus socos. Nada e nem ninguém parecia pará-lo. Ganhou o apelido de Blitzkrieg.
Sua fama alcançou os quatro cantos do mundo e começou a incomodar um certo inglês campeão mundial de boxe. As capas dos jornais e revistas traziam entrevistas com os derrotados, todos diziam que aqueles punhos não podiam ser de um humano. O que gerou um mito sobre ele ser um cyborg. Nenhum exame de dopping encontrou qualquer substância em seu corpo, o que aumentava mais ainda as lendas. Ele não poderia deixar a sua reputação e o seu título serem questionados daquele jeito. Entrou em contato com o criador da besta e marcou uma luta com o cinturão em jogo. Seria a segunda grande disputa que o mundo do boxe presenciaria. Providenciou as passagens e aguardou.
No dia D, a imprensa do mundo inteiro estava lá para o dia em que teria início uma nova era. Quando ambos os lutadores foram chamados ao ringue, o inglês subiu com ar de confiante, mas o alemão não compareceu. Esperaram, esperaram e nada. Ninguém conseguia entrar em contato com ele ou com o seu treinador. Ligaram para o aeroporto em que eles iriam desembarcar, mas a única informação que tinham era a de que eles não haviam embarcado. Receberam uma ligação de um aeroporto em Berlim. A mídia do mundo inteiro entrou em algazarra. A Blitzkrieg havia sido parada.
Sua carreira foi estilhaçada do mesmo jeito que ascendeu. A culpa não fora dele, ele nunca teve muito conhecimento mesmo, nunca soube de muita coisa. Como saberia que os seus ossos eram reforçados por uma liga metálica? Foi derrotado por um detector de metais.
Durante as férias, estava voltando para casa quando viu um senhor sendo assaltado. Para azar de um e sorte do outro, ao invés de tentar derrubar o ladrão que vinha na sua direção, fez uma finta e desviou rapidamente. Baixou a cabeça quando viu o ancião caminhar para perto dele, mas, ao invés de ser novamente menosprezado e chamado de covarde, ele foi convidado a acompanhá-lo. Decidiu que acompanhar aquele estranho era o mínimo que poderia fazer para compensar a carteira perdida.
Ao chegar na frente de um galpão abandonado, o desconhecido perguntou se ele já havia treinado boxe. Não ficou claro? Era um covarde, preferia correr a lutar. Aquele senhor era treinador e acreditava que ele tinha potencial, aquele jogo de cintura não era encontrado em qualquer lugar. Pediu um mês para torná-lo mais forte. Fez o jovem prometer que treinaria duro durante pelo menos um mês. Era o mínimo que poderia fazer.
E assim foi feito, durante as três primeiras semanas ele treinou os músculos pela manhã, técnicas e golpes pela tarde e a mente durante a noite. Na última semana, treinou com os outros alunos, ou melhor, foi espancado por eles. Todos os dias ele subia no ringue e fechava a guarda ao soar do gongo. Os conselhos do treinador de nada adiantavam, ele tinha medo. No último dia do mês, após horas apanhando, sem nem mais sentir os socos que acertavam o seu estômago, de olhos fechados, contra-atacou pela primeira vez. O barulho do corpo do adversário batendo no chão ecoou na sala, estavam todos calados com os olhos arregalados. Quando abriu os olhos, viu o sangue escorrendo da sua mão e pela primeira vez sentiu o gosto de vitória.
Apareceu no outro dia e nocateou todos aqueles que tinham lhe acertado. Não por vingança, mas porque gostava daquela sensação. Tornou-se um lutador perfeito. Ao bater do gongo, ele explodia para dentro da guarda do adversário e atacava com um potente cruzado ou direto. Nenhum deles conseguia acompanhar a sua velocidade. Tombaram todos aos seus pés e aí, as vitórias não tinham mais tanta graça. Mesmo a academia não tendo dinheiro, eles conseguiam fundos suficientes para pagar as passagens de ônibus. Logo, começou a frequentar os torneios locais, os regionais e depois de pouco tempo já estava lutando no nacional. Todos queriam enfrentar o novato. Em vão. Mesmo os que conseguiam manter uma guarda bem fechada, se ajoelhavam e rezavam quando encontravam os seus socos. Nada e nem ninguém parecia pará-lo. Ganhou o apelido de Blitzkrieg.
Sua fama alcançou os quatro cantos do mundo e começou a incomodar um certo inglês campeão mundial de boxe. As capas dos jornais e revistas traziam entrevistas com os derrotados, todos diziam que aqueles punhos não podiam ser de um humano. O que gerou um mito sobre ele ser um cyborg. Nenhum exame de dopping encontrou qualquer substância em seu corpo, o que aumentava mais ainda as lendas. Ele não poderia deixar a sua reputação e o seu título serem questionados daquele jeito. Entrou em contato com o criador da besta e marcou uma luta com o cinturão em jogo. Seria a segunda grande disputa que o mundo do boxe presenciaria. Providenciou as passagens e aguardou.
No dia D, a imprensa do mundo inteiro estava lá para o dia em que teria início uma nova era. Quando ambos os lutadores foram chamados ao ringue, o inglês subiu com ar de confiante, mas o alemão não compareceu. Esperaram, esperaram e nada. Ninguém conseguia entrar em contato com ele ou com o seu treinador. Ligaram para o aeroporto em que eles iriam desembarcar, mas a única informação que tinham era a de que eles não haviam embarcado. Receberam uma ligação de um aeroporto em Berlim. A mídia do mundo inteiro entrou em algazarra. A Blitzkrieg havia sido parada.
Sua carreira foi estilhaçada do mesmo jeito que ascendeu. A culpa não fora dele, ele nunca teve muito conhecimento mesmo, nunca soube de muita coisa. Como saberia que os seus ossos eram reforçados por uma liga metálica? Foi derrotado por um detector de metais.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Vida e morte de um escritor
Era um escritor em início de carreira. Era. Morreu alguns dias após ter lançado o seu primeiro livro.
Escrevera um romance. Uma comédia romântica para ser mais exato. As pessoas sempre querem mais comédias românticas. Mesmo se o autor mudar apenas o título e o nome dos personagens, elas ainda assim comprariam o novo livro. Foram meses trabalhando duro. Observou os casais de mãos dadas nas ruas. Prestou atenção nas conversas, na forma em que discutiam e logo em seguida faziam as pazes. Bastaria o namorado olhar para outro rabo de saia e a história se repetiria. Só tenho olhos pra você, meu anjo, nunca olharia para ela quando posso olhar para você aqui. Ela acreditaria e ele agradeceria pelo amor ser cego.
Seu editor reclamou de alguns capítulos, elogiou outros. Mudou apenas o que quis. Era seu livro. Trocaria de editora, mas não abriria mão da sua liberdade de expressão e das suas ideias. Esse foi o seu primeiro erro. Por fim, o livro foi aceito. Era um bom livro, pensava o editor. Era um best-seller, pensava ele. Esse foi o seu segundo e último erro.
Não tinha inimigos, mas isso não era necessário. Alguém tem que morrer para que alguém possa continuar a viver. Ele foi o escolhido. O assassino fora contratado por um jornal. Tinha algo em comum com a vítima, esse também seria o seu primeiro trabalho. Precisava conhecer mais sobre o alvo. Recebeu das mãos do contratante o livro que o coitado levara meses para terminar e leu para entendê-lo melhor. Optou por usar armamento pesado e atirar no ponto fraco.
Dois dias depois, como fez todas as manhãs dos últimos meses, o escritor saiu de casa cheio de si. Tinha uma tarde de autógrafos marcada para aquele mesmo dia. Primeiro faria um discurso, agradeceria todas as pessoas que o apoiara do livro, mesmo sendo poucas, depois um coffe break e, por fim, distribuiria algumas cópias autografadas e autografaria os demais. Jovens e adultos estariam lá para prestigiá-lo. Bela obra, tenho certeza que ficarei emocionada na mesma medida que me divertirei com os personagens. Faltava agora ter um filho e plantar uma árvore. Não necessariamente nessa ordem. Mal sabia ele que a morte o esperava na esquina.
O jornaleiro já o aguardava com o jornal na mão, mas, pela primeira vez em muitos anos, ele entregou o jornal e virou as costas. Não que isso tivesse chamado sua atenção. Ele estava muito animado para prestar atenção em qualquer outra coisa que não fizesse parte do seu mundinho particular. Abriu o jornal ali mesmo e foi direto para parte que o interessava. Poucos segundos depois, estava caido no chão. Foi levado por uma ambulância até o hospital. O médico o examinou, mas não tinha dúvidas, o escritor estava morto. Um único disparo. Um tiro de crítica negativa à queima-roupa no ego foi a causa do óbito. Nunca mais voltaria a escrever.
Escrevera um romance. Uma comédia romântica para ser mais exato. As pessoas sempre querem mais comédias românticas. Mesmo se o autor mudar apenas o título e o nome dos personagens, elas ainda assim comprariam o novo livro. Foram meses trabalhando duro. Observou os casais de mãos dadas nas ruas. Prestou atenção nas conversas, na forma em que discutiam e logo em seguida faziam as pazes. Bastaria o namorado olhar para outro rabo de saia e a história se repetiria. Só tenho olhos pra você, meu anjo, nunca olharia para ela quando posso olhar para você aqui. Ela acreditaria e ele agradeceria pelo amor ser cego.
Seu editor reclamou de alguns capítulos, elogiou outros. Mudou apenas o que quis. Era seu livro. Trocaria de editora, mas não abriria mão da sua liberdade de expressão e das suas ideias. Esse foi o seu primeiro erro. Por fim, o livro foi aceito. Era um bom livro, pensava o editor. Era um best-seller, pensava ele. Esse foi o seu segundo e último erro.
Não tinha inimigos, mas isso não era necessário. Alguém tem que morrer para que alguém possa continuar a viver. Ele foi o escolhido. O assassino fora contratado por um jornal. Tinha algo em comum com a vítima, esse também seria o seu primeiro trabalho. Precisava conhecer mais sobre o alvo. Recebeu das mãos do contratante o livro que o coitado levara meses para terminar e leu para entendê-lo melhor. Optou por usar armamento pesado e atirar no ponto fraco.
Dois dias depois, como fez todas as manhãs dos últimos meses, o escritor saiu de casa cheio de si. Tinha uma tarde de autógrafos marcada para aquele mesmo dia. Primeiro faria um discurso, agradeceria todas as pessoas que o apoiara do livro, mesmo sendo poucas, depois um coffe break e, por fim, distribuiria algumas cópias autografadas e autografaria os demais. Jovens e adultos estariam lá para prestigiá-lo. Bela obra, tenho certeza que ficarei emocionada na mesma medida que me divertirei com os personagens. Faltava agora ter um filho e plantar uma árvore. Não necessariamente nessa ordem. Mal sabia ele que a morte o esperava na esquina.
O jornaleiro já o aguardava com o jornal na mão, mas, pela primeira vez em muitos anos, ele entregou o jornal e virou as costas. Não que isso tivesse chamado sua atenção. Ele estava muito animado para prestar atenção em qualquer outra coisa que não fizesse parte do seu mundinho particular. Abriu o jornal ali mesmo e foi direto para parte que o interessava. Poucos segundos depois, estava caido no chão. Foi levado por uma ambulância até o hospital. O médico o examinou, mas não tinha dúvidas, o escritor estava morto. Um único disparo. Um tiro de crítica negativa à queima-roupa no ego foi a causa do óbito. Nunca mais voltaria a escrever.
sábado, 13 de março de 2010
Embriaguez Verbal
Chip era uma ovelha que, como todas as outras ovelhas, fazia "béééé". Todos os dias ela se levantava cedo, espreguiçava-se, dava o seu "béééé" matinal e saia para fazer sua caminhada matutina. Após a caminhada, ela batia o seu ponto e fazia todas essas coisas que as ovelhas tem que fazer para cumprir o seu papel na natureza.
Um certo dia, Chip, que gostava de ser chamada de Floco de Neve pelo dono, levantou cedo, espreguiçou-se, deu o seu "béééééh" matinal, mas não saiu para fazer a sua caminhada matutina. Chip, que era o nome que os seus pais ovelhas haviam lhe dado assim que nascera, percebeu que o seu "béééé" estava diferente. Ficou preocupada. Aquilo parecia um mal sinal. Pensou um pouco sobre o assunto, mas decidiu sair para fazer sua caminhada matutina mesmo assim.
Foi nesse dia, enquanto fazia todas aquelas coisas que as ovelhas, mesmo as que fazem "béééééh" tem que fazer, que Chip conheceu a pessoa que mudaria sua história. Não necessariamente essa história que conto agora. Essa daqui não é a história de Chip.
Um certo dia, Chip, que gostava de ser chamada de Floco de Neve pelo dono, levantou cedo, espreguiçou-se, deu o seu "béééééh" matinal, mas não saiu para fazer a sua caminhada matutina. Chip, que era o nome que os seus pais ovelhas haviam lhe dado assim que nascera, percebeu que o seu "béééé" estava diferente. Ficou preocupada. Aquilo parecia um mal sinal. Pensou um pouco sobre o assunto, mas decidiu sair para fazer sua caminhada matutina mesmo assim.
Foi nesse dia, enquanto fazia todas aquelas coisas que as ovelhas, mesmo as que fazem "béééééh" tem que fazer, que Chip conheceu a pessoa que mudaria sua história. Não necessariamente essa história que conto agora. Essa daqui não é a história de Chip.
*
Ela não sabia para onde ir. Estava perdida em um planeta muito mais frio que o seu, embora fosse verão e o Sol já estivesse à pino. O pior é que estava completamente nua.
Se chamava An ET, mas não se importava quando chamavam-na de Anet. Anet, ou An ET, seja lá qual deles você gostou mais, já estava sem forças para caminhar. Antes de desmaiar na frente de um campo cheio de enormes bolas de algodão, Anet pôde ver um homem se aproximando. Esse homem mudaria sua história, mas só se fosse essa a história dela.
*
Quando ela abriu os olhos, Jhon Taylor já foi logo avisando que não tinha tocado em nada. Ela estava deitada, ainda nua, em sua enorme cama, mas não parecia ser louca, assim como todas as outras mulheres nuas que já deitaram na sua enorme cama. Olhou para ela e perguntou:
- O que você est... - mas foi interrompido.
-Tenho que continuar fugindo. Percebi que o senhor tem alguns casacos de lã pendurados atrás da porta e preciso de uma.
- Você está certa, mas eles não são meus, são dos meus clientes.
- Não se preocupe, também posso pagar.
- HÁ! Você estava completamente nua quando te encontrei, como pretende pagar?
- Você diz que me encontrou nua e agora eu estou aqui deitada na sua cama. Acho que já temos um acordo, queridinho.
Jhon Taylor teve que admitir que ela era mais sagaz do que qualquer outra louca nua que já estivera deitada sobre qualquer um dos seus enormes móveis. Saiu correndo na direção daquilo que teria sua vida mudada por todos eles.
*
Agora Cut era uma tesoura dessas de tosar, mas já tinha sido pastor em uma vida passada. Deus divertira-se tanto com sua morte que deu o direito dele escolher em que ele reencarnaria. Cut foi pisoteado pelo rebanho que criava. Primeiro foram os carneiros que não aguentavam mais o suspiro das suas esposas após serem acariciadas por Cut, seguidos pelas ovelhas que não tinham sido acariciadas ainda e se sentiam excluídas, pelos carneiros que, mesmo sendo carneiros, gostariam de ser acariciados e pela ovelha que Cut prometeu ligar no outro dia, mas não ligou.
Jhon saiu de casa com a tesoura que tinha acabado de comprar. Precisava testá-la e precisava de lã. Uniu o útil ao prazeroso: correu para o pasto. Agarrou a primeira ovelha que encontrou, amarrou-a e levou-a para o seu local de trabalho. Deixou-a nua para que Anet se vestisse. Quando terminou de tosá-la, Jhon repousou a tesoura sobre o banquinho que estava sentado e deixou a ovelha de lado.
Chip tentou se soltar. Queria fugir. Como ela poderia fazer todas aquelas coisas que as ovelhas fazem se nem se parecia com um ovelha? Tentou correr. Acertou o banquinho na tentativa. O banquinho, por sua vez, balançou, balançou, balançou, mas não caiu. Apenas derrubou a tesoura que estava sentada sobre ele sem autorizção prévia. Cut caiu de mal jeito e se machucou feio. Estava inútil para cumprir suas funções de tesoura.
*
Chip sabia que não deveria ter saído da cama naquele dia. O capim nem estava tão gostoso assim.
Anet sabia que logo, logo, o inverno a alcançaria. Tinha que dar continuidade a sua fuga.
Jhon sabia que aquele pagamento fora de outro mundo. Nunca mais arranjaria uma não-louca para ficar nua. Não de graça.
Cut sabia que devia ter reencarnado como um lobo ou um urso. Ou apenas reencarnado.
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