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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Medo

O homem de bermuda se arrastava pelas ruas do Porto e o medo ia atrás. Seguia alheio ao frio, flanqueado por crentes e descrentes, como um prisioneiro no corredor da morte. Não sabia se apressava o passo e acabava com aquilo ou se retardava a marcha para dilatar o inevitável.

Olhou para trás a tempo de ver o medo correndo em sua direção, mas não permitiria ser alcançado. Mente e corpo inebriados com a sensação de poder, nada tomaria aquele momento das suas mãos. Era o Alfa e o Ômega. Senhor de si.

Imaginou quantos haviam percorrido aquele mesmo caminho e sentido aquele êxtase, para, então, emergirem vitoriosos. Tum tum. Despiu-se de toda a vaidade que vestia. Tum tum. Lembrou de tudo que enfrentara nos últimos seis meses e que o levaram até ali. Tum tum. Pensou na família que estava em contagem regressiva para a sua volta. Tum tum, tum tum. Calculou rapidamente quantos metros o separavam da água e chutou quantos mais o separariam do fundo. Tum tum, tum tum. Sentiu o vento frio tentando desviar a sua atenção enquanto o medo se apoderava do seu corpo. TUM TUM TUM TUM.

Esqueceu o motivo de estar ali. Tinha medo de altura, de morrer, de ir sem dizer adeus, de deixar a família triste, de não deixar herdeiros ou um legado. Fazia graça para esconder o desespero. Queria desistir, mas o corpo continuava. Cruzou a grade da ponte e sabia que não poderia retornar. Desistiu de resistir.

Olhou para baixo e experimentou o sabor de adrenalina do medo. Ainda assim, sentiu se mais corajoso do que nunca. Um. Continuaria vivo para rever todos. Dois. Se formaria para mudar o mundo. Três. Dominar para não ser dominado. Fodeu, puta que pariu.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

10 maneiras de tomar (ou não) uma advertência

1º Ria. Não importa se você ri alto ou baixo, estrondosamente ou delicadamente. Rir tira a concentração de qualquer um. Durante a bronca, ria ironicamente pelo canto da boa, isso garantirá um passe livre.

2º Passeie. A sala nunca é grande ou pequena o bastante para você circular. O importante é não ficar parado. Passeie dentro da sala que certamente você expandirá seus horizontes.

3º Relembre. Seus tempos de criança te ajudarão nessa árdua batalha. Acorde o demônio adormecido nos confins do seu âmago. Invente as mais variadas brincadeiras. Use a imaginação. Vença e comemore sua vitória em casa.

4º Mate. Pernilongos, formigas e outros insetos não fazem parte do ambiente. Aproveite os momentos de silêncio para caçá-los. Mate quantos forem precisos. Quanto mais você matar, mais pontos serão acumulados. Dez pontos são suficientes para você ganhar seu bônus e passar de fase em sua caçada.

5º Discuta. Mesmo estando errado você deve se achar certo. Confronte tudo e todos. Repita o primeiro item enquanto discute que certamente sua discussão chegará a algum lugar.

6º Dispute. Converse o mais alto que puder, dispute voz com quem for preciso para alcançar a hegemonia do espaço sonoro, mas não espere que a sua palavra seja a final.

7º Aproveite. Qualquer discussão serve de faísca para que o circo pegue fogo. Certifique-se de manter  a vantagem durante toda a briga e que alguém esteja olhando. Mantenha a calma, brigue o suficiente para uma advertência, mas nunca o bastante para uma suspensão.

8º Transforme. A sala é o limite. Transforme-a. Ela pode virar um campo de futebol, uma quadra de vôlei ou uma trincheira, mas não se preocupe com as regras. Sempre haverá um juiz com um cartão vermelho esperando.

9º Forme. Um grupo de pagode nunca é demais. Junte canetas, os cadernos, batucar na mesa também vale. Crie um refrão animado e repita-o durante toda a música. Talvez você fique famoso e seja convidado a tocar na coordenação.

10º Dance. Enquanto realizam o nono item, levante-se e remexa. Não precisa ficar acanhado. Dance do jeito que achar o mais engraçado. Certifique-se de que a maioria esteja realizando o primeiro item. Se isso acontecer, se prepare para realizar o quinto item. Seu talento também será reconhecido e você também será convidado a dançar para pessoas mais importantes.


Se depois de tudo isso, você ainda assim permanecer na sala, sem sombra de dúvida, você é o filho da diretora.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A maior burrice da vida

Estava na dúvida. Ser adolescente era assim e ele sabia, mas precisava ser um curso de cada área? Tinha seus motivos para seguir cada uma delas, alguns deles errados. Era um rebelde sem causa e tinha coisas a provar, principalmente para si. 

Demorou a se inscrever. Usou todo o tempo disponível para pensar. Deixou que a vontade de provar que estavam errados fosse maior, ninguém dizia que ele não era capaz. O gosto pela Matemática ajudou, claro, só não foi o que pesou mais. Clicou. Nada adiantaria naquele momento, o que estava feito, feito estava, seu futuro já estava decidido. Para muitos, não foi surpresa alguma vê-lo prestar vestibular para Engenharia Civil. Meses depois, não foi nenhuma surpresa para ele ver o seu nome na lista dos aprovados. A única surpresa foi não ter trancado o curso ao final do primeiro semestre.

Ele que era aluno exemplar, virara medíocre. Lutava para colar e se manter na média, odiava todos que negavam. Frequentara poucas aulas, mas vivia na faculdade. Pegava cada vez mais créditos e mesmo assim atrasava o curso todo semestre. Deixou a raiva assumir o controle. Ia todos os dias para um lugar que não queria estar, fazer o que não queria fazer, queria sair dali, fugir, ir embora, mas como? Sair dali pra fazer o que? Onde? Cada semestre que passava era um a menos para se formar. Empurrou com a barriga, sempre postergando seu sonho. Estava no oitavo período, não podia jogar tudo pro alto e apenas rezar para que as coisas funcionassem. Começou a comentar aqui e ali que queria largar o curso, recomeçar do zero. Disseram que estaria cometendo a maior burrice da sua vida. 

Fez um acordo que sabia que não cumpriria. Mentiu para si e para quem quer que estivesse disposto a acreditar:

- Mas vai fazer os dois, né? Já tá perto de formar.
- Ah, Claro...

Que não.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sete pecados - Avareza

Saiu da faculdade com fome. A última refeição havia sido ao meio-dia e já eram dez da noite. Já tinha ido trabalhar, cansaço, ainda teve que correr para chegar à tempo de apresentar um trabalho, mais cansaço. Vida de merda. Cada vez menos tempo, mais trabalho, e a fome que não parava de crescer. Sabia que não deveria reclamar, mas faz parte da natureza humana. Sempre tem algo faltando, que poderia mudar ou melhorar. Buscamos preencher essa sensação de vazio de toda maneira, talvez reclamar seja uma delas. Ou isso, ou apenas fome mesmo. Resolveu comer um sanduíche antes de ir para casa, um vazio a menos na sua vida.

A primeira atendente foi logo dizendo que não tinha pão de três queijos. Esse era o sinal para que fosse embora, mas a fome era grande. Ficou. Parmesão e orégano no lugar dos três queijos, carne e queijo prato de recheio. Esquenta? Sim, quem é que come sanduíche frio? A segunda atendente alertou sobre a falta de cebola. É, tomate tinha, mas a cebola que tanto gostava estava em falta, bem como a maionese e o cookie tradicional. Teve que se contentar com o que tinha. Vida de merda. Onde estão os direitos humanos na hora que mais precisamos deles? Todo ser humano deve ter direito a um sanduíche digno do seu paladar após um dia cansativo, mas a fome falou mais alto.

Ao sair, escutou uma voz desconhecida e cansada pedir por um trocado. Mal fez questão de olhar. A voz continuou acompanhando-o até o carro. Qualquer ajuda servia, pelo amor de Deus. Não estava ali porque queria, era professor de inglês com quarenta e cinco anos de estudo. Se a situação fosse outra, se o local fosse outro, se a pessoa fosse outra e se ele mesmo não fosse professor de inglês, talvez aquela voz o tivesse convencido. É certo que professor não ganha muito, mas daí a ser morador de rua já é uma outra história. Abriu o carro sem nem ao menos olhar para o ser humano ao seu lado. Não era seu problema, a culpa era do Estado que deixou aquele indivíduo nas condições que se encontrava. A vida é uma merda, mas cada um cuida da sua. Foi quando a voz desistiu que tudo mudou. Com um sotaque de fazer inveja a muito americano, agradeceu pela atenção e disse para dirigir com cuidado. Virou para olhar o homem que estava ao seu lado.

Ali estava a figura de um homem franzino, de pele castigada e voz rouca de locutor de rádio. Sentiu pena, queria ajudá-lo. Por sorte, ele carregava consigo uma quantidade boa de currículos. Foram até a porta da lanchonete pegar um e, lá mesmo, conversaram sobre as desventuras que o levaram até ali. A ida aos Estados Unidos ainda jovem, a família que se desfez, a família que fez por lá, a separação dos pais, o câncer do pai, a vinda para o Brasil, o trabalho num navio, as amizades e os cursos que fez, a mulher que amou e a que o traiu, o azar de ter o seu mundo tomado das suas mãos. Vida de merda, mas não mais a sua, a daquela pessoa à sua frente. O que era comer um sanduíche diferente comparado a não ter o que comer? Ter pouco tempo e muito trabalho com muito tempo e nenhum trabalho? Os seus problemas com os problemas dele? Deixou o dinheiro que tinha trocado, era pouco, porém um começo. Um começo que aquele exemplo de vida não queria aceitar, preferia que ele apenas entregasse o seu currículo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Teste de nivelamento

Estávamos todos reunidos na casa dos meus avós. Meu tio que mora em Salvador estava aqui também, o que implica alguma data comemorativa, só não recordo qual. Esperávamos esse mesmo tio voltar do aeroporto com o filho para que pudéssemos começar a almoçar. Assim que ele chegou, nos espalhamos pela mesa, móveis e sofá para comer. Quem almoça em casa de vó no final de semana sabe bem como é: nunca falta comida, mas só os mais velhos e os mais rápidos têm bons lugares para comer.

O meu primo estava, depois de um ano, voltando do seu intercâmbio no Canadá. Como ele não mora aqui, não temos muito contato, mas uma viagem dessas não se guarda para si, então, eu e Augusto sentamos à mesa para escutar as histórias que Breno tinha para contar. No meio da conversa, fomos interrompidos pelo meu avô que já chegou abrindo espaço para sentar entre os outros dois:

- Dê uma licencinha aqui, meu filho, pro seu avô sentar - disse ajeitando a cadeira de forma que os dois pudessem se olhar com ele no meio-, quer dizer que você agora sabe falar o inglês?
- É, vô, deu pra aprender algumas coisas - disse Breno já meio sem jeito-, mas ainda tem muita coisa pra aprender.
- Sei, sei...Augusto tá fazendo um cursinho aqui, quero ver você falando aqui com ele pra gente ver se tá valendo à pena.

Os dois ficaram ali, parados, apenas olhando do outro para o meu avô, ambos achando que era tudo parte de alguma brincadeira dele. Até que perceberam que o coroa estava falando sério. Ainda encabulados, engataram uma conversa sem muitos rodeios, respostas simples e diretas. O velho Eurípedes acompanhava a conversa com o olhar e os braços cruzados. E ali do lado só rindo, admirado que o meu avô conseguia acompanhar tudo. Queria saber se os dois estavam mesmo dominando o idioma. Quando viu que os dois já estavam diminuindo o ritmo da conversa, interrompeu novamente:

- Pronto, tá bom. E aí Breno, seu primo tá sabendo falar direitinho?
- É, só tá precisando melhorar algumas coisas, mas fora isso tá tudo certinho.
- E você, Augusto, me diga aí o que foi que você entendeu da conversa com seu primo.
- Rapaz...ele tava me contando como eram algumas coisas lá no Canadá e me falando um pouco da viagem.
- Foi mesmo? Certeza? Eu escutei ele falando mais um monte de coisa...
- Resumindo foi isso, mas o senhor entendeu a conversa pra tá sabendo que faltou algo, foi?
- Meu filho, e eu lá entendo porra nenhuma dessas coisas. Vocês falaram um monte de coisa aí e depois você veio querendo me enrolar com uma resposta sapecada.

E foi assim que eu descobri que o meu avô não entendia nada da língua inglesa, mas que tinha experiência de sobra pra saber que estava sendo enrolado. Os três ali tinham uma boa fluência, mas ele era o verdadeiro mestre.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Vestibular

O ensino médio finalmente chegou ao fim. Algumas turmas resolvem fazer festa e outras resolvem viajar, mas o que importa mesmo é que estão todos reunidos e felizes. É hora de lembrar tudo o que aconteceu durante o ano com os amigos e dar em cima da pessoa que você passou o ano inteiro gostando sem contar pra ninguém. Esse final de semana marcará a sua vida e será lembrado no futuro como "um dos melhores momentos da minha vida". Só há um porém: se você está curtindo a sua festa ou a sua viagem, isso significa que o seu vestibular já está chegando. Então você deixa tudo de lado e mete a cara nos livros.

Final do ensino médio, muita gente enlouquece. Seus amigos não vão ter mais tempo pra você e quando tiverem você não terá pra eles. Tudo graças a uma prova que resume três anos da sua vida em um dia. O nervosismo, a pressão e o desespero se misturam e você fica com aquela sensação de que não estudou o suficiente para ser aprovado. Seus pais vão fazer de tudo pra que você relaxe, mas dificilmente algo surtirá efeito, seu emocional já está tão instável quanto um átomo de urânio. Entretanto, enquanto pais normais tentam impedir que toda essa ansiedade tome conta, a minha mãe queria que eu me estressasse.

Várias vezes tentaram fazer com que eu me importasse com o vestibular, mas nunca deu certo. Já estava decidido a ser indiferente à todo esse inferno. Só teve uma coisa, nesse período, com a qual me estressei e ela foi a minha mãe. Todos os dias ela me consumia a paciência falando do filho de Fulano que estava estudando pra passar em medicina ou da filha de Sicrano que abriu mão das saídas nos finais de semana pra passar em direito. Ela reclamava que não me via estudando, mesmo as minhas notas na escola sendo boas. O que ela queria mesmo era me ver sentado com os livros abertos pra ficar feliz. Aguentei isso por bastante tempo até que:


E nunca mais ela tocou no assunto.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Tempos de escola - Coordenação

Durante toda a minha vida escolar, aproveitei bastante o dinheiro dos meus pais. Utilizei todos os serviços que a escola poderia me oferecer, dentro e fora do horário de funcionamento. Da sala de aula à enfermaria, que na época era apenas uma caixa enorme com uma tesoura e um punhado de gases, passando pela quadra, piscina, sala de informática (vulga lan house), sala de artes, biblioteca, secretaria, coordenação e diretoria, com ênfase nesses dois últimos.

A profissão de coordenador é a de engenheiro e a de mestre-de-obras da área de humanas. É ele que tem que interagir com os alunos e resolver os problemas deles. Como se não bastasse o fato de não se ter reconhecimento, estudante não é raça que preste. Faz amizade, mas na hora de fazer besteira não lembra que além de amigo, existe ali um profissional ao qual ele deve ser submisso. Bati muita boca com as coordenadoras até o ensino médio, às vezes com razão e às vezes sem, mas tudo isso acabou no 2º ano com a chegada de Lívia.

Ela é do tipo de pessoa que tenta ser amiguinha de todo mundo distribuindo sorrisos, mas que pelas costas só te passa rasteira. Era uma agente infiltrada pra acabar com a nossa alegria. Todos os dias ela ficava na portaria dando bom dia para os alunos, fato que sempre me fez crer que a tinham contrado para a função errada. Por educação, a gente respondia pra que ela se sentisse útil ali. Entretanto, as pessoas não têm a mesma paciência. Algumas têm mais, outras menos e outras simplesmente não têm. Esse último caso era o do Alexandre.

Todos os dias ela o cumprimentava assim que ele chegava e duas coisas aconteciam, ou ele passava direto ou dava uma resposta nela. Era sempre a mesma coisa:

- Bom dia, Alexandre!
- Só se for pra você.

O pior é que ela não desistia ou reclamava, mas, um dia, a paciência dela se esgotou com ele:

- Bom dia, Alexandre...Alexandre, eu disse bom dia, deixe de ser mal-educado e responda.
- Minha amiga, mal-educado eu vou ser no dia que te responder.

Sabem aquele ditado que diz que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura? Foi desse dia em diante que eu percebi que existem pedras que é melhor você deixar virgem.

sábado, 30 de julho de 2011

Dia dos namorados

Mês passado foi dia dos namorados e nada de diferente apareceu aqui no blog, mas algo inusitado ocorreu no dia. Algo um tanto vergonhoso para mim, divertido para as crianças, diferente para os que ali estavam e especial para a minha namorada. Produziu efeitos diferentes em cada um dos que, de alguma forma, acabaram se envolvendo e, com toda certeza, ficará marcado na memória de muita gente.

Meu presente do dia dos namorados poderia ser considerado normal se fosse dado por outra pessoa, mas não por mim. Pela primeira vez, depois de vários namoros, iria dar e usar um anel de compromisso. Como esse seria um momento histórico na minha vida, resolvi que não deveria simplesmente me ajoelhar ou entregar assim, sem mais nem menos. Bolei todo um plano, liguei para várias pessoas e procurei muitas lojas. Tudo em segredo, sem deixar pistas. Estava tudo planejado e quase tudo pronto quando recebi uma notícia que mudaria muita coisa.

O aniversário do primo dela ia ser no domingo, dia dos namorados. Lá eu iria fazer uma surpresa para ela, mas o aniversário foi adiado porque disseram que comemorar antes dava azar. Azar pra mim,né?! Na mesma hora, bolei um outro plano que, no começo, pareceu impossível. A autorização que precisava do shopping me foi negada, regras da empresa. Para a minha sorte, Aracaju é uma cidade relativamente pequena e funciona na base do cqc: conhecer quem conheça. Com apenas uma ligação, superei o último obstáculo. Agora era só correr pro abraço. Literalmente.

Quem passou pela praça de alimentação nova do Shopping Jardins no dia 12/06/2011 deu de cara com uma pessoa fantasiada de coelho. Esse coelho era eu. É, coelho. Nada a ver com o dia dos namorados, mas era isso, a Hello Kity ou a Moranguinho. Fiquei na frente da lojinha de balas, assim, pensariam que eu trabalhava lá. Durante duas horas, fiquei dentro de uma fantasia que mais parecia uma estufa. Dancei e brinquei com quem passava, coloquei crianças no colo e tirei fotos, distribuí beijos e abraços, minha namorada passou por mim duas vezes e não me reconheceu. Me diverti e aproveitei todo o conforto que o anonimato me proporcionava.

Foi quando vi minha namorada e os meus cúmplices sentados, que peguei o bouquê que estava escondido e a caixa do anel e fui pulando e dançando até onde eles estavam, me ajoelhei, tirei a cabeça da fantasia e entreguei os presentes. Enquanto a praça de alimentação inteira batia palmas, filmava e tirava fotos, e ela resolvia se sorria ou chorava, perguntei se estava disposta a me aturar pro resto da vida. E não é que ela aceitou?

Algumas pessoas vieram nos dar parabéns e nos desejar felicidade, uma mulher me perguntou se "o coelhinho não tinha rabinho por que já tinham comido", uma adolescente bateu no namorado por não ter recebido o mesmo presente, as crianças não queriam mais saber de mim e a minha namorada queria me agarrar e não soltar nunca mais. Depois de tudo o que passei, ali sentado, olhando todas aquelas pessoas, todos aqueles casais, imaginei todas as histórias que ali se encontravam e depois em todas as histórias que se espalhavam pelo planeta naquele momento. Concluí que boa parte delas não seria contada no ano que vem pelos mais variados motivos. Desejei que a minha não fosse uma delas e sorri.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conhecimento: agradeça por ter



Pela falta de tempo, dois comentários apenas:
  • Com o Lula me consertando, eu preferia comer as mamonas e me matar.
  • Álcool também não é bom beber, mas vê se ele cospe.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sete pecados - Inveja

Nasceram juntos, mas a natureza não permitiu que nascessem ao mesmo tempo. Primeiro surgiu Eduardo, depois veio Marcelo, seguiu-se o primeiro choro de ambos e depois a paz, por último, apenas a discórdia. O caçula nunca aceitaria o fato de não ter sido o mais velho.

Desde pequenos, as brigas fizeram parte da rotina dos gêmeos. O primogênito sempre vítima, moleque calmo que vivia sendo perturbado pelo irmão. Marcelo fazia isso para magoar o coitado e atrair a atenção dos pais toda para si. Via os seus planos irem por água abaixo quando todos ficavam contra ele. Essas frustrações não o desanimavam, apenas alimentavam seu espírito vingativo.

A cobiça começou a tomar conta da sua cabeça. Dia e noite, noite e dia, até o seu último suspiro. Mesmo sendo gêmeo idêntico do Eduardo e ter ganho as mesmas coisas, queria ser bonito, bem vestido, falar inglês, ter vários amigos e namorar as mais lindas como o irmão. Seguia os passos dele na tentativa de mostrar que conseguia fazer melhor. Chegou ao ponto de nem conseguir mais concentrar-se direito, apenas pensando nele. A única certeza era a de que só sossegaria ao final do último suspiro do mais velho.

Aconteceu quando estavam morando juntos e fazendo faculdade fora. Dudu saiu primeiro e voltaria apenas na hora do jantar. Assim que ele saiu, a Oportunidade bateu na porta do apartamento e Marcelo decidiu que estava na hora de deixá-la entrar. Confabularam por alguns instantes e resolveram envenená-lo no jantar. Compraram tudo do bom e do melhor, preparam um jantar belo, gostoso e letal. Em algumas horas estaria tudo resolvido. E se resolveu.

Quando entrou no apartamento, percebeu que havia algo estranho, estava quieto demais. Correu até a cozinha para encontrar o seu gêmeo morto no chão. A boca e o prato sobre a mesa ainda cheios. Depois da autópsia e de terminada as investigações, conclui-se que Marcelo não se conformara com um jantar tão bem preparado apenas para o irmão e resolveu comer antes que ele chegasse. Na volta para casa, lembrou dos momentos que passaram juntos e da força de vontade que ele tinha para superá-lo. Sentiu inveja.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ficar X Namorar

Jurandir conhece Michele em uma festa da escola e fica com ela no fim da noite. Eles trocaram telefone, msn, orkut e, como essa é uma histórinha fictícia, se adicionaram e trocaram mensagens. Depois de muitas saidas e ficadas juntos, ele a pede em namoro. Por que não? Ela é bonita, inteligente, tem bom senso de humor e muitas coisas em comum. Nas primeiras semanas, subnicks amorosos e mensagens melosas no twitter. No segundo mês, Jurandir deixa de sair com os amigos para assistir filme na casa da namorada. Ao final do terceiro ele já está procurando suas bolas de volta. Mais três meses e o pobre coitado começa a desejar uma morte rápida, pois, namorar é uma morte lenta demais.

Os primeiros meses de namoro são simplesmente perfeitos. Todo mundo se ama e um não consegue viver sem o outro. Defeitos? Pff, nunca na galáxia. O amor da sua vida é uma divindade menor. Bastam algumas brigas para que você perceba que o seu pequeno pedaço de céu era na verdade o inferno na Terra e a sua anjinha é na verdade o Diabo de saias. As coisas que você achava que ela fazia por amor no começo são as que mais vão te mostrar isso. Ela te ligava todos os dias para perguntar como você estava? Quando você ia sair você avisava pra onde e com quem estava indo? Em alguns meses ela vai jogar na sua cara o fato de você nunca ligar para ela e você vai ligar pra pedir permissão pra sair. Tudo isso porque ela era bonita, inteligente, tem bom senso de humor e vocês tem muita coisa em comum. Que piada.

Acordem para a vida, crianças. Existem mais de seis bilhões de pessoas na face do nosso planeta. Qual será a possibilidade de que milhões sejam bonitos, inteligentes, te façam rir e de vocês terem coisas em comum? Então, por que nos prendemos à apenas uma delas? Há quem diga que é por causa desse tal de amor, mas o que é que nós sabemos sobre amor? Ficamos indecisos quando compramos roupa nova ou quando queremos comer. Quanto mais escolher alguém para passar um bom tempo juntos. É para isso que serve a ficada.

Ficar é igual a namorar, mas sem toda essa parte burocrática que torna qualquer relacionamento infernal. Você não tem que se preocupar em ligar no dia seguinte, você não tem que comprar presentes, não precisa de cavalheirismo o tempo todo e, o melhor de tudo, não precisa dar satisfações. Quando enjoa você simplesmente parte para a próxima e, ao final do dia, você ainda consegue colocar a sua cabeça no travesseiro e dormir. Não é maravilhoso? Conhecer várias pessoas e depois, aí sim, escolher alguém. Ou simplesmente deixar de sair com ela antes que se apaixone e voltar pra folia. Afinal, para o bom solteiro, todo dia é Carnaval.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Apenas mais uma de amor (4)

Eu estava sentado na minha mesa, olhando para a janela e vendo o tempo passar. Tinha acabado de voltar do almoço, mas já estava louco para ir embora. Tinha coisas mais importantes pra fazer. Passei o dia a olhar para a janela, sem fazer nada, não pude evitar, o céu estava incrivelmente azul, do jeitinho que eu gosto. Até que tudo mudou. Eram duas horas da tarde quando, inexplicavelmente, o azul deu lugar ao amarelo que, por sua vez, deu lugar ao laranja. Mesmo distante, pude sentir o tremor aumentando e escutar os vidros estourando. Depois disso, o ceú fez-se preto. Assim me disseram, já estava desacordado na hora. Nesse dia, confirmei duas das poucas certezas que tive na vida. A primeira delas foi a de que não devia ter saído de casa.

Meu filho acordou doente, a secretária resolveu faltar e a minha esposa estava estressada com todos os pequenos problemas. O mundo estava me mandando sinais para que não saísse de casa. Não queria ir pro trabalho, mas nada me impediria. Olhei para a janela e vi um lindo céu azul. Pensei em qual mal poderia acontecer em um dia como esse. Saí de casa pensando em comprar flores para a minha esposa, além do remédio para o meu filho, quando voltasse do trabalho. É o meu jeito, queria, ao mesmo tempo, fazer uma surpresa e ajudar. Bom, foi mais ou menos aí que o meu curto flash back acabou.

Quando abri os olhos, o preto já havia dado lugar ao azul acinzentado. Pude ver bombeiros correndo de um lado para o outro, pessoas chorando e escutar gritos desesperadores. Ninguém parecia me notar, já tinha até desistido de chamar a atenção. Não conseguia me mover e nem falar. Meus esforços não valiam de nada. Senti o preço das minhas vãs tentativas escorrerem pela minha testa. Quando elas encontraram os meus olhos, o céu ficou manchado com gotas de vermelho. Foi aí que me dei conta da profundidade do corte na minha cabeça. Foi nessa hora, também, que eu encontrei com a Indesejável.

Ela era mais bonita e mais misteriosa do que eu imaginava. Estava lá por mim. Ainda não estava morto, apenas inconsciente. Minha alma relutava em deixar o corpo. Ela olhou fundo nos meus olhos, mas não falou nada. Olhos que não demonstraram pena e nem gosto por mim. Olhos que me perguntaram se eu iria, naquele exato momento, ir com ela por bem ou por mal. O sono eterno era tentador, já tinha até me levantado pra caminhar na direção dela. Parei no meio do caminho. Pedi desculpas e dei meia volta. Recobrei a consciência e me levantei. Os bombeiros vieram na minha direção oferecendo ajuda. Rechacei todos eles, estava bem. Ruim estava a minha mulher. Ainda bem que lembrei das flores e do remédio a tempo, vai que ela se irritava mais.

Foi na hora em que cheguei em casa que eu confirmei a minha segunda certeza. Se eu demorasse um pouco mais com o remédio e com as flores, faltariam desculpas para explicar a demora.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Coisas Que os Homens Odeiam Que as Mulheres Saiam Para Comprar no Supermercado

Encaremos os fatos, não sou mulher. Por mais que eu tenha desperdiçado uma boa parte do meu tempo livre para pensar sobre o assunto, não consegui listar cinco coisas que as mulheres não gostam de comprar no supermercado. Porém, consegui listar cinco coisas que nós, homens, não gostamos que vocês, mulheres, comprem. Posso começar agora ou vocês pretendem continuar me chamando de machista? Obrigado!

1º Cerveja - Pra mulher, que é um ser que geralmente prefere um bom vinho ou um coquetel, cerveja é apenas cerveja. Skol é cerveja, Schin é cerveja, Heineken é cerveja, Bavária é cerveja, Brahma é cerveja, . . . , até Kaiser é cerveja. ATÉ KAISER!

A mulher chega na parte das bebidas e já vai logo atrás de promoção, compra a mais barata, claro, afinal, cerveja é tudo cerveja. Aí chega o marido cansado e estressado do trabalho, com uma vontade imensa de abrir uma latinha de cerveja e relaxar, mas quando ele abre o freezer ele dá de cara com um monte de Kaiser. É ou não é uma causa justa pra pedir o divórcio?

2º Carne Vermelha - Por que é que, a maioria esmagadora das mulheres, só sabe escolher carnes brancas? O mesmo pensamento que elas usam pra escolher cerveja, elas usam pra escolher carne: é tudo carne, ou seja, se tiver alguma em promoção, prepare-se pra comer dela o mês inteiro. E nem pense que ela vai deixar você comer uma tirinha de gordura.

3º Sabonete - Não é qualquer sabonete, só os líquidos em especial. Mulher teima em comprar sabonete líquido porque é mais higiênico pra dividir. Vocês podem até estar certas, mas será que não dava simplesmente pra comprar dois sabonetes em barra?

Toda vez que tomo banho com sabonete líquido, meu saco fica escorregadio. Podem confiar em mim, meninas: ter o seu saco deslizando pra lá e pra cá nas coxas não é legal. A suavidez do chantilly pode até ser gostosa na boca, mas nas bolas é foda.

4º Refrigerante - O refrigerante é só um pretexto para citar todas as coisas integrais,light,diet e zero que vocês nos jogam garganta abaixo. Se você quer, jóia, mas veja que você vive com outras pessoas e essas pessoas não querem entrar na sua dieta. Fora que tem mulher que compra porque gosta disso e não pra emagrecer. Em que mundo essas comidas com alpiste e os refrigerantes com adoçante são gostosos?

Bom, não vou me detalhar muito aqui porque gosto é que nem braço, tem gente que não tem.

5º Camisinha - Existem várias marcas e tipos de camisinha. Sabores, texturas e cores diferentes. Por que conchinhas vocês teimam em comprar a mais grossa e mais resistente?

Se no geladinho que tem um plástico fininho você faz um furinho pra sentir o gosto, imagine na hora do sexo. Mas não, vocês ainda querem, além de não fazer o furinho, botar num plástico mais abafado ainda. Meu Deus, camisinha é feita pra aguentar o tranco. Até nas mais finas as chances são muuuito baixas. É só colocar direitinho, relaxar e gozar.

*
Se alguma mulher quiser dar sugestões para que eu possa escrever uma lista com as coisas que vocês não gostam de comprar e/ou coisas que vocês não gostam que os homens comprem, é só deixar nos comentários que eu prometo que escrevo.

Amanhã teremos mais um "De Mulher pra Mulher", então, não deixam de dar uma checada aqui no blog. I'll be back.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Coisas Que Homens Odeiam Ter Que Comprar no Supermercado

Hoje eu tive que ir ao supermercado pra dar uma força em casa, mas também porque a geladeira estava quase vazia e eu preciso comer. Exageros à parte, passei duas horas empurrando um carrinho entre fileiras e mais fileiras. Quando cheguei no caixa, a fila não estava grande, mas creio que tenha dado um problema na máquina que lê os códigos de barras e tive que esperar mais um pouco. Foi enquanto esperava que bolei essa lista:

1º Xampu e Condicionador - Existe xampu e condicionador pra todo tipo de cabelo. Pergunto: por que, meu Deus?! Comprar essas coisas, é pra mulher mesmo. Xampu pra homem só precisa fazer espuma e condicionador só tá lá pra acompanhar o xampu. E eles nem da mesma marca precisam ser. Não sei nem qual é o meu tipo de cabelo, quanto mais o dos outros.

2º Sabonete - Nunca tive que comprar um sabonete sequer em toda a minha vida. Hoje foi a primeira vez. É constragedor, para um homem, escolher sabonete enquanto um monte de gente passa te olhando. É constrangedor porque parece que todos os sabonetes são femininos.

Imagine que você vai em uma loja comprar uma roupa e você prova algumas. Você gostou de todas elas e resolve levá-las. Nessa hora a vendedora chega pra você e fala que são todas para o sexo oposto e pergunta se você vai levar mesmo assim. Se você não se importar com isso, pode ir para o próximo item, mas se não, você entendeu o drama.

Tinha sabonete de tudo quanto era tipo. Suavidez do chantilly, sedução do chocolate, doçura de morango, seduction,...Acabei levando um Lux energia do guaraná. Só sei de uma coisa, se esse tal de guaraná vier querer mandar as energias pra dentro de mim, a coisa vai feder pro lado dele.

3º O. B. - Ao meu lado estava um cara que aparentava ser apenas um pouco mais velho do que eu. Acho que ele tinha 22 anos. No carrinho dele tinha uma caxinha de O. B. Espero que eles tenham sido para a namorada dele, mas isso não vem ao caso.

Imaginei o que a moça do caixa deve ter pensado e cheguei a conclusão de que: se o O. B. era pequeno ela deve ter pensado que a moça era virgem e o cara devagar, mas se o O. B. era grande, ela deve ter pensado que a moça era rodada e o cara trouxa. Bom, pelo menos foi isso que pensei. Não que o O. B. indique alguma coisa, até porque, nem entendo disso. Bah, vocês entenderam.

4º Camisinha - Se você tem cara de besta, a pessoa te olha com aquela cara de sei-que-você-só está-comprando-para-caso-aconteça-um-milagre. Se você é um homem mais presença, a pessoa te olha com cara de vai-se-dar-bem-hoje-né-danadinho?

No Brasil a coisa ainda é boa, pior é lá fora que as camisinhas tem tamanho. O cara chegar no balcão com uma camisinha P e ainda mais com efeito retardante é pedir pra ser chamado de amendoim japonês: uma comida rápida e pequena.

5º Tinta pra Cabelo - Tinha um senhor na minha frente que estava com a esposa no mercadinho, mas não estava com ela do lado quando começou a passar as compras. Eu vi a hora em que a mulher do caixa olhou pra tinta e depois para a cabeça grisalha do pobre velhinho e começou a rir como se achasse que a cor não iria lhe cair bem. Ela só parou de rir quando a mulher apareceu. Fora esse constrangimento, nos homens odiamos comprar essa desgraça porque nós simplesmente não entendemos de cores.

Hoje eu entendi porque é que vocês pintam os cabelos e nós não percebemos. Tinham duas caixas, uma do lado da outra, com duas modelos diferentes na parte da frente. Quis entender o motivo de cores iguais terem embalagens diferentes. Olhei mais de perto e percebi que uma era castanho claro dourado e a outra era castanho claro romântico. Assim fica díficl, caceta.

*

Se você foi mulher e achou ruim alguma coisa que escrevi por aqui, relaxe o seu bigode que assim que der, faço uma lista de coisas que as mulheres odeiam ter que comprar no supermercado. Até lá, me odeiem um pouco mais.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Idiota

Eu não sei se foi porque fiquei com pena, mas eu não acho que ele seja idiota. Pra ser sincero, olhando daqui ele só me parece meio idiota.

Ele parece com um amigo meu, só não consigo me lembrar o qual.

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