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quinta-feira, 13 de julho de 2017

Náufraga

Deixou que lhe convencessem de que deveria fazer aquele cruzeiro. Todas as pessoas da família e todos os conhecidos que vieram antes fizeram e tinham fotos pra mostrar o quão felizes ficaram. Era contra, mas o que podia fazer? A família era quem estava pagando, mal não faria que também escolhesse o destino.

Sua bagagem era grande demais pro navio, teve que deixar várias coisas para trás. Sem falar que a cabine não era tudo aquilo que lhe falaram. Deus!, não era nem mesmo aquilo que esperava na previsão mais pessimista. Agora que estava ali, só queria ir embora. Ligou para os pais e pediu que lhe buscassem. Ora, mal entrou no navio e já quer voltar? Daqui a pouco melhora, e, se não melhorar, cê volta.

Quis voltar na primeira parada, mas  a viagem nem começou! Insistiu para que voltasse na segunda, na terceira, na quarta, na quinta, mas já foi até a metade e vai voltar agora!? Já tá aí, termina! Não aguentava mais aquelas pessoas, aqueles assuntos, nem a equipe do navio animava. Como um marinheiro com escorbuto, a apatia e a irritação tomaram conta dos seus dias. Há muito já nem sabia o que era dormir direito.

Ao se aproximarem da oitava parada, o navio foi pego no meio de uma tempestade. Escorregou no piso do convés ao tentar voltar pra cabine. Ainda tentou se agarrar ao guarda-corpos, mas não teve forças para segurar. Ensaiou algumas braçadas em direção ao barco, mas sabia que não era aquilo que queria e parou. Tão logo veio e tão logo se foi a tempestade, lhe deixando ali sem destino certo, sem rumo. Completamente à deriva no meio da calmaria, flutuou esperando que a correnteza levasse.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Nego

Agora eu sou o Negão que trocou o verão do nordeste pelo inverno de Portugal, o oxe pelo ora pois e a moqueca de peixe com camarão por esse tal de bacalhau. Agora não tem mais moleza, nem o conforto de casa. Nada de roupa, passada e lavada, guardada na gaveta, cama feita ou pia da cozinha vazia. A comida não surge nas panelas, os produtos de limpeza não se esfregam no chão, os sacos de lixo não tomam o elevador, e o cheirinho do banheiro vive vazio.

Bebo todos os dias porque o clima é frio, porque sempre tem promoção, porque tem festa, porque chamam, porque não tenho aula, porque tive aula demais, porque não tem nada pra fazer, mas na maioria das vezes, faça chuva ou faça sol, é tão somente porque eu quero. Basta ser líquido, até o tal do mátê quêntê vendo o pôr do sol no teleférico de Gaia.

Jogo frisbee, ando de caiaque, faço slack, corro, e não paro. Agora falo um pouco de francês aqui, uma pitada de italiano ali e um punhado de alemão, não é suficiente pra conversar com ninguém, mas é, por enquanto, o bastante. Não estudo, mas vivo o Direito nas ruas, no povo e no fundo de um copo de cerveja.

Sou da Bahia, de Cuiabá e do Acre, mas também sou mineiro, gaúcho, paulista e catarinense. É uai! com bah!, bolacha com biscoito, língua queimada pelo mátê quêntê no final da tarde. É o rolê num pico doidimais, e, principalmente, concordar que é tudo um demonho mesmo. É deixar de ser sergipano pra me apresentar como brasileiro, com muito orgulho, com muito amor-ôôôô!

Foi nessa mistura retada da peste, que mudei e fui mudado, que acrescentei e fui acrescido. Não porque o intercâmbio muda todo mundo, mas porque tive coragem de sair da minha zona de conforto.

Agora eu sou o Negão, cheio de paixão, te catá, te catá, te catá.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Apenas mais uma de amor (22) - Chico

A fase de negação começou quando vi aquele ser sentado no colo da minha mãe pela primeira vez, não fazia ideia de quem ou o que era aquilo, mas o odiava com todas as minhas forças. Éramos diferentes, mas compartilhávamos o mesmo sangue, mas nada mudaria isso: estava no meu lugar e tomava a atenção que sempre fora minha. Não aceitava ser trocado, preferia que a minha mãe permanecesse gordinha para sempre. A negação era constante. Não queria acreditar que estava acontecendo justo comigo. Eu queria um cachorro e os meus pais me deram uma irmã. Fui traído por quem mais deveria me amar.

Pouco a pouco me conformei com a ideia de que não daria para me livrar dela e a negação começou a ser substituída pela fase da raiva desmedida que só crescia. Não suportava a sua presença e nós não podíamos dividir o mesmo espaço sem que brigássemos. Eu acordava, dava uma surra nela para ela acordar, ia tomar banho e dava outra surra quando a gente se encontrava no corredor. Depois nós descíamos para tomar café e eu dava outra surra nela porque ela queria comer o mesmo que eu. E assim passava o dia, numa mistura de meninices e surras constantes, até que a minha mãe decidiu que um passava a manhã no andar de baixo e o outro no andar de cima, e pela tarde trocávamos.

Mesmo assim ela era o meu saco de pancada e ninguém além de mim tinha o direito de descer a mão nela. A medida que crescíamos as brigas começaram a se tornar menos frequentes, porém mais intensas. Desloquei o braço dela com um chute e ela amassou a porta com um tijolo que era pra acertar a minha cabeça. A gente ficava semanas sem se falar, uma Guerra Fria em menor escala prestes a estourar. E, para ser sincero, não sei o que mudou e nem quando a raiva virou aceitação. Um belo dia nós simplesmente nos tolerávamos e já nos dávamos bem. Nos tornamos civilizados.

Ainda discutimos bastante, mas porque temos a personalidade forte. Ficamos sem nos falar algumas vezes e foram as semanas mais intermináveis da minha vida. Estamos sempre juntos e agora não vejo mais como irmã mais nova e sim como minha amiga. Depois da fase da aceitação, que 6 anos atrás eu achei que fosse a última, veio a fase do amor porque não importa o quanto ela cresça, será pra sempre o meu macaquinho.


domingo, 29 de junho de 2014

Apenas mais uma de amor (21) - Epifania

Há um momento sutil em que, não importa onde você esteja, todas as engrenagens do universo se encaixam. É único, particular e inesperado. Chega a ser orgasmática a súbita compreensão de todas as perguntas que permeiam o imaginário. De repente, respostas. A sensação de colocar um par de óculos novos pela primeira vez. Tudo entra em foco. Agora corria refazendo o percurso que acabara de fazer, talvez fosse tarde, mas nessa vida até menstruação atrasada é bem vinda.

Encheram suas taças com o néctar mais puro. Deixaram-se levar pelo gosto até se embriagarem. Dançaram inebriados uma melodia singular que ninguém mais escutava. Acreditaram na particularidade de uma balada apenas deles. Perdoaram os tropeções. Ai. Desculpa! Não tem problema -sorriso- agora gira e gira. E lá se ia um passo novo em cima da falha. A prática levaria a perfeição. Perderam-se quando não mais permitiram erros.

Trocaram os ritmos, mas não de parceiros. Soltaram as mãos, mas continuaram a dançar até a alvorada tocar suas faces. Cabisbaixos, cada um para um lado. Perdidos com a infinitude de possibilidades que surgiram. Universos alternativos que se formavam a cado passo que davam. O caminho que se estreitava à medida que se distanciavam. Acelerou.

Há um momento brusco em que o caos esbarra com leis universais e toma forma. É geral, incontrolável e desenfreado. Chega a ser assustadora a torrente de novas perguntas que ficamos submissos. De repente, perguntas. A sensação de que o par de lentes já não é mais suficiente para o novo grau. Tudo sai de cena. Agora caminhava pelo percurso que acabará de fazer, talvez fosse cedo, mas nessa vida até parto prematuro é bem vindo.

Correu porque sabia que a dança tinha conteúdo, caminhou porque sabia que faltava forma.




sábado, 10 de maio de 2014

Mãe

Olhava quietinha ele dormir. Prendia a respiração com medo de acordá-lo, mesmo sabendo que era o mesmo sono pesado do pai. Os pequenos olhinhos fechados tranquilizavam. Custava a sair para trabalhar. O tempo tentaria transformá-lo, levá-lo para longe, pois que tentasse, protegeria o seu bebê. De tudo. As memórias começaram a emergir.

Nasceu mirrado antes do previsto, cabia na mão do pai. Era só pelanca. Tão feinho que mais parecia um ratinho pelado, mas não importava. Lá estava ele, o primogênito. Tinha planos para ele que agora eram frustrados pela quantidade de complicações. Aquele diminuto pedaço de gente dependia de alguém. Nada nesse mundo o tiraria de perto . Nada o machucaria.

Dava-lhe banho com água mineral para que não ficasse doente. O leite de cabra porque não podia com o de vaca. Longe do pai que não tinha juízo e o levava ao curral para ver os bichos. Noites em claro por conta das crises de asma. Ele cresceria forte, tinha essa certeza. Queria vê-lo ir aonde jamais sequer sonhara chegar. Queria vê-lo descobrir a cura para uma doença rara ou levar  paz ao Oriente Médio. O ajudaria no que fosse preciso.

- Que foi, mãe? - a voz embriagada de sono.
- Oh, filho, nada não. - se assustara mais do que deveria.- Já arrumou a mala?
- Depois, depois - já puxando a colcha pra cima e virando para o outro lado. -, num já falei que vou arrumar? Relaxe o bigode que vai dar tudo certo.
- Mas Dieguinho, meu filho, pelo amor de Deus, Dieguinho, ói sei não, viu? - desconversou ainda meio deslocada.- Você que vai viajar mesmo. Sei não, sei não. 

As lembranças tanto cobriram seus olhos que achava que iria ouví-lo acordar chorando. O seu bebê, o bebezinho da mãe, crescera e estava prestes a conquistar o que era seu por direito. Não poderia mais cuidar dele e teria que se conformar. Filho é assim mesmo, a gente cria pro mundo. 

Voltou ao quarto para confirmar e lá estava o sapequinha babando no travesseiro.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

História de Ninguém

Quem sou eu já não importa, nem o quando e nem o onde. O que importa é que não tenho mais identidade. Mera mazela social a ser julgada. Um mito criado ao meu redor. Fui julgado um qualquer, um desajustado, apenas mais um rebelde sem causa.

Sou um número. Apenas uma sequência pela qual todos me reconhecem, exceto eu. Como se não bastasse a minha identidade, tiraram também o meu direito de lutar. Não há direito de resistência. Não posso aceitar. Não, não. Exército parapopular que espera pra ser réu, julgado, culpado. Não, não. Munidos do verbo, apenas. Frágeis problemas.

Filho da Sociedade
(Na verdade criado por Ninguém. Porcos capitalistas.)
E retorna o filho pródigo, mas sua Mãe não o aceita de volta,
(Discórdia)
acha que sou apenas um “Meu Guri” à espera do destino. Um destino comum a todos,
(Mentira.)
a todos os filhos pródigos,
(Desgraçada, pede que volte, mas não aceita.)
(Tolo.)
Destino o qual ela mesma me preparou. Sem direito a mudanças ou escolhas. Apenas esperando meu fim, triste fim.
(Carrasca, amaldiçoo a ti e a teus filhos. Acabarás como o início.)

domingo, 30 de março de 2014

Apenas mais uma de amor (20) - Amor maior

Lembrava da primeira vez que ela lhe chamou de pai. Claro que não era verdade e logo a corrigiram, mas foi o suficiente para desencadear a série de eventos que aconteceram no decorrer dos dois seguintes anos. Talvez as coisas já estivessem determinadas a acontecer, só levariam mais tempo. Tempo que não sabiam que não iriam ter. E que não teria mudado em nada se soubessem.

Não a via sempre, nem mesmo todas as semanas. Mesmo assim, todo dia era melhor que o anterior. Era ela que tudo alegrava quando saía cansado do trabalho para visitá-la. Todos os defeitos que tinha e que não conseguia enxergar coloriam qualquer dia cinza. Suas perguntas sem pé nem cabeça, seu riso fácil e a voz manhosa quando queria alguma coisa. De novo, de novo, e lá se ia mais uma infinitude de vezes da mesma brincadeira. Os braços cada vez mais fortes para aguentar o peso que crescia nas mãos. O peso da diminuta vida pela qual era responsável. A vida que a vida tomaria.

Era questão de tempo e nada mais. Ela tinha pai, vivo e, acima de tudo, saudoso. A notícia de que ele voltaria ao Brasil para levá-la foi recebida com ceticismo. Que besteira, que bobagem, levar a menina só por conta disso. Não dava palpites, apenas balançava a cabeça e concordava. Não tinha o direito de opinar. Nem mesmo acreditava que esse dia chegaria. Mas chegou.

E lá estava ela, mochilinha nas costas, tiara na cabeça. Nada mais de Dora ou de Galinha Pintadinha, muito menos músicas diferentes todos os dias ou brincadeiras repetitivas. Ela estava com o pai verdadeiro, não havia nada mais que pudesse ser feito. Nem ao menos sabia como se sentia. Não havia nada, nem raiva por a levarem, nem alegria por vê-la feliz. Por fim, se foi. Foi se, como houvesse uma passagem de volta esperando por ela. Só havia o pai.

Não era o pai dela, nunca seria. Ela, mais do que ninguém, sabia. Não era o pai dela, mas era como se fosse.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A maior burrice da vida

Estava na dúvida. Ser adolescente era assim e ele sabia, mas precisava ser um curso de cada área? Tinha seus motivos para seguir cada uma delas, alguns deles errados. Era um rebelde sem causa e tinha coisas a provar, principalmente para si. 

Demorou a se inscrever. Usou todo o tempo disponível para pensar. Deixou que a vontade de provar que estavam errados fosse maior, ninguém dizia que ele não era capaz. O gosto pela Matemática ajudou, claro, só não foi o que pesou mais. Clicou. Nada adiantaria naquele momento, o que estava feito, feito estava, seu futuro já estava decidido. Para muitos, não foi surpresa alguma vê-lo prestar vestibular para Engenharia Civil. Meses depois, não foi nenhuma surpresa para ele ver o seu nome na lista dos aprovados. A única surpresa foi não ter trancado o curso ao final do primeiro semestre.

Ele que era aluno exemplar, virara medíocre. Lutava para colar e se manter na média, odiava todos que negavam. Frequentara poucas aulas, mas vivia na faculdade. Pegava cada vez mais créditos e mesmo assim atrasava o curso todo semestre. Deixou a raiva assumir o controle. Ia todos os dias para um lugar que não queria estar, fazer o que não queria fazer, queria sair dali, fugir, ir embora, mas como? Sair dali pra fazer o que? Onde? Cada semestre que passava era um a menos para se formar. Empurrou com a barriga, sempre postergando seu sonho. Estava no oitavo período, não podia jogar tudo pro alto e apenas rezar para que as coisas funcionassem. Começou a comentar aqui e ali que queria largar o curso, recomeçar do zero. Disseram que estaria cometendo a maior burrice da sua vida. 

Fez um acordo que sabia que não cumpriria. Mentiu para si e para quem quer que estivesse disposto a acreditar:

- Mas vai fazer os dois, né? Já tá perto de formar.
- Ah, Claro...

Que não.



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Tatuagem

Veio ao mundo para pagar pelos seus pecados e estava conformada . Poderia ter chamado tudo aquilo que enfrentou de carma, mas seria apenas um eufemismo. Pensara assim quando era mais nova, que a culpa era dela e que deveria sofrer por ser uma filha ruim. Apanhava porque era isso que merecia, todos os dias. Além disso, preferia ser espancada sem motivos a acreditar que a mãe não tinha capacidade ou condições para criá-la. Esse era o inferno dantesco no qual veio nascer. Apenas quando viu a morte beijar a mãe nos lábios pela última vez, venceu seus demônios.

Viu sua mãe se matar aos poucos durante os seis anos que ficaram juntas. Muitas vezes com a sua ajuda. O prêmio de melhor filha do mundo era dela, quando obedecia e saía para comprar droga, mas dormia com manchas pelo corpo quando brincava na rua até mais tarde. Entretanto, mesmo na sua dicotomia, tinham seus caprichos juntas. Mesmo assim, não foi o suficiente. Era muita dor para pouco sorriso, muita regra para pouco exemplo. Quando ela deu o último suspiro, chorou por ter ficado feliz.

Venceu a roda do destino e contrariou Sartre. Rolou para longe da árvore para mostrar ao mundo que é possível ter um começo difícil e ser diferente. É fato que sentia sim a necessidade de ser protegida, mas não queria por compaixão. Não precisou da piedade de ninguém antes e não seria agora que iria implorar por cuidados. Tornou-se tenaz porque a vida assim a fez e ensinou a ser. Venceria o que quer que fosse.

*

Ali sentada, esperava para tatuar na pele aquilo que a vida já tatuara na carne: 

Veni.
Vidi.
Vici.

sábado, 10 de agosto de 2013

Fuga

O pensamento ia longe enquanto olhava a escuridão pela janela do carro. Escutava as vozes chorosas, mas tentava não prestar muita atenção. Não era com elas que deveria estar preocupado. Pensava no que estava esperando quando chegasse em casa. Era o motivo pelo qual elas choravam e não escaparia facilmente. Não dessa. Não daria tempo nem pra dizer que poderia explicar e que estava tudo bem, ele viria implacável para cima. Nunca apanhara, mas sempre há uma primeira vez.

Há muito tempo as coisas já não estavam bem. Tudo ruía ao redor, mas não quis pedir ajuda. Era adolescente, e adolescente tem dessas ideias mesmo de fugir de casa. Todos imaginaram como seria, arquitetaram um plano, mas poucos tiveram a coragem, pra não dizer estupidez, de sair de casa sem rumo ou dinheiro no bolso. Agora que estava ali sentado, alheio às lágrimas que davam lugar aos sorrisos e novamente viravam lágrimas, pensava no tamanho da idiotice que tinha feito. Seria uma surra Homérica, literalmente.

O tempo parecia se esticar à medida que caminhava em direção à porta. Um insight perpassou a mente naquele momento, era assim que se sentia um condenado à morte. A chave girou duas vezes na porta e o coração três no peito. O medo inundou os pulmões de um jeito que não conseguia respirar. Elas abriram a porta, pois não tinha condição psicológica alguma. Lá estava ele, cara fechada e braços cruzados, como sempre. Se não soubesse da situação em que estava metido, aquele poderia ser mais um dia comum. O corpo enrijeceu prevendo a surra que estava prestes a receber e os olhos se fecharam, em parte por pavor, mas também por vergonha. Entretanto, ela nunca veio.

Podia sentir as mãos calejadas pela vida, mas elas não desceram pesadas. Sentia o abismo emocional sendo preenchido, pois ele estava, enfim, perto. O único barulho era do choro sincero que se atropelava com os soluços, como o de uma criança. Pela primeira vez naquela noite, o arrependimento superou todas as outras emoções. Pela primeira vez na minha vida, vi meu pai chorar.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Três anos

Não era para ter acontecido. Todos os momentos que viram o dia nascer e o galo do vizinho cantar deveriam ter sido apenas ilusões. Eram parte de um enorme sonho que vinha em doses homeopáticas. Cada madrugada um pedaço, como em uma novela que deve ser assistida capítulo por capítulo. No meio de todas as tramas, entre tantos personagens e finais possíveis, ninguém podia imaginar. Não era para ter acontecido, mas aconteceu. Estava grato por isso.

Não era para ter se apaixonado. Ela era tudo que não procurava em uma mulher. Tinha suas qualidades, isso era bem verdade, só não as que procurava. Ele era o tipo de homem que ela achava estar vacinada contra. Ele queria ter o mundo inteiro em suas mãos, enquanto ela não queria ninguém aos seus pés. Não tinham as mesmas ideias, não defendiam as mesmas causas e nem tinham os mesmos gostos. Em comum, apenas a certeza de que não queriam se apaixonar um pelo outro. Sabiam que tudo aquilo era efêmero, uma distração no meio do caminho. Desses obstáculos que a vida traz para que a gente não fique entediado. Não era para ter se apaixonado, mas se apaixonou. Também estava grato por isso.

Não era para ter durado. As pessoas não mudam da água pro vinho e por que com eles seria diferente? Eram completamente opostos. Ela a mocinha determinada, ele o anti-herói cafajeste. Brigaram quando ela bateu o pé, faltou pouco para se separarem quando ele quase fraquejou. Fizeram de tudo para viverem o seu felizes para sempre, para descobrir que ele não existe. Pensaram por diversas vezes que estava tudo perdido. Até porque, não era para ter durado e nem durou. Ainda dura.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Chuva

Saiu de casa para espairecer, correr um pouco e esquecer dos problemas. Estava cansado de muita coisa, sentia o peso das decisões nas costas. Um martírio mental diário que já se estendia por semanas. Queria deixar o corpo tomar conhecimento da estafa pela qual sua alma passava. Nos fones de ouvido, deixava tocar apenas aqueles que padeceram dos mesmos sofrimentos. Queria uma mente vazia e um corpo dolorido, umas férias para a cabeça. A segunda música estava prestes a terminar quando sentiu o primeiro pingo lhe tocar a face.

Bastaram as primeiras gotas para seu mundo deixar o modo automático. Agora já sentia o corpo inteiro sendo pinicado pela chuva. A água gelada o despertara do transe de minutos atrás. Enxergava tudo por uma nova ótica. Estava vivo, e sentia isso. Aquele cheirinho de terra molhada o fez lembrar da infância no interior, do falecido pai que brincava com ele nas poças que se formaram. Todos os conselhos que deixara pra ele, tudo agora fazia mais sentido. Os amigos que estavam sempre por perto, o apoio que deram para ele seguir. A chuva que só aumentava parecia dar mais vida aos seus pensamentos. As preocupações que vinham guardadas a sete chaves, de uma por uma foram lavadas e levadas embora.

Eram momentos como esse que o faziam acreditar em Deus. Tudo que o afligia começou a se resolver quase que por mágica. Não conseguiria explicar como escolhera um rumo. Vai ver é esse poder misterioso que a chuva tem de transformar um ser humano num filósofo. Uma capacidade de amplificar os sentimentos. Com ela os pensamentos se tornam mais profundos, dramáticos, e as alegrias se externalizam. Ela que é a chave que destranca a janela da memória. Parou de correr. A janela de casa. Botou a mão na cintura e deu aquela gargalhada de desespero. Esquecera tudo aberto no apartamento. Resolveu um problema e ganhou outro. Mas quem disse que a vida é feita só de solução?

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Apenas mais uma de amor - Sacrifício (18)

Não sabia o que esperar daquela conversa. Recebera a mensagem mais cedo: "precisamos conversar" e nada mais. Há tempos já desconfiava que havia algo de errado com o filho. Ele estava mudando, mas achou que fosse apenas uma fase, coisa que o jovem atual precisa passar pra construir caráter. Entretanto, o que deveria ser chuva passageira permaneceu. Se tivesse tomado as rédeas antes, talvez tivesse evitado chegar nesse ponto. Começava a se preparar para o pior e nada do menino chegar.

Era rigoroso, ele mesmo produto de um regime espartano. Fora moldado pelo pai, até porque, naquela época, não tinha dessas de escolher o que queria ser, muito menos essas firulas de sonhar. Não se tinha desse luxo de fazer o que se gostava, de ser livre para ser do jeito que se era. E foi mais ou menos assim que educou seus filhos. Cada um escolheu uma profissão pra seguir, mas dentro de sua casa eram suas regras. Nada dessas viadagens de tatuagem, cabelo diferente ou piercing, que deixassem essas frescuras pra quando pudessem se sustentar. Amava os filhos, mas isso era pedir demais. Arrancaria o couro dele para servir de exemplo se preciso fosse. Teve seus pensamentos interrompidos pelo filho. Cheguei.

- Filho, nem percebi que você estava por aqui já. - tentou disfarçar enquanto se recompunha.
- Tem algo que preciso dizer e que sei que você não vai gostar muito, mas não dá mais pra viver dessa forma. Você vai ter que aprender a me respeitar do jeito que eu sou. - a casa era dele, ele que sustentava tudo, e ainda teria que engolira vontade dos outros? - Eu sou gay e estou namorando há quatro meses com o filho do seu chefe.

Em todos os seus anos de vida, nunca vira o pai vermelho daquele jeito. A mãe, a primeira a ficar sabendo, foi quem interviu afim de não deixar as coisas chegarem às vias de fato. O pai esbravejou, xingou tudo o que sabia  e mais um pouco. Por que com ele, Deus? Porque não qualquer outro pai naquela cidade? A culpa era da mulher que passava a mão demais na cabeça das crianças. Saiu deixando aquele complô na sala, sem falar nada, e assim permaneceu por quase uma semana.

Não falou com ninguém dentro de casa. Nem na cama, junto da mulher, dormiu. No sexto dia, foi atrás do filho na cozinha porque sabia que não tinha ninguém em casa. Só falaria tudo que estava guardado apenas uma vez, aquela palhaçada tinha que acabar.

- Presta atenção que não vou repetir. Se não quiser concordar, pode se preparar pra arrumar suas malas. Entendido? - o medo era tanto que a única coisa que conseguiu foi balançar a cabeça. - No último Natal, seu irmão trouxe a namorada nova pra gente conhecer, na última Páscoa, sua irmã trouxe o namorado pra celebrar com a gente. Se você um dia sonhar em trazer esse rapaz aqui, ficaremos muito felizes em recebê-lo. - as lágrimas de ambos agora escorrendo.- Antes de ser qualquer outra coisa, você é meu filho, e isso já é razão suficiente para te amar para sempre.

domingo, 10 de março de 2013

Retorno

Tanto tempo se passara desde aquele dia em que a deixara sentada na cama chorando, que não sabia nem se ainda estaria lá. Acreditava que já teria trocado a fechadura, mas sentiu a chave girar na primeira tentativa. Hesitou. Ficou ali parado por alguns instantes. Não sabia como entrar ou como seria recebido. Deveria ter pensado bastante no que diria, escolher as palavras certas, talvez até levar um presente. Agora estava ali parado e não conseguia nem decidir se girava a maçaneta ou a chave. Provavelmente seria a última chance que teria para voltar para casa. Só não estava completamente certo de que era isso que queria fazer.

Desde que saíra de casa para encontrar o rumo que sua vida outrora perdera, fez promessas vazias de que logo voltaria, mesmo sabendo o quão difícil seria voltar após dar o primeiro passo para o desconhecido. A verdade era que gostava do conforto que elas traziam. Cada passo dado significa um passo mais distante dela, um abismo que talvez jamais pudesse ser fechado. Ao menos era assim que pensava, não imaginava que nunca havia sido abandonado por ela. 

Tanta coisa para dizer, coisas que apenas ela entenderia, e mesmo assim, não conseguia se mover. Imaginava a reação dela ao ver o quanto ele havia mudado nesse tempo, o quanto ele amadurecera. Não sabia se ela o aceitaria, mesmo implorando. Deus! Talvez ela nem o reconhecesse mais! Teve seus devaneios interrompidos pelo clique da porta:

- Não vai entrar? -simples, direto e sorridente.
- É...é...équetantacoisaaconteceue...
- Eu sei. Por que você não entra e a gente toma uma taça de vinho enquanto você me conta tudo que aconteceu? -como vivera sem ela todo esse tempo?-. Entra, estava te esperando.

*
Como é bom entrar em casa e perceber que nada mudou. Todas as minhas ideias ainda no mesmo lugar, protegidas da ação do tempo e do envelhecimento. Sei que muitas foram as vezes que prometi voltar a escrever e deixei a ideia morrer no pensamento. Que dessa vez não hajam promessas, apenas a certeza de que preciso escrever para me sentir vivo, tanto quanto as minhas crônicas precisam de mim para viver.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cupcakes imaginários

Toda vez que vou visitar minha sobrinha ela me chama pra brincar de fazer bolo, mas não é só porque ela é menina que gosta de brincar disso. Minha irmã mais velha, também tia dela, faz cupcakes e ela deve ter se interessado enquanto observava. Não importa o lugar ou a hora, ela sempre faz bolinhos imaginários pra todo mundo, inclusive pra "papi" que está do outro lado do mundo. Apesar de não se importar com o lugar, quando vou visitá-la na escola, ela sempre corre pra casinha que tem um fogãozinho. Hoje não foi muito diferente.

Não a via há quase duas semanas. Estava ansioso pra ver o quanto ela havia crescido e se desenvolvido. Além de ter crescido uns vinte centímetros, agora está mais comunicativa. Porém, assim que me viu, fez o que sempre faz quando vou na escolinha: correu com um sorriso enorme no rosto, me deu um abraço, segurou minha mão e disse que queria "brincar de bolo". Como não resisto aos pedidos dela, deixei que me guiasse até a casinha. Lá, mandou que eu esperasse sentado do lado de fora, entrou e sentou no banquinho perto do fogão.

- Lin, vai fazer bolo pra quem hoje?
- Pra tio Diegooo!
- Então faça que eu vou esperar aqui.

Ela mexeu nas panelas por alguns instantes e estendeu o braço na minha direção com a mão fechada quando terminou.

- Aqui!
- Bote na minha mão preu comer, amor.
- Não. - respondeu puxando a mão para perto do corpo.
- Não? Mas o bolo não era pra tio Diego?
- É.
- Então por que você não quer me dar?
- O dinheiro, tio Diego.

E a espertinha tem só dois anos. Ainda bem que ela também aceita dinheiro imaginário como pagamento.

sábado, 28 de abril de 2012

Conversávamos há algumas horas quando, não me lembro bem como, o assunto enveredou pelo caminho religioso. Apesar de acreditar que política, religião e Hitler, não se discutem, tenho imenso prazer em debater qualquer um dos três assuntos com pessoas que estejam dispostas a criticar e ter suas ideias criticadas. A conversa rendeu por um bom tempo. Relatos esotéricos misturavam-se com piadas e histórias engraçadas. Enquanto os outros dialogavam entre si, a Bruna virou-se para mim e disse que tinha uma pergunta a fazer:

- Bem, você conversa com Deus?

Simples e direto. Não queria responder, mas não tinha pra onde fugir.

- Claro que converso, amor.
- Quando acorda e quando vai dormir?
- Também, só que é mais quando to no bar bebendo. Sempre puxo uma cadeira pra Ele sentar e a gente trocar umas ideias.
- Ave Maria, eu aqui falando sério com você e você vem com essas brincadeiras bestas.

Mulheres, bah. Sempre fazendo perguntas com respostas que não querem ouvir.

- Eu to falando sério, você que acha que to de sacanagem.
- Ô, bem, eu só te fiz uma pergunta. Se não queria responder, também não precisava falar assim.
- Mas é sério! Quem você acha que me traz pra casa são e salvo todas as vezes que eu bebo?

Ponto para mim. Fé é que nem inteligência: cada um tem a sua e muita gente não tem nenhuma. Ela se manifesta de maneira diferente em cada indivíduo. Se Deus é onipresente, por que eu deveria ir à igreja conversar com Ele?

Alguns minutos depois, disse que achara bonito o que eu havia dito. É, a fé se manifesta de maneiras imprevisíveis.




domingo, 30 de outubro de 2011

Engenharia como nunca civil (4)

Quando resolvi fazer engenharia civil, saí perguntando às pessoas que conhecia como era o curso. Foram só elogios. Curso bom, momento de crescimento e ótimos salários. Não pensei duas vezes e prestei vestibular pra me tornar engenheiro. Depois que entrei foi que vi a furada que eu tinha entrado. Tudo o que me falaram é realmente verdade, mas até chegar no lugar que você quer, você sofre e sofre muito:


Antes eu tivesse visto esse vídeo mais cedo.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Apenas mais uma de amor (12)

Se fôssemos perguntar de porta em porta qual a coisa mais importante para um relacionamento, tenho certeza que a resposta mais escutada seria amor. Filmes, novelas, livros, em todos os lugares em que há romance, o amor nunca é esquecido. Seu espaço estará sempre guardado nos discursos de casamento e nas cartas dos enamorados. Sem ele, casais não se uniriam para formar uma família. É bem verdade que ele é um sentimento poderoso e universal, mas existe um que é mais forte e mais importante. Um que depende mais da pessoa que está com você, do que de você: a admiração.

O mundo está cheio de amores mal resolvidos. Casais que se separam, mas que ainda se amam. Por mais forte que esse amor ainda seja, eles não voltam atrás porque não sentem mais admiração um pelo outro. Ao contrário do amor, que demora pra nascer, porém demora a ser esquecido, a admiração surge tão rápida quanto desaparece. Sem ela, some a vontade de continuar lutando para que tudo que existe naquele relacionamento continue existindo. O problema é que isso não depende de você.

É possível amar uma pessoa sem que ela te dê motivos. O jeito dela, as qualidades, defeitos, características, personalidade, podem te atrair mesmo que essa pessoa não tenha essa intenção. Depende de você, vê-la ou não com outros olhos. Mas admirar é diferente, você precisa que ela faça alguma coisa, por menor que seja, para que algo dentro de você acorde, porém, basta ela fazer o oposto para que o sentimento volte a dormir dentro de você.

São promessas quebradas, atitudes contraditórias, traições descobertas e datas esquecidas. Tudo isso pode causar feridas que são saradas pelo amor, mas uma vez que fica uma cicatriz no lugar, as coisas podem nunca mais voltar a ser como eram. E aí, não existe amor no mundo que mantenha esse casal unido.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Engenharia como nunca civil (2)

Existem matérias em todos os cursos que os alunos, às vezes os próprios professores, não entendem bem a função delas na formação ou a razão para serem do jeito que são. Por exemplo, para vários engenharias, cálculo 1, 2 e 3 poderia ser uma única matéria: cálculo de áreas e volumes. As várias físicas e os seus laboratórios poderiam ter exemplos práticos para um engenheiro civil, e assim por diante. Enfim, são coisas que não serão alteradas somente porque desejo que o curso seja mais fácil. Porém, existem quatro matérias que realmente não entendo o funcionamento: expressão gráfica 1, desenho geométrico, expressão gráfica 2 e desenho arquitetônico.

Para as duas primeiras, tive que comprar a mais variada gama de materiais de desenho. Sempre vestindo a camisa do meu curso pra atendente não achar que eu fazia arquitetura. Aprendi a representar pontos, retas e planos em uma e a como desenhar sem a ajuda dos instrumentos na outra. Isso mesmo, você leu certo. Comprei todas aquelas tranqueiras para logo depois aprender a como me virar sem elas. Sem falar que ninguém representa ponto por ponto em um desenho e muito menos precisa saber qual é o tipo de reta que tá colocando na planta. No dia em que pararem de fabricar transferidores, compasso e escalímetro, e os clientes começarem a exigir números mínimos de retas oblíquas nos projetos das suas casas, elas serão úteis.

Como nem tudo no curso não tem sentido, eis que surgiu expressão gráfica 2 para colocar um pouco de senso nas matérias de desenho. Existe um programa, o qual só descobri na faculdade, que faz todo o desenho para você, contanto que você saiba manuseá-lo. Você não precisa daquela tralha em cima da mesa, nem se preocupar em borrar a folha, nem com a precisão do projeto, apenas em ter o programa no computador e saber utilizá-lo. Para mim, foi uma das maiores invenções do século. Uma verdadeira evolução. Aí veio desenho arquitetônico e ferrou tudo isso.

A gente aprende a desenhar de forma mais eficaz e mais eficiente para logo em seguida voltarmos a pré-história. Arquitetônico é igual a expressão 2, mas com lápis, papel e borracha. O motivo pra isso é: "Como você vai desenhar se não tiver um computador?". Essa é a pior desculpa possível. Talvez em 1990 ela fizesse sentido, mas agora não. Desenhar na mão um projeto, consome muito tempo. Tempo esse suficiente para arranjar um notebook e instalar o programa. Mas não, o professor tinha que ser arquiteto e inventar moda. Agora fico eu desenhando no feriado uma coisa que já poderia ter acabado no começo do semestre. Só engenheiro sabe a dor de cabeça que um arquiteto causa.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Tempos de escola - Bullying

Na quarta série, hoje quinto ano, eu era um menino franzino e magrinho, assim como boa parte dos meus colegas. Entretanto, alguma coisa saiu muito errada no final daquele ano que eu voltei para a quinta série mais cheinho e com as bochechas mais arredondadas. Assim fiquei até a oitava série, quando comecei a gostar de uma colega e emagreci por vaidade.

Naquela época, primos, amigos e até mesmo o meu pai, me sacaneavam quando tinham a oportunidade. Nunca cheguei a ser obeso e nem fiquei muito acima do meu peso, mas isso não importava muito. Pros meus amigos eu estava em fase de crescimento lateral, para as minhas tias eu estava fofinho e, pro meu pai, gordo só prestava boi e vaca. Assim como eu, vários outros passavam pela mesma coisa diariamente. Ninguém nunca foi agredido fisicamente por ser diferente e, até onde eu saiba, ninguém teve danos psicológicos. Pelo contrário, de tanto me encherem o saco, emagreci e emagreci até mais do que o necessário, mas coisas mudaram e até a brincadeira mudou de nome. Virou até crime.

Não acredito que as coisas tenham mudado muito desde o meu tempo. Meu irmão mais novo passa pelo mesmo que passei e com um bônus: eu. Ao invés de ficar trancado dentro do quarto chorando deprimido e escutando restart enquanto pensa em matar metade da família, ele vai pra escola e se diverte como toda criança normal. O problema não está nas relações entre as crianças, mas nas relações entre pais e filhos:



Pais superprotetores estão arruinando geração atrás de geração. Eles tomam as dores do filhos e controlam tudo que eles fazem. Se a criança briga com um amigo, a amizade tá proibida. Se botarem apelido nela, tem que contar pra "tia". Será que não percebem que isso só piora? Eles sempre se resolvem entre eles, e, se não se resolverem, aí sim deve ser procurada a ajuda de um adulto. Tanto se entendem que, na primeira série, briguei com um colega que hoje é como um irmão pra mim. Foi o meu pai que me ensinou as duas regras básicas de sobrevivência que me levaram, sem traumas, até a sexta série:
  • Nunca arrume confusão.
  • Nunca volte apanhado pra casa.
Era olho por olho e dente por dente, mas pelo menos a gente brincava em paz.