quarta-feira, 12 de julho de 2017

Carnaval da vida

Trocaram olhares no meio da multidão de fotos do cardápio humano instalado em seus respectivos celulares, Já sabiam o que faziam da vida, o que estudavam, o que gostavam e que desejavam aquele encontro mutuamente, Já havia ali intimidade para mandar mensagem avisando que o aplicativo insinuara que combinavam, Riram, Fizeram comentários sobre as fotos, Marcaram de se encontrar no mesmo dia para comer alguma coisa, Desviaram no meio do caminho para um motel,  Compartilharam algumas cervejas, mas não sonhos, Fizeram sexo, mas não planos, Transaram no escuro com a perfeição mascarada de um perfil, mas não com as realidades às suas frentes, Tomaram banho, mas não ao mesmo tempo para não exporem suas vergonhas, Prometeram que sairiam de novo, mas nunca mais se falaram.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Apenas mais uma de amor (23) - Primeira vez

 Ainda sentado no carro, percebeu que sequer piscava. É, o homem planeja e o universo ri. Suas leis não se aplicam aos sentimentos. O amor é uma inconstitucionalidade universal, uma ilegalidade insensata da qual não se cabe recurso. Nenhuma tese defensiva consegue afastar a sentença declaratória de insanidade.

O escarlate desceu as escadas aquecendo a fria noite. Destacava os lábios na pele alva, cortava o vestido preto na cintura e enchia de vida o sapato que ela trazia nos pés. Tempos depois descobriu que se tratava de um scarpin, mas aí já não era importante.

Não queria se apaixonar. Há pouco tempo saíra de um relacionamento. Precisava de tempo para tratar das feridas abertas que ainda se espalhavam pela superfície da pele, mas cada escarlate passo que ela dava em sua direção lhe ordenava para que se apaixonasse. A rubra boca sorria ciente de que o tinha na palma da mão. Se moveu:

- Tô bonita?

Desceu do carro e correu para abrir a porta para ela, rezando para não ser o único condenado.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Quadrilha Moderna

João amava Raimundo que amava Teresa
que amava Maria que amava Joaquim e Lili
que era assexuada.
João fez vida nos Esteites, Teresa na faculdade,
Raimundo morreu de Ébola, Maria ficou com Joaquim,
que não aguentou e suicidou-se e Lili manteve as aparências com J. Pinto
que queria colocar seu sobrenome na boca do povo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Pequeno príncipe

E foi então que apareceu a raposa:

- Ring-ding-ding-ding-dingeringeding, disse a raposa.

- Hã?! Respondeu inquisitivamente o princepezinho, que se voltou, mas não viu nada.

- Wa-pa-pa-pa-pa-pa-pow, disse a raposa indicando onde se encontrava.

- Quem é que está aí? Perguntou o princepezinho. Tu és bem difícil de entender...

- Hatee-hatee-hatee-ho, disse a raposa.

- Sai de onde você está e vem brincar comigo, propôs o princepezinho. Estou tão triste...

- Tchoffo-tchoffo-tchoffo-tchoffo-tchoff, disse a raposa em toda sua sapiência.

Porém, o princepezinho, que de raposês nada entendia, deu de ombros e foi embora.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Medo

O homem de bermuda se arrastava pelas ruas do Porto e o medo ia atrás. Seguia alheio ao frio, flanqueado por crentes e descrentes, como um prisioneiro no corredor da morte. Não sabia se apressava o passo e acabava com aquilo ou se retardava a marcha para dilatar o inevitável.

Olhou para trás a tempo de ver o medo correndo em sua direção, mas não permitiria ser alcançado. Mente e corpo inebriados com a sensação de poder, nada tomaria aquele momento das suas mãos. Era o Alfa e o Ômega. Senhor de si.

Imaginou quantos haviam percorrido aquele mesmo caminho e sentido aquele êxtase, para, então, emergirem vitoriosos. Tum tum. Despiu-se de toda a vaidade que vestia. Tum tum. Lembrou de tudo que enfrentara nos últimos seis meses e que o levaram até ali. Tum tum. Pensou na família que estava em contagem regressiva para a sua volta. Tum tum, tum tum. Calculou rapidamente quantos metros o separavam da água e chutou quantos mais o separariam do fundo. Tum tum, tum tum. Sentiu o vento frio tentando desviar a sua atenção enquanto o medo se apoderava do seu corpo. TUM TUM TUM TUM.

Esqueceu o motivo de estar ali. Tinha medo de altura, de morrer, de ir sem dizer adeus, de deixar a família triste, de não deixar herdeiros ou um legado. Fazia graça para esconder o desespero. Queria desistir, mas o corpo continuava. Cruzou a grade da ponte e sabia que não poderia retornar. Desistiu de resistir.

Olhou para baixo e experimentou o sabor de adrenalina do medo. Ainda assim, sentiu se mais corajoso do que nunca. Um. Continuaria vivo para rever todos. Dois. Se formaria para mudar o mundo. Três. Dominar para não ser dominado. Fodeu, puta que pariu.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Nego

Agora eu sou o Negão que trocou o verão do nordeste pelo inverno de Portugal, o oxe pelo ora pois e a moqueca de peixe com camarão por esse tal de bacalhau. Agora não tem mais moleza, nem o conforto de casa. Nada de roupa, passada e lavada, guardada na gaveta, cama feita ou pia da cozinha vazia. A comida não surge nas panelas, os produtos de limpeza não se esfregam no chão, os sacos de lixo não tomam o elevador, e o cheirinho do banheiro vive vazio.

Bebo todos os dias porque o clima é frio, porque sempre tem promoção, porque tem festa, porque chamam, porque não tenho aula, porque tive aula demais, porque não tem nada pra fazer, mas na maioria das vezes, faça chuva ou faça sol, é tão somente porque eu quero. Basta ser líquido, até o tal do mátê quêntê vendo o pôr do sol no teleférico de Gaia.

Jogo frisbee, ando de caiaque, faço slack, corro, e não paro. Agora falo um pouco de francês aqui, uma pitada de italiano ali e um punhado de alemão, não é suficiente pra conversar com ninguém, mas é, por enquanto, o bastante. Não estudo, mas vivo o Direito nas ruas, no povo e no fundo de um copo de cerveja.

Sou da Bahia, de Cuiabá e do Acre, mas também sou mineiro, gaúcho, paulista e catarinense. É uai! com bah!, bolacha com biscoito, língua queimada pelo mátê quêntê no final da tarde. É o rolê num pico doidimais, e, principalmente, concordar que é tudo um demonho mesmo. É deixar de ser sergipano pra me apresentar como brasileiro, com muito orgulho, com muito amor-ôôôô!

Foi nessa mistura retada da peste, que mudei e fui mudado, que acrescentei e fui acrescido. Não porque o intercâmbio muda todo mundo, mas porque tive coragem de sair da minha zona de conforto.

Agora eu sou o Negão, cheio de paixão, te catá, te catá, te catá.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Apenas mais uma de amor (22) - Chico

A fase de negação começou quando vi aquele ser sentado no colo da minha mãe pela primeira vez, não fazia ideia de quem ou o que era aquilo, mas o odiava com todas as minhas forças. Éramos diferentes, mas compartilhávamos o mesmo sangue, mas nada mudaria isso: estava no meu lugar e tomava a atenção que sempre fora minha. Não aceitava ser trocado, preferia que a minha mãe permanecesse gordinha para sempre. A negação era constante. Não queria acreditar que estava acontecendo justo comigo. Eu queria um cachorro e os meus pais me deram uma irmã. Fui traído por quem mais deveria me amar.

Pouco a pouco me conformei com a ideia de que não daria para me livrar dela e a negação começou a ser substituída pela fase da raiva desmedida que só crescia. Não suportava a sua presença e nós não podíamos dividir o mesmo espaço sem que brigássemos. Eu acordava, dava uma surra nela para ela acordar, ia tomar banho e dava outra surra quando a gente se encontrava no corredor. Depois nós descíamos para tomar café e eu dava outra surra nela porque ela queria comer o mesmo que eu. E assim passava o dia, numa mistura de meninices e surras constantes, até que a minha mãe decidiu que um passava a manhã no andar de baixo e o outro no andar de cima, e pela tarde trocávamos.

Mesmo assim ela era o meu saco de pancada e ninguém além de mim tinha o direito de descer a mão nela. A medida que crescíamos as brigas começaram a se tornar menos frequentes, porém mais intensas. Desloquei o braço dela com um chute e ela amassou a porta com um tijolo que era pra acertar a minha cabeça. A gente ficava semanas sem se falar, uma Guerra Fria em menor escala prestes a estourar. E, para ser sincero, não sei o que mudou e nem quando a raiva virou aceitação. Um belo dia nós simplesmente nos tolerávamos e já nos dávamos bem. Nos tornamos civilizados.

Ainda discutimos bastante, mas porque temos a personalidade forte. Ficamos sem nos falar algumas vezes e foram as semanas mais intermináveis da minha vida. Estamos sempre juntos e agora não vejo mais como irmã mais nova e sim como minha amiga. Depois da fase da aceitação, que 6 anos atrás eu achei que fosse a última, veio a fase do amor porque não importa o quanto ela cresça, será pra sempre o meu macaquinho.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

La sirena di Napoli

Andava sem rumo pela cidade até que encontrou o mar. A beleza de Roma ofuscava ainda mais os segredos a serem revelados em Nápoles. Todos as estradas levam a Roma, nenhuma delas deveria sair. Seu corpo chegou na costa, entretanto, seus pensamentos haviam sido aprisionados em uma velha moeda de euro. Seus desejos repousavam no fundo das claras águas da Fontana di Trevi.

Foi retirado do seu limbo particular por um riso angelical. Seus olhos percorreram o horizonte para encontrar uma deusa no meio dos homens. Nem mesmo a Capela Sistina poderia se comparar em beleza, nem provocar tamanha impressão. A arquitetura do Panteão invejaria sua perfeição.

A mais bela criatura a pisar na terra fez com que parasse. Ela sabia que ele a encarava, estupefato. Seu sorriso malicioso e os olhos de Capitu agora o puxavam para mais perto. Se sentia sugado pelo vácuo entre eles.

Se sentou na muralha que separava a terra e o oceano. Seus ondulados cabelos castanhos ondulavam em sintonia com o mar. Olhos fechados. Foi quando ele ensaiou dar o último passo em sua direção que ela mergulhou na salgada água deixando apenas bolhas para trás.

domingo, 29 de junho de 2014

Apenas mais uma de amor (21) - Epifania

Há um momento sutil em que, não importa onde você esteja, todas as engrenagens do universo se encaixam. É único, particular e inesperado. Chega a ser orgasmática a súbita compreensão de todas as perguntas que permeiam o imaginário. De repente, respostas. A sensação de colocar um par de óculos novos pela primeira vez. Tudo entra em foco. Agora corria refazendo o percurso que acabara de fazer, talvez fosse tarde, mas nessa vida até menstruação atrasada é bem vinda.

Encheram suas taças com o néctar mais puro. Deixaram-se levar pelo gosto até se embriagarem. Dançaram inebriados uma melodia singular que ninguém mais escutava. Acreditaram na particularidade de uma balada apenas deles. Perdoaram os tropeções. Ai. Desculpa! Não tem problema -sorriso- agora gira e gira. E lá se ia um passo novo em cima da falha. A prática levaria a perfeição. Perderam-se quando não mais permitiram erros.

Trocaram os ritmos, mas não de parceiros. Soltaram as mãos, mas continuaram a dançar até a alvorada tocar suas faces. Cabisbaixos, cada um para um lado. Perdidos com a infinitude de possibilidades que surgiram. Universos alternativos que se formavam a cado passo que davam. O caminho que se estreitava à medida que se distanciavam. Acelerou.

Há um momento brusco em que o caos esbarra com leis universais e toma forma. É geral, incontrolável e desenfreado. Chega a ser assustadora a torrente de novas perguntas que ficamos submissos. De repente, perguntas. A sensação de que o par de lentes já não é mais suficiente para o novo grau. Tudo sai de cena. Agora caminhava pelo percurso que acabará de fazer, talvez fosse cedo, mas nessa vida até parto prematuro é bem vindo.

Correu porque sabia que a dança tinha conteúdo, caminhou porque sabia que faltava forma.




quarta-feira, 11 de junho de 2014

10 maneiras de tomar (ou não) uma advertência

1º Ria. Não importa se você ri alto ou baixo, estrondosamente ou delicadamente. Rir tira a concentração de qualquer um. Durante a bronca, ria ironicamente pelo canto da boa, isso garantirá um passe livre.

2º Passeie. A sala nunca é grande ou pequena o bastante para você circular. O importante é não ficar parado. Passeie dentro da sala que certamente você expandirá seus horizontes.

3º Relembre. Seus tempos de criança te ajudarão nessa árdua batalha. Acorde o demônio adormecido nos confins do seu âmago. Invente as mais variadas brincadeiras. Use a imaginação. Vença e comemore sua vitória em casa.

4º Mate. Pernilongos, formigas e outros insetos não fazem parte do ambiente. Aproveite os momentos de silêncio para caçá-los. Mate quantos forem precisos. Quanto mais você matar, mais pontos serão acumulados. Dez pontos são suficientes para você ganhar seu bônus e passar de fase em sua caçada.

5º Discuta. Mesmo estando errado você deve se achar certo. Confronte tudo e todos. Repita o primeiro item enquanto discute que certamente sua discussão chegará a algum lugar.

6º Dispute. Converse o mais alto que puder, dispute voz com quem for preciso para alcançar a hegemonia do espaço sonoro, mas não espere que a sua palavra seja a final.

7º Aproveite. Qualquer discussão serve de faísca para que o circo pegue fogo. Certifique-se de manter  a vantagem durante toda a briga e que alguém esteja olhando. Mantenha a calma, brigue o suficiente para uma advertência, mas nunca o bastante para uma suspensão.

8º Transforme. A sala é o limite. Transforme-a. Ela pode virar um campo de futebol, uma quadra de vôlei ou uma trincheira, mas não se preocupe com as regras. Sempre haverá um juiz com um cartão vermelho esperando.

9º Forme. Um grupo de pagode nunca é demais. Junte canetas, os cadernos, batucar na mesa também vale. Crie um refrão animado e repita-o durante toda a música. Talvez você fique famoso e seja convidado a tocar na coordenação.

10º Dance. Enquanto realizam o nono item, levante-se e remexa. Não precisa ficar acanhado. Dance do jeito que achar o mais engraçado. Certifique-se de que a maioria esteja realizando o primeiro item. Se isso acontecer, se prepare para realizar o quinto item. Seu talento também será reconhecido e você também será convidado a dançar para pessoas mais importantes.


Se depois de tudo isso, você ainda assim permanecer na sala, sem sombra de dúvida, você é o filho da diretora.