O homem de bermuda se arrastava pelas ruas do Porto e o medo ia atrás. Seguia alheio ao frio, flanqueado por crentes e descrentes, como um prisioneiro no corredor da morte. Não sabia se apressava o passo e acabava com aquilo ou se retardava a marcha para dilatar o inevitável.
Olhou para trás a tempo de ver o medo correndo em sua direção, mas não permitiria ser alcançado. Mente e corpo inebriados com a sensação de poder, nada tomaria aquele momento das suas mãos. Era o Alfa e o Ômega. Senhor de si.
Imaginou quantos haviam percorrido aquele mesmo caminho e sentido aquele êxtase, para, então, emergirem vitoriosos. Tum tum. Despiu-se de toda a vaidade que vestia. Tum tum. Lembrou de tudo que enfrentara nos últimos seis meses e que o levaram até ali. Tum tum. Pensou na família que estava em contagem regressiva para a sua volta. Tum tum, tum tum. Calculou rapidamente quantos metros o separavam da água e chutou quantos mais o separariam do fundo. Tum tum, tum tum. Sentiu o vento frio tentando desviar a sua atenção enquanto o medo se apoderava do seu corpo. TUM TUM TUM TUM.
Esqueceu o motivo de estar ali. Tinha medo de altura, de morrer, de ir sem dizer adeus, de deixar a família triste, de não deixar herdeiros ou um legado. Fazia graça para esconder o desespero. Queria desistir, mas o corpo continuava. Cruzou a grade da ponte e sabia que não poderia retornar. Desistiu de resistir.
Olhou para baixo e experimentou o sabor de adrenalina do medo. Ainda assim, sentiu se mais corajoso do que nunca. Um. Continuaria vivo para rever todos. Dois. Se formaria para mudar o mundo. Três. Dominar para não ser dominado. Fodeu, puta que pariu.
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
Nego
Agora eu sou o Negão que trocou o verão do nordeste pelo inverno de Portugal, o oxe pelo ora pois e a moqueca de peixe com camarão por esse tal de bacalhau. Agora não tem mais moleza, nem o conforto de casa. Nada de roupa, passada e lavada, guardada na gaveta, cama feita ou pia da cozinha vazia. A comida não surge nas panelas, os produtos de limpeza não se esfregam no chão, os sacos de lixo não tomam o elevador, e o cheirinho do banheiro vive vazio.
Bebo todos os dias porque o clima é frio, porque sempre tem promoção, porque tem festa, porque chamam, porque não tenho aula, porque tive aula demais, porque não tem nada pra fazer, mas na maioria das vezes, faça chuva ou faça sol, é tão somente porque eu quero. Basta ser líquido, até o tal do mátê quêntê vendo o pôr do sol no teleférico de Gaia.
Jogo frisbee, ando de caiaque, faço slack, corro, e não paro. Agora falo um pouco de francês aqui, uma pitada de italiano ali e um punhado de alemão, não é suficiente pra conversar com ninguém, mas é, por enquanto, o bastante. Não estudo, mas vivo o Direito nas ruas, no povo e no fundo de um copo de cerveja.
Sou da Bahia, de Cuiabá e do Acre, mas também sou mineiro, gaúcho, paulista e catarinense. É uai! com bah!, bolacha com biscoito, língua queimada pelo mátê quêntê no final da tarde. É o rolê num pico doidimais, e, principalmente, concordar que é tudo um demonho mesmo. É deixar de ser sergipano pra me apresentar como brasileiro, com muito orgulho, com muito amor-ôôôô!
Foi nessa mistura retada da peste, que mudei e fui mudado, que acrescentei e fui acrescido. Não porque o intercâmbio muda todo mundo, mas porque tive coragem de sair da minha zona de conforto.
Agora eu sou o Negão, cheio de paixão, te catá, te catá, te catá.
Bebo todos os dias porque o clima é frio, porque sempre tem promoção, porque tem festa, porque chamam, porque não tenho aula, porque tive aula demais, porque não tem nada pra fazer, mas na maioria das vezes, faça chuva ou faça sol, é tão somente porque eu quero. Basta ser líquido, até o tal do mátê quêntê vendo o pôr do sol no teleférico de Gaia.
Jogo frisbee, ando de caiaque, faço slack, corro, e não paro. Agora falo um pouco de francês aqui, uma pitada de italiano ali e um punhado de alemão, não é suficiente pra conversar com ninguém, mas é, por enquanto, o bastante. Não estudo, mas vivo o Direito nas ruas, no povo e no fundo de um copo de cerveja.
Sou da Bahia, de Cuiabá e do Acre, mas também sou mineiro, gaúcho, paulista e catarinense. É uai! com bah!, bolacha com biscoito, língua queimada pelo mátê quêntê no final da tarde. É o rolê num pico doidimais, e, principalmente, concordar que é tudo um demonho mesmo. É deixar de ser sergipano pra me apresentar como brasileiro, com muito orgulho, com muito amor-ôôôô!
Foi nessa mistura retada da peste, que mudei e fui mudado, que acrescentei e fui acrescido. Não porque o intercâmbio muda todo mundo, mas porque tive coragem de sair da minha zona de conforto.
Agora eu sou o Negão, cheio de paixão, te catá, te catá, te catá.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Apenas mais uma de amor (22) - Chico
A fase de negação começou quando vi aquele ser sentado no colo da minha mãe pela primeira vez, não fazia ideia de quem ou o que era aquilo, mas o odiava com todas as minhas forças. Éramos diferentes, mas compartilhávamos o mesmo sangue, mas nada mudaria isso: estava no meu lugar e tomava a atenção que sempre fora minha. Não aceitava ser trocado, preferia que a minha mãe permanecesse gordinha para sempre. A negação era constante. Não queria acreditar que estava acontecendo justo comigo. Eu queria um cachorro e os meus pais me deram uma irmã. Fui traído por quem mais deveria me amar.
Pouco a pouco me conformei com a ideia de que não daria para me livrar dela e a negação começou a ser substituída pela fase da raiva desmedida que só crescia. Não suportava a sua presença e nós não podíamos dividir o mesmo espaço sem que brigássemos. Eu acordava, dava uma surra nela para ela acordar, ia tomar banho e dava outra surra quando a gente se encontrava no corredor. Depois nós descíamos para tomar café e eu dava outra surra nela porque ela queria comer o mesmo que eu. E assim passava o dia, numa mistura de meninices e surras constantes, até que a minha mãe decidiu que um passava a manhã no andar de baixo e o outro no andar de cima, e pela tarde trocávamos.
Mesmo assim ela era o meu saco de pancada e ninguém além de mim tinha o direito de descer a mão nela. A medida que crescíamos as brigas começaram a se tornar menos frequentes, porém mais intensas. Desloquei o braço dela com um chute e ela amassou a porta com um tijolo que era pra acertar a minha cabeça. A gente ficava semanas sem se falar, uma Guerra Fria em menor escala prestes a estourar. E, para ser sincero, não sei o que mudou e nem quando a raiva virou aceitação. Um belo dia nós simplesmente nos tolerávamos e já nos dávamos bem. Nos tornamos civilizados.
Ainda discutimos bastante, mas porque temos a personalidade forte. Ficamos sem nos falar algumas vezes e foram as semanas mais intermináveis da minha vida. Estamos sempre juntos e agora não vejo mais como irmã mais nova e sim como minha amiga. Depois da fase da aceitação, que 6 anos atrás eu achei que fosse a última, veio a fase do amor porque não importa o quanto ela cresça, será pra sempre o meu macaquinho.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
La sirena di Napoli
Andava sem rumo pela cidade até que encontrou o mar. A beleza de Roma ofuscava ainda mais os segredos a serem revelados em Nápoles. Todos as estradas levam a Roma, nenhuma delas deveria sair. Seu corpo chegou na costa, entretanto, seus pensamentos haviam sido aprisionados em uma velha moeda de euro. Seus desejos repousavam no fundo das claras águas da Fontana di Trevi.
Foi retirado do seu limbo particular por um riso angelical. Seus olhos percorreram o horizonte para encontrar uma deusa no meio dos homens. Nem mesmo a Capela Sistina poderia se comparar em beleza, nem provocar tamanha impressão. A arquitetura do Panteão invejaria sua perfeição.
A mais bela criatura a pisar na terra fez com que parasse. Ela sabia que ele a encarava, estupefato. Seu sorriso malicioso e os olhos de Capitu agora o puxavam para mais perto. Se sentia sugado pelo vácuo entre eles.
Se sentou na muralha que separava a terra e o oceano. Seus ondulados cabelos castanhos ondulavam em sintonia com o mar. Olhos fechados. Foi quando ele ensaiou dar o último passo em sua direção que ela mergulhou na salgada água deixando apenas bolhas para trás.
Foi retirado do seu limbo particular por um riso angelical. Seus olhos percorreram o horizonte para encontrar uma deusa no meio dos homens. Nem mesmo a Capela Sistina poderia se comparar em beleza, nem provocar tamanha impressão. A arquitetura do Panteão invejaria sua perfeição.
A mais bela criatura a pisar na terra fez com que parasse. Ela sabia que ele a encarava, estupefato. Seu sorriso malicioso e os olhos de Capitu agora o puxavam para mais perto. Se sentia sugado pelo vácuo entre eles.
Se sentou na muralha que separava a terra e o oceano. Seus ondulados cabelos castanhos ondulavam em sintonia com o mar. Olhos fechados. Foi quando ele ensaiou dar o último passo em sua direção que ela mergulhou na salgada água deixando apenas bolhas para trás.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
10 maneiras de tomar (ou não) uma advertência
1º Ria. Não importa se você ri alto ou
baixo, estrondosamente ou delicadamente. Rir tira a concentração de qualquer
um. Durante a bronca, ria ironicamente pelo canto da boa, isso garantirá um
passe livre.
2º
Passeie. A sala nunca é grande ou pequena o bastante para você circular. O
importante é não ficar parado. Passeie dentro da sala que certamente você
expandirá seus horizontes.
3º Relembre. Seus tempos de criança te
ajudarão nessa árdua batalha. Acorde o demônio adormecido nos confins do seu
âmago. Invente as mais variadas brincadeiras. Use a imaginação. Vença e
comemore sua vitória em casa.
4º Mate. Pernilongos, formigas e outros
insetos não fazem parte do ambiente. Aproveite os momentos de silêncio para
caçá-los. Mate quantos forem precisos. Quanto mais você matar, mais pontos
serão acumulados. Dez pontos são suficientes para você ganhar seu bônus e
passar de fase em sua caçada.
5º Discuta. Mesmo estando errado você deve
se achar certo. Confronte tudo e todos. Repita o primeiro item enquanto discute que certamente sua
discussão chegará a algum lugar.
6º Dispute. Converse o mais alto que puder,
dispute voz com quem for preciso para alcançar a hegemonia do espaço sonoro,
mas não espere que a sua palavra seja a final.
7º Aproveite. Qualquer discussão serve de
faísca para que o circo pegue fogo. Certifique-se de manter a
vantagem durante toda a briga e que alguém esteja olhando. Mantenha a calma,
brigue o suficiente para uma advertência, mas nunca o bastante para uma
suspensão.
8º Transforme. A sala é o limite.
Transforme-a. Ela pode virar um campo de futebol, uma quadra de vôlei ou uma
trincheira, mas não se preocupe com as regras. Sempre haverá um juiz com um cartão vermelho esperando.
9º Forme. Um grupo de pagode nunca é demais.
Junte canetas, os cadernos, batucar na mesa também vale. Crie um refrão animado
e repita-o durante toda a música. Talvez você fique famoso e seja convidado a tocar na coordenação.
10º Dance. Enquanto realizam o nono item,
levante-se e remexa. Não precisa ficar acanhado. Dance do jeito que achar o
mais engraçado. Certifique-se de que a maioria esteja realizando o primeiro
item. Se isso acontecer, se prepare para realizar o quinto item. Seu talento
também será reconhecido e você também será convidado a dançar para pessoas mais
importantes.
Se depois de tudo isso, você ainda assim
permanecer na sala, sem sombra de dúvida, você é o filho da diretora.
sábado, 10 de maio de 2014
Minha mãe é uma peça
Minha mãe não xingava, nunca bebia, reclamava o tempo inteiro da bagunça no quarto, achava errado que a gente fosse pra aniversário de 15 anos sem ser convidado e ainda por cima sem nem levar presente. Entretanto, como diz o ditado, se não pode vencê-los, junte-se a eles. Hoje o motorista que entra sem dar sinal é filho da puta, uma taça de vinho já deixa ela doida, quem quiser viver num chiqueiro que viva e é pra levar o meu irmão pra festa junto comigo que ninguém vai se incomodar.
Ela é o motivo pelo qual não tenho saudade da comida de casa porque até água ela queima. Quando era mais novo achava que o meu pai não era romântico por sempre comprar jogos de panela no dia das mães, mas hoje sei que as panelas precisavam ser trocadas sempre que ela resolvia cozinhar. Meus amigos ficavam felizes nas datas comemorativas porque a mãe deles cozinhava só coisa boa. Eu ficava feliz porque a gente pedia comida. Pior ainda era quando ela "aprendia" uma receita nova e experimentava na gente, lá se ia o dia inteiro de só-sai-daí-quando-comer-tudo. Mesmo assim, não troco o cuscuz da velhota por nada.
Acredito que a minha ingratidão tenha começado já quando eu disse as minhas primeiras palavras: papá. Depois de 9 meses, mais o tempo de amamentação, tantos cuidados pro infeliz chamar pelo pai que estava sempre trabalhando. Por um outro lado, bastava ela chegar cansada, claro, que eu ia atrás com um livro para que ela lesse a mesma história pela décima quinta vez. Naquele dia. Até que ela comprou livros novos.
Sem sombra de dúvidas ela é a pessoa que mais me ama nesse mundo. Sempre fiz o que quis e ela me apoiou em tudo sem questionar. Mesmo nas várias vezes em que eu pedi para que ela fechasse as janelas do carro ligeiro e logo depois peidei, ela deixou de confiar em mim. Nem quando me escondia na dispensa e gritava pra ela aparecer na cozinha só pra ver se o coração dela estava funcionando bem, ela quis me deserdar.
Diferente da maioria das pessoas que têm na mãe a melhor amiga, eu não tenho. Entretanto, ela me conhece melhor do que ninguém. Ela finge que acredita e eu finjo que engano. Nada passa despercebido. Eu achava que era sortudo por ela sempre chegar em casa fazendo barulho porque dava tempo de me vestir, sendo que ela pagava o meu irmão pra entrar batendo a bola no chão e não ver nada.
As pessoas têm a concepção de que ter a mãe médica é a melhor coisa do mundo porque ela cuida de você e ainda te dá atestados. Se vocês encontrarem uma assim, favor entrar em contato pra fazer a troca porque lá em casa o buraco é mais embaixo. A gente não faltava aula. Se tinha força pra ir até o quarto dela pedir remédio, também tinha pra ir pra escola. Eu perdi prova na faculdade porque tava com uma diarreia de lascar o ser em dois e ela me mandou ficar e tomar muito líquido, mas na hora que eu pedi um atestado ela disse que só dava atestado aos pacientes que iam ao consultório.
Acho que só tem um pessoal que ama mais a minha mãe que a própria família, os funcionários da SMTT. Ela é a maior contribuinte e pelos motivos mais absurdos. É como se todo o cuidado e atenção ficassem no consultório com ela. Só ela consegue tomar multas pelo mesmo motivo e no mesmo local. Ainda tem a cara de pau de dizer que a multa é pra mim.
Ela é o motivo pelo qual não tenho saudade da comida de casa porque até água ela queima. Quando era mais novo achava que o meu pai não era romântico por sempre comprar jogos de panela no dia das mães, mas hoje sei que as panelas precisavam ser trocadas sempre que ela resolvia cozinhar. Meus amigos ficavam felizes nas datas comemorativas porque a mãe deles cozinhava só coisa boa. Eu ficava feliz porque a gente pedia comida. Pior ainda era quando ela "aprendia" uma receita nova e experimentava na gente, lá se ia o dia inteiro de só-sai-daí-quando-comer-tudo. Mesmo assim, não troco o cuscuz da velhota por nada.
Acredito que a minha ingratidão tenha começado já quando eu disse as minhas primeiras palavras: papá. Depois de 9 meses, mais o tempo de amamentação, tantos cuidados pro infeliz chamar pelo pai que estava sempre trabalhando. Por um outro lado, bastava ela chegar cansada, claro, que eu ia atrás com um livro para que ela lesse a mesma história pela décima quinta vez. Naquele dia. Até que ela comprou livros novos.
Sem sombra de dúvidas ela é a pessoa que mais me ama nesse mundo. Sempre fiz o que quis e ela me apoiou em tudo sem questionar. Mesmo nas várias vezes em que eu pedi para que ela fechasse as janelas do carro ligeiro e logo depois peidei, ela deixou de confiar em mim. Nem quando me escondia na dispensa e gritava pra ela aparecer na cozinha só pra ver se o coração dela estava funcionando bem, ela quis me deserdar.
Diferente da maioria das pessoas que têm na mãe a melhor amiga, eu não tenho. Entretanto, ela me conhece melhor do que ninguém. Ela finge que acredita e eu finjo que engano. Nada passa despercebido. Eu achava que era sortudo por ela sempre chegar em casa fazendo barulho porque dava tempo de me vestir, sendo que ela pagava o meu irmão pra entrar batendo a bola no chão e não ver nada.
As pessoas têm a concepção de que ter a mãe médica é a melhor coisa do mundo porque ela cuida de você e ainda te dá atestados. Se vocês encontrarem uma assim, favor entrar em contato pra fazer a troca porque lá em casa o buraco é mais embaixo. A gente não faltava aula. Se tinha força pra ir até o quarto dela pedir remédio, também tinha pra ir pra escola. Eu perdi prova na faculdade porque tava com uma diarreia de lascar o ser em dois e ela me mandou ficar e tomar muito líquido, mas na hora que eu pedi um atestado ela disse que só dava atestado aos pacientes que iam ao consultório.
Acho que só tem um pessoal que ama mais a minha mãe que a própria família, os funcionários da SMTT. Ela é a maior contribuinte e pelos motivos mais absurdos. É como se todo o cuidado e atenção ficassem no consultório com ela. Só ela consegue tomar multas pelo mesmo motivo e no mesmo local. Ainda tem a cara de pau de dizer que a multa é pra mim.
Mãe
Olhava quietinha ele dormir. Prendia a respiração com medo de acordá-lo, mesmo sabendo que era o mesmo sono pesado do pai. Os pequenos olhinhos fechados tranquilizavam. Custava a sair para trabalhar. O tempo tentaria transformá-lo, levá-lo para longe, pois que tentasse, protegeria o seu bebê. De tudo. As memórias começaram a emergir.
Nasceu mirrado antes do previsto, cabia na mão do pai. Era só pelanca. Tão feinho que mais parecia um ratinho pelado, mas não importava. Lá estava ele, o primogênito. Tinha planos para ele que agora eram frustrados pela quantidade de complicações. Aquele diminuto pedaço de gente dependia de alguém. Nada nesse mundo o tiraria de perto . Nada o machucaria.
Dava-lhe banho com água mineral para que não ficasse doente. O leite de cabra porque não podia com o de vaca. Longe do pai que não tinha juízo e o levava ao curral para ver os bichos. Noites em claro por conta das crises de asma. Ele cresceria forte, tinha essa certeza. Queria vê-lo ir aonde jamais sequer sonhara chegar. Queria vê-lo descobrir a cura para uma doença rara ou levar paz ao Oriente Médio. O ajudaria no que fosse preciso.
- Que foi, mãe? - a voz embriagada de sono.
- Oh, filho, nada não. - se assustara mais do que deveria.- Já arrumou a mala?
- Depois, depois - já puxando a colcha pra cima e virando para o outro lado. -, num já falei que vou arrumar? Relaxe o bigode que vai dar tudo certo.
- Mas Dieguinho, meu filho, pelo amor de Deus, Dieguinho, ói sei não, viu? - desconversou ainda meio deslocada.- Você que vai viajar mesmo. Sei não, sei não.
As lembranças tanto cobriram seus olhos que achava que iria ouví-lo acordar chorando. O seu bebê, o bebezinho da mãe, crescera e estava prestes a conquistar o que era seu por direito. Não poderia mais cuidar dele e teria que se conformar. Filho é assim mesmo, a gente cria pro mundo.
Voltou ao quarto para confirmar e lá estava o sapequinha babando no travesseiro.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
História de Ninguém
Quem sou eu já não importa, nem o quando e nem o onde. O que importa é que não tenho mais identidade. Mera mazela social a ser julgada. Um mito criado ao meu redor. Fui julgado um qualquer, um desajustado, apenas mais um rebelde sem causa.
Sou um número. Apenas uma sequência pela qual todos me reconhecem, exceto eu. Como se não bastasse a minha identidade, tiraram também o meu direito de lutar. Não há direito de resistência. Não posso aceitar. Não, não. Exército parapopular que espera pra ser réu, julgado, culpado. Não, não. Munidos do verbo, apenas. Frágeis problemas.
Filho da Sociedade
(Na verdade criado por Ninguém. Porcos capitalistas.)
E retorna o filho pródigo, mas sua Mãe não o aceita de volta,
(Discórdia)
acha que sou apenas um “Meu Guri” à espera do destino. Um destino comum a todos,
(Mentira.)
a todos os filhos pródigos,
(Desgraçada, pede que volte, mas não aceita.)
(Tolo.)
Destino o qual ela mesma me preparou. Sem direito a mudanças ou escolhas. Apenas esperando meu fim, triste fim.
(Carrasca, amaldiçoo a ti e a teus filhos. Acabarás como o início.)
domingo, 30 de março de 2014
Apenas mais uma de amor (20) - Amor maior
Lembrava da primeira vez que ela lhe chamou de pai. Claro que não era verdade e logo a corrigiram, mas foi o suficiente para desencadear a série de eventos que aconteceram no decorrer dos dois seguintes anos. Talvez as coisas já estivessem determinadas a acontecer, só levariam mais tempo. Tempo que não sabiam que não iriam ter. E que não teria mudado em nada se soubessem.
Não a via sempre, nem mesmo todas as semanas. Mesmo assim, todo dia era melhor que o anterior. Era ela que tudo alegrava quando saía cansado do trabalho para visitá-la. Todos os defeitos que tinha e que não conseguia enxergar coloriam qualquer dia cinza. Suas perguntas sem pé nem cabeça, seu riso fácil e a voz manhosa quando queria alguma coisa. De novo, de novo, e lá se ia mais uma infinitude de vezes da mesma brincadeira. Os braços cada vez mais fortes para aguentar o peso que crescia nas mãos. O peso da diminuta vida pela qual era responsável. A vida que a vida tomaria.
Era questão de tempo e nada mais. Ela tinha pai, vivo e, acima de tudo, saudoso. A notícia de que ele voltaria ao Brasil para levá-la foi recebida com ceticismo. Que besteira, que bobagem, levar a menina só por conta disso. Não dava palpites, apenas balançava a cabeça e concordava. Não tinha o direito de opinar. Nem mesmo acreditava que esse dia chegaria. Mas chegou.
E lá estava ela, mochilinha nas costas, tiara na cabeça. Nada mais de Dora ou de Galinha Pintadinha, muito menos músicas diferentes todos os dias ou brincadeiras repetitivas. Ela estava com o pai verdadeiro, não havia nada mais que pudesse ser feito. Nem ao menos sabia como se sentia. Não havia nada, nem raiva por a levarem, nem alegria por vê-la feliz. Por fim, se foi. Foi se, como houvesse uma passagem de volta esperando por ela. Só havia o pai.
Não era o pai dela, nunca seria. Ela, mais do que ninguém, sabia. Não era o pai dela, mas era como se fosse.
Não a via sempre, nem mesmo todas as semanas. Mesmo assim, todo dia era melhor que o anterior. Era ela que tudo alegrava quando saía cansado do trabalho para visitá-la. Todos os defeitos que tinha e que não conseguia enxergar coloriam qualquer dia cinza. Suas perguntas sem pé nem cabeça, seu riso fácil e a voz manhosa quando queria alguma coisa. De novo, de novo, e lá se ia mais uma infinitude de vezes da mesma brincadeira. Os braços cada vez mais fortes para aguentar o peso que crescia nas mãos. O peso da diminuta vida pela qual era responsável. A vida que a vida tomaria.
Era questão de tempo e nada mais. Ela tinha pai, vivo e, acima de tudo, saudoso. A notícia de que ele voltaria ao Brasil para levá-la foi recebida com ceticismo. Que besteira, que bobagem, levar a menina só por conta disso. Não dava palpites, apenas balançava a cabeça e concordava. Não tinha o direito de opinar. Nem mesmo acreditava que esse dia chegaria. Mas chegou.
E lá estava ela, mochilinha nas costas, tiara na cabeça. Nada mais de Dora ou de Galinha Pintadinha, muito menos músicas diferentes todos os dias ou brincadeiras repetitivas. Ela estava com o pai verdadeiro, não havia nada mais que pudesse ser feito. Nem ao menos sabia como se sentia. Não havia nada, nem raiva por a levarem, nem alegria por vê-la feliz. Por fim, se foi. Foi se, como houvesse uma passagem de volta esperando por ela. Só havia o pai.
Não era o pai dela, nunca seria. Ela, mais do que ninguém, sabia. Não era o pai dela, mas era como se fosse.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
A maior burrice da vida
Estava na dúvida. Ser adolescente era assim e ele sabia, mas precisava ser um curso de cada área? Tinha seus motivos para seguir cada uma delas, alguns deles errados. Era um rebelde sem causa e tinha coisas a provar, principalmente para si.
Demorou a se inscrever. Usou todo o tempo disponível para pensar. Deixou que a vontade de provar que estavam errados fosse maior, ninguém dizia que ele não era capaz. O gosto pela Matemática ajudou, claro, só não foi o que pesou mais. Clicou. Nada adiantaria naquele momento, o que estava feito, feito estava, seu futuro já estava decidido. Para muitos, não foi surpresa alguma vê-lo prestar vestibular para Engenharia Civil. Meses depois, não foi nenhuma surpresa para ele ver o seu nome na lista dos aprovados. A única surpresa foi não ter trancado o curso ao final do primeiro semestre.
Ele que era aluno exemplar, virara medíocre. Lutava para colar e se manter na média, odiava todos que negavam. Frequentara poucas aulas, mas vivia na faculdade. Pegava cada vez mais créditos e mesmo assim atrasava o curso todo semestre. Deixou a raiva assumir o controle. Ia todos os dias para um lugar que não queria estar, fazer o que não queria fazer, queria sair dali, fugir, ir embora, mas como? Sair dali pra fazer o que? Onde? Cada semestre que passava era um a menos para se formar. Empurrou com a barriga, sempre postergando seu sonho. Estava no oitavo período, não podia jogar tudo pro alto e apenas rezar para que as coisas funcionassem. Começou a comentar aqui e ali que queria largar o curso, recomeçar do zero. Disseram que estaria cometendo a maior burrice da sua vida.
Fez um acordo que sabia que não cumpriria. Mentiu para si e para quem quer que estivesse disposto a acreditar:
- Mas vai fazer os dois, né? Já tá perto de formar.
- Ah, Claro...
Que não.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
E o salário ó (2) - Observação
Não adianta, não importa a quantidade de horas que você levou para se preparar para dar uma aula, sempre há surpresas. O ser humano é imprevisível e você está ali para lidar com vários. Você pode falar sobre o mesmo assunto e discutir o mesmo tópico, mas a reação de cada aluno vai ser única, por isso cada turma é diferente. São essas experiências, pensamentos e histórias variadas que dão cara e ritmo à aula. É esse mistério, essa incerteza, que me fazem gostar tanto de ensinar, mas também é o que mais me assusta.
Dar aula é como jogar roleta russa. Cada vez que o aluno levanta a mão dar sua opinião ou contar alguma história, você, no fundo no fundo, sente uma pontada de desespero e pede, encarecidamente, para que não seja nada demais e que não interrompa muito a aula. Reza para que aquele cartucho não seja o carregado. E não adianta tentar adivinhar quem irá te tomar a atenção e o tempo , pois é de onde menos se espera que a bala vem. A carinha de anjo ou a personalidade séria apenas maquiam a mente criminosa que há por trás.
Estávamos conversando sobre os tipos de livro preferidos e os livros favoritos de cada um. Uma que gosta de romances e dramas, outra que tem nos mistérios a sua preferência, gente que lê qualquer bom livro, e até mesmo gente que não gosta ou não sabe ler. Foi quando estávamos terminando de falar sobre grandes autores de mistério , que notei o braço apoiado na mesa e o dedo levantado. Não estava apontado para mim, mas podia atirar a qualquer momento:
- Alguma dúvida?
- Não, só queria fazer uma observação. - pensei que ela fosse dar uma de chiquinha.
-Pode dizer, doutora. - ainda dei asa pra essa imaginação.
- É porque eu gostaria de dizer que quero ter uma gata e que o nome dela vai ser Christie.
Eu já tinha dado a observação dela como encerrada e já me preparava para mudar a pergunta quando ela concluiu:
- A gata Christie.
É depois de uma dessa que a gente deveria poder pedir a conta e voltar para casa. A única observação que tenho a fazer é que o pior de tudoi foi ter sido engraçado.
Dar aula é como jogar roleta russa. Cada vez que o aluno levanta a mão dar sua opinião ou contar alguma história, você, no fundo no fundo, sente uma pontada de desespero e pede, encarecidamente, para que não seja nada demais e que não interrompa muito a aula. Reza para que aquele cartucho não seja o carregado. E não adianta tentar adivinhar quem irá te tomar a atenção e o tempo , pois é de onde menos se espera que a bala vem. A carinha de anjo ou a personalidade séria apenas maquiam a mente criminosa que há por trás.
Estávamos conversando sobre os tipos de livro preferidos e os livros favoritos de cada um. Uma que gosta de romances e dramas, outra que tem nos mistérios a sua preferência, gente que lê qualquer bom livro, e até mesmo gente que não gosta ou não sabe ler. Foi quando estávamos terminando de falar sobre grandes autores de mistério , que notei o braço apoiado na mesa e o dedo levantado. Não estava apontado para mim, mas podia atirar a qualquer momento:
- Alguma dúvida?
- Não, só queria fazer uma observação. - pensei que ela fosse dar uma de chiquinha.
-Pode dizer, doutora. - ainda dei asa pra essa imaginação.
- É porque eu gostaria de dizer que quero ter uma gata e que o nome dela vai ser Christie.
Eu já tinha dado a observação dela como encerrada e já me preparava para mudar a pergunta quando ela concluiu:
- A gata Christie.
*
É depois de uma dessa que a gente deveria poder pedir a conta e voltar para casa. A única observação que tenho a fazer é que o pior de tudoi foi ter sido engraçado.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Tatuagem
Veio ao mundo para pagar pelos seus pecados e estava conformada . Poderia ter chamado tudo aquilo que enfrentou de carma, mas seria apenas um eufemismo. Pensara assim quando era mais nova, que a culpa era dela e que deveria sofrer por ser uma filha ruim. Apanhava porque era isso que merecia, todos os dias. Além disso, preferia ser espancada sem motivos a acreditar que a mãe não tinha capacidade ou condições para criá-la. Esse era o inferno dantesco no qual veio nascer. Apenas quando viu a morte beijar a mãe nos lábios pela última vez, venceu seus demônios.
Viu sua mãe se matar aos poucos durante os seis anos que ficaram juntas. Muitas vezes com a sua ajuda. O prêmio de melhor filha do mundo era dela, quando obedecia e saía para comprar droga, mas dormia com manchas pelo corpo quando brincava na rua até mais tarde. Entretanto, mesmo na sua dicotomia, tinham seus caprichos juntas. Mesmo assim, não foi o suficiente. Era muita dor para pouco sorriso, muita regra para pouco exemplo. Quando ela deu o último suspiro, chorou por ter ficado feliz.
Venceu a roda do destino e contrariou Sartre. Rolou para longe da árvore para mostrar ao mundo que é possível ter um começo difícil e ser diferente. É fato que sentia sim a necessidade de ser protegida, mas não queria por compaixão. Não precisou da piedade de ninguém antes e não seria agora que iria implorar por cuidados. Tornou-se tenaz porque a vida assim a fez e ensinou a ser. Venceria o que quer que fosse.
Viu sua mãe se matar aos poucos durante os seis anos que ficaram juntas. Muitas vezes com a sua ajuda. O prêmio de melhor filha do mundo era dela, quando obedecia e saía para comprar droga, mas dormia com manchas pelo corpo quando brincava na rua até mais tarde. Entretanto, mesmo na sua dicotomia, tinham seus caprichos juntas. Mesmo assim, não foi o suficiente. Era muita dor para pouco sorriso, muita regra para pouco exemplo. Quando ela deu o último suspiro, chorou por ter ficado feliz.
Venceu a roda do destino e contrariou Sartre. Rolou para longe da árvore para mostrar ao mundo que é possível ter um começo difícil e ser diferente. É fato que sentia sim a necessidade de ser protegida, mas não queria por compaixão. Não precisou da piedade de ninguém antes e não seria agora que iria implorar por cuidados. Tornou-se tenaz porque a vida assim a fez e ensinou a ser. Venceria o que quer que fosse.
*
Ali sentada, esperava para tatuar na pele aquilo que a vida já tatuara na carne:
Veni.
Vidi.
Vici.
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Baseado em fatos reais,
Contando ninguém acredita,
devaneios,
Estupidez humana,
Eu avisei,
Família,
Infância,
Moral da História,
Parece mas não é
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
E o salário ó - Jaca
Engana-se quem pensa que dar aula de inglês para níveis avançados é mais difícil. Os níveis básicos são um campo minado cheio de pegadinhas prontas para explodir ao sinal de qualquer movimento brusco. Como toda pessoa que começa algo novo, você não sabe de nada, portanto, o que aparecer já será novidade. Justamente por isso, a moeda mostra os seus dois lados. Ao mesmo tempo que o aluno iniciante se interessa por tudo, eles têm maior sede de conhecimento. E aí, meus caros, não há preparação no mundo que te deixe pronto para o que poderá aparecer. Em algum momento surgirá uma pergunta para a qual você não tem a resposta e aí resta apenas um conselho: se conforme e assuma.
Apesar do pouco tempo, já era uma turma querida. Era apenas a quinta ou sexta aula que dava para aquela turma, mas já tinha a sensação de estar em casa. O grupo era novo, nível iniciante. Ainda davam os primeiros passos com o inglês, e é justamente aí onde morava o perigo. Percebi tarde demais.
É certo que aluno não é raça de gente e sente um prazer inexplicável em apertar sem abraçar. Também sou aluno e sinto a mesma coisa. Quando o aluno já começa a pergunta rindo, das duas uma, ou é safadeza ou ele acha que você não sabe, tudo só para ter o gosto de rir internamente. Já tive professor que inventou a resposta na hora e só descobri anos mais tarde. Entretanto, dessa vez o erro foi meu.
O vocabulário da lição trazia algumas frutas,não muitas, as principais. Quando terminei de ensiná-las, avisei que não sabia todas as frutas, mas que eles poderiam perguntar mesmo assim. Uma a uma, respondi cada pergunta deles, até que perguntaram:
- E jaca? - o sorriso largo estampado.
Depois de uma boa gargalhada de desespero, olhei para o aluno e disse que não sabia, mas que iria procurar. Fiquei com aquilo na cabeça e a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi achar a resposta. Uma semana depois, lá estávamos nós, eu com a resposta na ponta da minha língua e ele com a pergunta na ponta da dele:
- E aí, professor? Achou? - aquele mesmo sorriso que eu esperava apagar.
- Claro! Você acha que eu ia deixar de responder? Jaca é jack fruit. - quem estava rindo agora?
- Mas essa daí é mole ou dura? - o sorriso sem nem mais caber no rosto.
O pior é que pra essa eu tinha a resposta.
Apesar do pouco tempo, já era uma turma querida. Era apenas a quinta ou sexta aula que dava para aquela turma, mas já tinha a sensação de estar em casa. O grupo era novo, nível iniciante. Ainda davam os primeiros passos com o inglês, e é justamente aí onde morava o perigo. Percebi tarde demais.
É certo que aluno não é raça de gente e sente um prazer inexplicável em apertar sem abraçar. Também sou aluno e sinto a mesma coisa. Quando o aluno já começa a pergunta rindo, das duas uma, ou é safadeza ou ele acha que você não sabe, tudo só para ter o gosto de rir internamente. Já tive professor que inventou a resposta na hora e só descobri anos mais tarde. Entretanto, dessa vez o erro foi meu.
O vocabulário da lição trazia algumas frutas,não muitas, as principais. Quando terminei de ensiná-las, avisei que não sabia todas as frutas, mas que eles poderiam perguntar mesmo assim. Uma a uma, respondi cada pergunta deles, até que perguntaram:
- E jaca? - o sorriso largo estampado.
Depois de uma boa gargalhada de desespero, olhei para o aluno e disse que não sabia, mas que iria procurar. Fiquei com aquilo na cabeça e a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi achar a resposta. Uma semana depois, lá estávamos nós, eu com a resposta na ponta da minha língua e ele com a pergunta na ponta da dele:
- E aí, professor? Achou? - aquele mesmo sorriso que eu esperava apagar.
- Claro! Você acha que eu ia deixar de responder? Jaca é jack fruit. - quem estava rindo agora?
- Mas essa daí é mole ou dura? - o sorriso sem nem mais caber no rosto.
O pior é que pra essa eu tinha a resposta.
sábado, 10 de agosto de 2013
Fuga
O pensamento ia longe enquanto olhava a escuridão pela janela do carro. Escutava as vozes chorosas, mas tentava não prestar muita atenção. Não era com elas que deveria estar preocupado. Pensava no que estava esperando quando chegasse em casa. Era o motivo pelo qual elas choravam e não escaparia facilmente. Não dessa. Não daria tempo nem pra dizer que poderia explicar e que estava tudo bem, ele viria implacável para cima. Nunca apanhara, mas sempre há uma primeira vez.
Há muito tempo as coisas já não estavam bem. Tudo ruía ao redor, mas não quis pedir ajuda. Era adolescente, e adolescente tem dessas ideias mesmo de fugir de casa. Todos imaginaram como seria, arquitetaram um plano, mas poucos tiveram a coragem, pra não dizer estupidez, de sair de casa sem rumo ou dinheiro no bolso. Agora que estava ali sentado, alheio às lágrimas que davam lugar aos sorrisos e novamente viravam lágrimas, pensava no tamanho da idiotice que tinha feito. Seria uma surra Homérica, literalmente.
O tempo parecia se esticar à medida que caminhava em direção à porta. Um insight perpassou a mente naquele momento, era assim que se sentia um condenado à morte. A chave girou duas vezes na porta e o coração três no peito. O medo inundou os pulmões de um jeito que não conseguia respirar. Elas abriram a porta, pois não tinha condição psicológica alguma. Lá estava ele, cara fechada e braços cruzados, como sempre. Se não soubesse da situação em que estava metido, aquele poderia ser mais um dia comum. O corpo enrijeceu prevendo a surra que estava prestes a receber e os olhos se fecharam, em parte por pavor, mas também por vergonha. Entretanto, ela nunca veio.
Podia sentir as mãos calejadas pela vida, mas elas não desceram pesadas. Sentia o abismo emocional sendo preenchido, pois ele estava, enfim, perto. O único barulho era do choro sincero que se atropelava com os soluços, como o de uma criança. Pela primeira vez naquela noite, o arrependimento superou todas as outras emoções. Pela primeira vez na minha vida, vi meu pai chorar.
Há muito tempo as coisas já não estavam bem. Tudo ruía ao redor, mas não quis pedir ajuda. Era adolescente, e adolescente tem dessas ideias mesmo de fugir de casa. Todos imaginaram como seria, arquitetaram um plano, mas poucos tiveram a coragem, pra não dizer estupidez, de sair de casa sem rumo ou dinheiro no bolso. Agora que estava ali sentado, alheio às lágrimas que davam lugar aos sorrisos e novamente viravam lágrimas, pensava no tamanho da idiotice que tinha feito. Seria uma surra Homérica, literalmente.
O tempo parecia se esticar à medida que caminhava em direção à porta. Um insight perpassou a mente naquele momento, era assim que se sentia um condenado à morte. A chave girou duas vezes na porta e o coração três no peito. O medo inundou os pulmões de um jeito que não conseguia respirar. Elas abriram a porta, pois não tinha condição psicológica alguma. Lá estava ele, cara fechada e braços cruzados, como sempre. Se não soubesse da situação em que estava metido, aquele poderia ser mais um dia comum. O corpo enrijeceu prevendo a surra que estava prestes a receber e os olhos se fecharam, em parte por pavor, mas também por vergonha. Entretanto, ela nunca veio.
Podia sentir as mãos calejadas pela vida, mas elas não desceram pesadas. Sentia o abismo emocional sendo preenchido, pois ele estava, enfim, perto. O único barulho era do choro sincero que se atropelava com os soluços, como o de uma criança. Pela primeira vez naquela noite, o arrependimento superou todas as outras emoções. Pela primeira vez na minha vida, vi meu pai chorar.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Três anos
Não era para ter acontecido. Todos os momentos que viram o dia nascer e o galo do vizinho cantar deveriam ter sido apenas ilusões. Eram parte de um enorme sonho que vinha em doses homeopáticas. Cada madrugada um pedaço, como em uma novela que deve ser assistida capítulo por capítulo. No meio de todas as tramas, entre tantos personagens e finais possíveis, ninguém podia imaginar. Não era para ter acontecido, mas aconteceu. Estava grato por isso.
Não era para ter se apaixonado. Ela era tudo que não procurava em uma mulher. Tinha suas qualidades, isso era bem verdade, só não as que procurava. Ele era o tipo de homem que ela achava estar vacinada contra. Ele queria ter o mundo inteiro em suas mãos, enquanto ela não queria ninguém aos seus pés. Não tinham as mesmas ideias, não defendiam as mesmas causas e nem tinham os mesmos gostos. Em comum, apenas a certeza de que não queriam se apaixonar um pelo outro. Sabiam que tudo aquilo era efêmero, uma distração no meio do caminho. Desses obstáculos que a vida traz para que a gente não fique entediado. Não era para ter se apaixonado, mas se apaixonou. Também estava grato por isso.
Não era para ter durado. As pessoas não mudam da água pro vinho e por que com eles seria diferente? Eram completamente opostos. Ela a mocinha determinada, ele o anti-herói cafajeste. Brigaram quando ela bateu o pé, faltou pouco para se separarem quando ele quase fraquejou. Fizeram de tudo para viverem o seu felizes para sempre, para descobrir que ele não existe. Pensaram por diversas vezes que estava tudo perdido. Até porque, não era para ter durado e nem durou. Ainda dura.
Não era para ter se apaixonado. Ela era tudo que não procurava em uma mulher. Tinha suas qualidades, isso era bem verdade, só não as que procurava. Ele era o tipo de homem que ela achava estar vacinada contra. Ele queria ter o mundo inteiro em suas mãos, enquanto ela não queria ninguém aos seus pés. Não tinham as mesmas ideias, não defendiam as mesmas causas e nem tinham os mesmos gostos. Em comum, apenas a certeza de que não queriam se apaixonar um pelo outro. Sabiam que tudo aquilo era efêmero, uma distração no meio do caminho. Desses obstáculos que a vida traz para que a gente não fique entediado. Não era para ter se apaixonado, mas se apaixonou. Também estava grato por isso.
Não era para ter durado. As pessoas não mudam da água pro vinho e por que com eles seria diferente? Eram completamente opostos. Ela a mocinha determinada, ele o anti-herói cafajeste. Brigaram quando ela bateu o pé, faltou pouco para se separarem quando ele quase fraquejou. Fizeram de tudo para viverem o seu felizes para sempre, para descobrir que ele não existe. Pensaram por diversas vezes que estava tudo perdido. Até porque, não era para ter durado e nem durou. Ainda dura.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Mudança
Um menear de cabeça rápido e um sorriso amarelo. Foram amigos durante todo o ensino médio e agora era apenas isso que restava. Ela havia mudado desde que entrara na faculdade. Nem ligava mais para chamar pra sair. Fizera novos amigos e esquecera dos velhos. Não podia culpá-la, desde o dia que se conheceram ele mesmo mudara bastante. Faz parte. A gente diz que as coisas irão ser para sempre de um jeito, mas não tem como. Todo mundo munda. Seja por necessidade ou pelas vidas que cruzam nossos caminhos. Nada mais seria do jeito que fora um dia. Agora eram praticamente estranhos um ao outro. Restava somente as lembranças.
Lembrou das conversas, das brigas, dos gostos compartilhados. Se soubesse que as coisas chegariam a esse ponto, teria pelo menos agradecido. Parou pra pensar em quantos melhores amigos ou amigas já tivera. Pessoas que não tinha sequer notícias. Uns mudaram de colégio, outros foram embora. Tiveram aqueles que se afastaram aos poucos e os que discutira. Sorriu. Quantas pessoas não o odiavam? Faz parte. Um dia você concorda, mas no outro discorda da pessoa. Mesmo assim, cada uma dessas pessoas era responsável por quem ele era hoje. Não tinha arrependimentos.
Tinha vontade de ir lá, dizer que sentia falta e que as coisas não eram mais as mesmas sem ela, mas não era verdade. A gente acaba aprendendo a viver sem. Continuamos evoluindo, mudando. É assim que as coisas devem ser. Todo estímulo, não importa sua natureza, provoca alterações. As pessoas que entram na nossa vida saem deixando um pedaço de si. Quantos existem dentro de você? Quantos ainda surgirão para adicionar peças a esse quebra cabeça? Pedia apenas para que, ao final, as memórias fossem boas. É, até que mudar não era tão ruim assim.
Lembrou das conversas, das brigas, dos gostos compartilhados. Se soubesse que as coisas chegariam a esse ponto, teria pelo menos agradecido. Parou pra pensar em quantos melhores amigos ou amigas já tivera. Pessoas que não tinha sequer notícias. Uns mudaram de colégio, outros foram embora. Tiveram aqueles que se afastaram aos poucos e os que discutira. Sorriu. Quantas pessoas não o odiavam? Faz parte. Um dia você concorda, mas no outro discorda da pessoa. Mesmo assim, cada uma dessas pessoas era responsável por quem ele era hoje. Não tinha arrependimentos.
Tinha vontade de ir lá, dizer que sentia falta e que as coisas não eram mais as mesmas sem ela, mas não era verdade. A gente acaba aprendendo a viver sem. Continuamos evoluindo, mudando. É assim que as coisas devem ser. Todo estímulo, não importa sua natureza, provoca alterações. As pessoas que entram na nossa vida saem deixando um pedaço de si. Quantos existem dentro de você? Quantos ainda surgirão para adicionar peças a esse quebra cabeça? Pedia apenas para que, ao final, as memórias fossem boas. É, até que mudar não era tão ruim assim.
*
Foi até ela, sorriu e disse:
- Obrigado por ter despertado o escritor em mim.
Foi embora sem olhar para trás.
Foi embora sem olhar para trás.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Apenas mais uma de amor - Sacrifício (18)
Não sabia o que esperar daquela conversa. Recebera a mensagem mais cedo: "precisamos conversar" e nada mais. Há tempos já desconfiava que havia algo de errado com o filho. Ele estava mudando, mas achou que fosse apenas uma fase, coisa que o jovem atual precisa passar pra construir caráter. Entretanto, o que deveria ser chuva passageira permaneceu. Se tivesse tomado as rédeas antes, talvez tivesse evitado chegar nesse ponto. Começava a se preparar para o pior e nada do menino chegar.
Era rigoroso, ele mesmo produto de um regime espartano. Fora moldado pelo pai, até porque, naquela época, não tinha dessas de escolher o que queria ser, muito menos essas firulas de sonhar. Não se tinha desse luxo de fazer o que se gostava, de ser livre para ser do jeito que se era. E foi mais ou menos assim que educou seus filhos. Cada um escolheu uma profissão pra seguir, mas dentro de sua casa eram suas regras. Nada dessas viadagens de tatuagem, cabelo diferente ou piercing, que deixassem essas frescuras pra quando pudessem se sustentar. Amava os filhos, mas isso era pedir demais. Arrancaria o couro dele para servir de exemplo se preciso fosse. Teve seus pensamentos interrompidos pelo filho. Cheguei.
- Filho, nem percebi que você estava por aqui já. - tentou disfarçar enquanto se recompunha.
- Tem algo que preciso dizer e que sei que você não vai gostar muito, mas não dá mais pra viver dessa forma. Você vai ter que aprender a me respeitar do jeito que eu sou. - a casa era dele, ele que sustentava tudo, e ainda teria que engolira vontade dos outros? - Eu sou gay e estou namorando há quatro meses com o filho do seu chefe.
Em todos os seus anos de vida, nunca vira o pai vermelho daquele jeito. A mãe, a primeira a ficar sabendo, foi quem interviu afim de não deixar as coisas chegarem às vias de fato. O pai esbravejou, xingou tudo o que sabia e mais um pouco. Por que com ele, Deus? Porque não qualquer outro pai naquela cidade? A culpa era da mulher que passava a mão demais na cabeça das crianças. Saiu deixando aquele complô na sala, sem falar nada, e assim permaneceu por quase uma semana.
Não falou com ninguém dentro de casa. Nem na cama, junto da mulher, dormiu. No sexto dia, foi atrás do filho na cozinha porque sabia que não tinha ninguém em casa. Só falaria tudo que estava guardado apenas uma vez, aquela palhaçada tinha que acabar.
- Presta atenção que não vou repetir. Se não quiser concordar, pode se preparar pra arrumar suas malas. Entendido? - o medo era tanto que a única coisa que conseguiu foi balançar a cabeça. - No último Natal, seu irmão trouxe a namorada nova pra gente conhecer, na última Páscoa, sua irmã trouxe o namorado pra celebrar com a gente. Se você um dia sonhar em trazer esse rapaz aqui, ficaremos muito felizes em recebê-lo. - as lágrimas de ambos agora escorrendo.- Antes de ser qualquer outra coisa, você é meu filho, e isso já é razão suficiente para te amar para sempre.
Era rigoroso, ele mesmo produto de um regime espartano. Fora moldado pelo pai, até porque, naquela época, não tinha dessas de escolher o que queria ser, muito menos essas firulas de sonhar. Não se tinha desse luxo de fazer o que se gostava, de ser livre para ser do jeito que se era. E foi mais ou menos assim que educou seus filhos. Cada um escolheu uma profissão pra seguir, mas dentro de sua casa eram suas regras. Nada dessas viadagens de tatuagem, cabelo diferente ou piercing, que deixassem essas frescuras pra quando pudessem se sustentar. Amava os filhos, mas isso era pedir demais. Arrancaria o couro dele para servir de exemplo se preciso fosse. Teve seus pensamentos interrompidos pelo filho. Cheguei.
- Filho, nem percebi que você estava por aqui já. - tentou disfarçar enquanto se recompunha.
- Tem algo que preciso dizer e que sei que você não vai gostar muito, mas não dá mais pra viver dessa forma. Você vai ter que aprender a me respeitar do jeito que eu sou. - a casa era dele, ele que sustentava tudo, e ainda teria que engolira vontade dos outros? - Eu sou gay e estou namorando há quatro meses com o filho do seu chefe.
Em todos os seus anos de vida, nunca vira o pai vermelho daquele jeito. A mãe, a primeira a ficar sabendo, foi quem interviu afim de não deixar as coisas chegarem às vias de fato. O pai esbravejou, xingou tudo o que sabia e mais um pouco. Por que com ele, Deus? Porque não qualquer outro pai naquela cidade? A culpa era da mulher que passava a mão demais na cabeça das crianças. Saiu deixando aquele complô na sala, sem falar nada, e assim permaneceu por quase uma semana.
Não falou com ninguém dentro de casa. Nem na cama, junto da mulher, dormiu. No sexto dia, foi atrás do filho na cozinha porque sabia que não tinha ninguém em casa. Só falaria tudo que estava guardado apenas uma vez, aquela palhaçada tinha que acabar.
- Presta atenção que não vou repetir. Se não quiser concordar, pode se preparar pra arrumar suas malas. Entendido? - o medo era tanto que a única coisa que conseguiu foi balançar a cabeça. - No último Natal, seu irmão trouxe a namorada nova pra gente conhecer, na última Páscoa, sua irmã trouxe o namorado pra celebrar com a gente. Se você um dia sonhar em trazer esse rapaz aqui, ficaremos muito felizes em recebê-lo. - as lágrimas de ambos agora escorrendo.- Antes de ser qualquer outra coisa, você é meu filho, e isso já é razão suficiente para te amar para sempre.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Sete pecados - Avareza
Saiu da faculdade com fome. A última refeição havia sido ao meio-dia e já eram dez da noite. Já tinha ido trabalhar, cansaço, ainda teve que correr para chegar à tempo de apresentar um trabalho, mais cansaço. Vida de merda. Cada vez menos tempo, mais trabalho, e a fome que não parava de crescer. Sabia que não deveria reclamar, mas faz parte da natureza humana. Sempre tem algo faltando, que poderia mudar ou melhorar. Buscamos preencher essa sensação de vazio de toda maneira, talvez reclamar seja uma delas. Ou isso, ou apenas fome mesmo. Resolveu comer um sanduíche antes de ir para casa, um vazio a menos na sua vida.
A primeira atendente foi logo dizendo que não tinha pão de três queijos. Esse era o sinal para que fosse embora, mas a fome era grande. Ficou. Parmesão e orégano no lugar dos três queijos, carne e queijo prato de recheio. Esquenta? Sim, quem é que come sanduíche frio? A segunda atendente alertou sobre a falta de cebola. É, tomate tinha, mas a cebola que tanto gostava estava em falta, bem como a maionese e o cookie tradicional. Teve que se contentar com o que tinha. Vida de merda. Onde estão os direitos humanos na hora que mais precisamos deles? Todo ser humano deve ter direito a um sanduíche digno do seu paladar após um dia cansativo, mas a fome falou mais alto.
Ao sair, escutou uma voz desconhecida e cansada pedir por um trocado. Mal fez questão de olhar. A voz continuou acompanhando-o até o carro. Qualquer ajuda servia, pelo amor de Deus. Não estava ali porque queria, era professor de inglês com quarenta e cinco anos de estudo. Se a situação fosse outra, se o local fosse outro, se a pessoa fosse outra e se ele mesmo não fosse professor de inglês, talvez aquela voz o tivesse convencido. É certo que professor não ganha muito, mas daí a ser morador de rua já é uma outra história. Abriu o carro sem nem ao menos olhar para o ser humano ao seu lado. Não era seu problema, a culpa era do Estado que deixou aquele indivíduo nas condições que se encontrava. A vida é uma merda, mas cada um cuida da sua. Foi quando a voz desistiu que tudo mudou. Com um sotaque de fazer inveja a muito americano, agradeceu pela atenção e disse para dirigir com cuidado. Virou para olhar o homem que estava ao seu lado.
Ali estava a figura de um homem franzino, de pele castigada e voz rouca de locutor de rádio. Sentiu pena, queria ajudá-lo. Por sorte, ele carregava consigo uma quantidade boa de currículos. Foram até a porta da lanchonete pegar um e, lá mesmo, conversaram sobre as desventuras que o levaram até ali. A ida aos Estados Unidos ainda jovem, a família que se desfez, a família que fez por lá, a separação dos pais, o câncer do pai, a vinda para o Brasil, o trabalho num navio, as amizades e os cursos que fez, a mulher que amou e a que o traiu, o azar de ter o seu mundo tomado das suas mãos. Vida de merda, mas não mais a sua, a daquela pessoa à sua frente. O que era comer um sanduíche diferente comparado a não ter o que comer? Ter pouco tempo e muito trabalho com muito tempo e nenhum trabalho? Os seus problemas com os problemas dele? Deixou o dinheiro que tinha trocado, era pouco, porém um começo. Um começo que aquele exemplo de vida não queria aceitar, preferia que ele apenas entregasse o seu currículo.
A primeira atendente foi logo dizendo que não tinha pão de três queijos. Esse era o sinal para que fosse embora, mas a fome era grande. Ficou. Parmesão e orégano no lugar dos três queijos, carne e queijo prato de recheio. Esquenta? Sim, quem é que come sanduíche frio? A segunda atendente alertou sobre a falta de cebola. É, tomate tinha, mas a cebola que tanto gostava estava em falta, bem como a maionese e o cookie tradicional. Teve que se contentar com o que tinha. Vida de merda. Onde estão os direitos humanos na hora que mais precisamos deles? Todo ser humano deve ter direito a um sanduíche digno do seu paladar após um dia cansativo, mas a fome falou mais alto.
Ao sair, escutou uma voz desconhecida e cansada pedir por um trocado. Mal fez questão de olhar. A voz continuou acompanhando-o até o carro. Qualquer ajuda servia, pelo amor de Deus. Não estava ali porque queria, era professor de inglês com quarenta e cinco anos de estudo. Se a situação fosse outra, se o local fosse outro, se a pessoa fosse outra e se ele mesmo não fosse professor de inglês, talvez aquela voz o tivesse convencido. É certo que professor não ganha muito, mas daí a ser morador de rua já é uma outra história. Abriu o carro sem nem ao menos olhar para o ser humano ao seu lado. Não era seu problema, a culpa era do Estado que deixou aquele indivíduo nas condições que se encontrava. A vida é uma merda, mas cada um cuida da sua. Foi quando a voz desistiu que tudo mudou. Com um sotaque de fazer inveja a muito americano, agradeceu pela atenção e disse para dirigir com cuidado. Virou para olhar o homem que estava ao seu lado.
Ali estava a figura de um homem franzino, de pele castigada e voz rouca de locutor de rádio. Sentiu pena, queria ajudá-lo. Por sorte, ele carregava consigo uma quantidade boa de currículos. Foram até a porta da lanchonete pegar um e, lá mesmo, conversaram sobre as desventuras que o levaram até ali. A ida aos Estados Unidos ainda jovem, a família que se desfez, a família que fez por lá, a separação dos pais, o câncer do pai, a vinda para o Brasil, o trabalho num navio, as amizades e os cursos que fez, a mulher que amou e a que o traiu, o azar de ter o seu mundo tomado das suas mãos. Vida de merda, mas não mais a sua, a daquela pessoa à sua frente. O que era comer um sanduíche diferente comparado a não ter o que comer? Ter pouco tempo e muito trabalho com muito tempo e nenhum trabalho? Os seus problemas com os problemas dele? Deixou o dinheiro que tinha trocado, era pouco, porém um começo. Um começo que aquele exemplo de vida não queria aceitar, preferia que ele apenas entregasse o seu currículo.
terça-feira, 26 de março de 2013
O ídolo
Vivia feito passarinho engaiolado. Passara nove meses preso dentro da mãe, pra sair e passar mais um ano e meio enjaulado dentro de casa. E tinha opção? Mal sabia falar. Com esforço, aprendeu a informar quando estava com fome ou somente com a fralda suja, sempre caprichando nas duas únicas habilidades que tinha naquele momento. Tirando um ou outro choro, não incomodava muita gente, afinal, não tinha do que reclamar. Nada faltava, tudo que pedia ganhava. Ainda não havia sido apresentado ao capitalismo, não tinha como conhecer nada além daquilo que davam para ele. Até conhecer a televisão.
Foi depois dos desenhos animados e dos comerciais que começou a querer conhecer o mundo, queria encontrar os amiguinhos que via na tevê. De tanto insistir, de tanto condenar, conseguiu o que queria. A mãe sapecou lhe uma roupa e levou pra passear. Pela primeira vez, pôde ver o mundo com seus próprios olhos. Aquilo sim era full HD de verdade. Não conhecia nada, mas mesmo assim gostava do que via. Era toda aquela beleza que estava perdendo preso em casa. De repente, parou.
A mãe olhou pra trás e lá estava ele, parado, olhos fixos e brilhantes. Parecia deslumbrado com alguma coisa. A mãe olhou ao redor e nada. Além deles, algumas outras pessoas passavam correndo, parando apenas em frente de alguma loja que chamasse a atenção. Abaixou-se para descobrir o problema:
- Que foi, meu amor?
- Cê num vai "quiditá"!
- No que, menino?
- Vamo, mãe, rápido.
E partiu ligeiro em direção à uma das lojas, parando apenas perto do rapaz negro que arrumava uma das vitrines.
- Que foi que saiu correndo assim, hein, rapazinho? -o brilho nos olhos agora no rosto inteiro.
Com toda a sua inocência de criança, com toda pureza ainda não corrompida dentro de si, encheu os pulmões de ar e gritou o mais alto que pôde:
- OLHA MÃE, É O SACI-PERERÊ!
Foi depois dos desenhos animados e dos comerciais que começou a querer conhecer o mundo, queria encontrar os amiguinhos que via na tevê. De tanto insistir, de tanto condenar, conseguiu o que queria. A mãe sapecou lhe uma roupa e levou pra passear. Pela primeira vez, pôde ver o mundo com seus próprios olhos. Aquilo sim era full HD de verdade. Não conhecia nada, mas mesmo assim gostava do que via. Era toda aquela beleza que estava perdendo preso em casa. De repente, parou.
A mãe olhou pra trás e lá estava ele, parado, olhos fixos e brilhantes. Parecia deslumbrado com alguma coisa. A mãe olhou ao redor e nada. Além deles, algumas outras pessoas passavam correndo, parando apenas em frente de alguma loja que chamasse a atenção. Abaixou-se para descobrir o problema:
- Que foi, meu amor?
- Cê num vai "quiditá"!
- No que, menino?
- Vamo, mãe, rápido.
E partiu ligeiro em direção à uma das lojas, parando apenas perto do rapaz negro que arrumava uma das vitrines.
- Que foi que saiu correndo assim, hein, rapazinho? -o brilho nos olhos agora no rosto inteiro.
Com toda a sua inocência de criança, com toda pureza ainda não corrompida dentro de si, encheu os pulmões de ar e gritou o mais alto que pôde:
- OLHA MÃE, É O SACI-PERERÊ!
*
Dois anos depois, ainda está de castigo sem poder assistir o Sítio do Picapau Amarelo.
quinta-feira, 14 de março de 2013
Parabéns
Entraram as duas, mãe e filha. Ambas preocupadas, ambas apreensivas. Cumprimentaram o médico e sentaram-se nos seus respectivos assentos, sendo a mais velha apenas a acompanhante. A essa altura, já sabiam de cor e salteado toda a história que começara quatro meses antes no Carnaval, mas contaram mesmo assim, na esperança de que essa fosse a última pessoa a escutá-las.
As duas filhas ficaram doentes. Uma melhorou, a outra não. Mesmo assim, continuou medicando os mesmos remédios. Oras, se foi bom para uma, havia de ser bom para todas. Entretanto, nenhum funcionou. Eram dores, enjoos e náuseas, que iam e vinham sem aviso prévio. Senhora sempre muito religiosa, devota de muitos santos, rezou todas as orações que sabia e nada. Como saúde é coisa séria, não teve jeito se não marcar uma consulta. Foi aí que teve inicio uma bateria interminável de exames.
Verdade seja dita, ninguém sabia o que dizer. Já tinha feito vários exames, mas nada parecia se encaixar no quadro clínico. No exame anterior, achou que descobririam a causa e, mais uma vez, criou esperanças que logo foram destruídas. Fizeram uma tal de pesquisa de bactéria, como se bactéria alguma tivesse tempo para responder questionário. O médico então decidiu pedir uma ultrassonografia abdominal total. O que quer que estivesse ali, teria que aparecer.
Depois de escutar a história, pediu que levantasse a blusa para que ele pudesse espalhar o carbogel. Começou o exame sem saber ao certo onde procurar, mas estava procurando uma agulha no palheiro. Resolveu buscar mais informações:
- Desculpe a pergunta, mas a senhorita tem uma vida sexual ativa? - perguntou sem nem tirar os olhos da tela.
- Como? - entendera a pergunta, mas não queria acreditar que ela estava sendo feito. Pode ver sua mãe empertigar-se na cadeira pelo canto do olho.
- Vida sexual, a senhorita tem? - já nem piscava de tanta atenção que prestava.
- Não.
- É virgem ainda? - a indiferença agora transparecendo.
- Com certeza.
- Ela é religiosa como eu, doutor.
- Sei, sei.
Continuou olhando por mais alguns instantes e sorriu. Tirou os óculos e prosseguiu:
- A senhora tem filhos?
- Não, apenas duas meninas, essa e a outra que tava doente.
- E netos?
- Não.
- Parabéns, o primeiro tá aí, tem quatro meses e é um menino.
*
Depois ficou pensando se não teria sido mais engraçado dizer que era o novo messias.
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