sábado, 28 de abril de 2012

Conversávamos há algumas horas quando, não me lembro bem como, o assunto enveredou pelo caminho religioso. Apesar de acreditar que política, religião e Hitler, não se discutem, tenho imenso prazer em debater qualquer um dos três assuntos com pessoas que estejam dispostas a criticar e ter suas ideias criticadas. A conversa rendeu por um bom tempo. Relatos esotéricos misturavam-se com piadas e histórias engraçadas. Enquanto os outros dialogavam entre si, a Bruna virou-se para mim e disse que tinha uma pergunta a fazer:

- Bem, você conversa com Deus?

Simples e direto. Não queria responder, mas não tinha pra onde fugir.

- Claro que converso, amor.
- Quando acorda e quando vai dormir?
- Também, só que é mais quando to no bar bebendo. Sempre puxo uma cadeira pra Ele sentar e a gente trocar umas ideias.
- Ave Maria, eu aqui falando sério com você e você vem com essas brincadeiras bestas.

Mulheres, bah. Sempre fazendo perguntas com respostas que não querem ouvir.

- Eu to falando sério, você que acha que to de sacanagem.
- Ô, bem, eu só te fiz uma pergunta. Se não queria responder, também não precisava falar assim.
- Mas é sério! Quem você acha que me traz pra casa são e salvo todas as vezes que eu bebo?

Ponto para mim. Fé é que nem inteligência: cada um tem a sua e muita gente não tem nenhuma. Ela se manifesta de maneira diferente em cada indivíduo. Se Deus é onipresente, por que eu deveria ir à igreja conversar com Ele?

Alguns minutos depois, disse que achara bonito o que eu havia dito. É, a fé se manifesta de maneiras imprevisíveis.




quinta-feira, 19 de abril de 2012

Santo Expedito

Estava no meio dos fiéis. Era o seu primeiro link ao vivo no canal cristão, fora escalado para fazer a cobertura das comemorações pelo dia de Santo Expedito. Conversou com alguns fiéis, entrevistou o padre da paróquia, mas não estava satisfeito. Queria uma história surpreendente, que marcasse e comovesse os telespectadores. Procurou, procurou, até que, por fim, encontrou uma senhora gorda, um tanto quanto peculiar, em pé no canto. A mulher cantava e rezava aos berros enquanto, ao seu lado, ajoelhado, um senhor mirrado, com uma expressão desesperadora, orava rapidamente em voz baixa, quase sussurrando. Imaginou o quão bom o pedido dela seria para a audiência e dirigiu-se até eles enquanto esperava o próximo chamado.

- Ó DEUS, QUE INTERCESSÃO DE SANTO EXPEDITO NOS RECOMENDE JUNTO A VOSSA DIVI...
- Senhora? -disse sem muitas esperanças de ser notado.
- NA BONDADE, A FIM DE QUE, PELO SEU AUXÍ...
- MOÇA!
- Vixe, que susto, menino! - falou levando a mão ao peito.- Mais um pra reclamar da altura das minhas orações, aposto. Olhe, eu estou na casa do Senhor e só ele pra me fazer falar mais baixo.
- Calma, calma, não é nada disso não. Eu sou repórter e preciso de uma história comovente pra fechar a matéria, mas não pode ser uma qualquer. Como a senhora foi a pessoa que mais me chamou a atenção, vim aqui pra saber o motivo dessas preces serem assim tão altas -recebeu o chamado pra voltar pro ar- só que eu to com um pouco de pressa e a senhora...? -5,4.
- Mas o motivo...
- O nome da senhora!? -3,2.
- Benita,mas... -1.
- Isso mesmo, o número de fiéis não para de aumentar por aqui, todos vindo agradecer pelas graças alcançadas ou pedir pela intervenção do Santo nos problemas que eles não encontraram solução. São histórias comoventes como a da Dona Benita que estava há poucos instantes orando fervorosamente para que as suas preces possam ser ouvidas. O que a senhora tanto pede ao Santo?
- Oh, meu filho, de hoje que eu tento te dizer, num vim aqui pedir nada pra mim não, é pro meu marido. Vim aqui pra ver se o Santo dá um jeito pra mo do infeliz voltar a sentir tesão pra gente voltar a esquentar as noites. To velha, mas num to morta ainda não. -Virou-se rindo e pôs se a horar aos berros novamente.

A sua ideia de história-comovente-para-encerrar já estava quase indo pelo ralo, quando lembrou que o pobre coitado que estava ao lado dela ainda poderia salvar o emprego dele. Com um sorriso amarelo, pediu desculpas e, apostando tudo numa última empreitada, se ajoelhou para conversar com aquele senhor:

- Mas e o senhor, está aqui por quê?
- Pra garantir que não seja por ela.

E voltou a rezar desesperadamente.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Carlinhos

A primeira coisa que escutei do engenheiro no estágio foi:

- Conseguiu subir a ladeira com carro? Deu sorte, basta chover um pouco mais pra não chegar ninguém aqui em cima.

A chuva não deu trégua durante o resto do dia. Era o meu primeiro dia de trabalho e eu não queria fazer corpo mole, desci para o campo e conheci a obra e os funcionários. Dezesseis blocos de três andares cada, espalhados por uma área toda coberta por barro. A lama era suficiente para cobrir o meu pé inteiro. Mesmo assim, cumpri o meu papel sem reclamar. Quem achou ruim foi a minha mãe quando me viu entrar em casa com as botas imundas sujando o chão. Dois dias depois ela percebeu que tudo na vida pode piorar.

O céu desabava do lado de fora. São pedro, achando pouca a desgraça nos meus dois primeiros dias de trabalho, resolveu descarregar toda a água que ainda estava acumulada nas nuvens de uma só vez. Minha mãe, que nunca me deixou faltar aos meus compromissos, perguntou se realmente eu iria trabalhar. Como era o meu terceiro dia ainda, botei na cabeça que iria mostrar serviço, nem que não fizesse nada por lá, apareceria. Foi só ao terminar de me vestir que lembrei das palavras do engenheiro, por sorte, também lembrei que o meu pai conhecia algumas pessoas que moravam perto da obra. Quando expliquei pra ele que não conseguiria subir de carro e que precisava deixar o meu carro embaixo para subir caminhando, ele me mandou procurar um tal de Carlinhos na primeira casa depois da entrada. Foi o que fiz.

Foi difícil encontrar a casa. Mesmo com o desembaçador ligado, continuava sem enxergar nada direito. Quando finalmente encontrei, o portão já estava aberto e, como não vi ninguém, resolvi entrar. Parei o carro na frente da única porta da casa que se encontrava aberta e buzinei. Surgiu então um homem barrigudo, sem camisa, uma mulher com uma criança no colo e mais duas agarradas na perna. Deduzi que ele era a pessoa pela qual deveria procurar, mas resolvi ir com calma:

- Bom dia, estou procurando o senhor Carlos que mora aqui.
- Bom dia - respondeu meio desconfiado-, mas você vai me desculpar. Aqui não tem nenhum Carlos não.

Comecei a imaginar que estava na casa errada, mas como meu pai conhecia muita gente pela região, arrisquei mais um pouco pra ver no que dava:

- É o seguinte, eu trabalho nessa obra aí do lado, mas nessa chuva não tem como subir de carro. Meu pai me disse que eu viesse aqui atrás do sr. Carlos que ele deixaria eu estacionar o carro na casa dele.
- Como eu já te disse, aqui não tem nenhum Carlos não, mas como é o nome do seu pai?
- Homero, Homero Felizola.
- Ah, rapaz, eu conheço ele. Pode deixar o carro estacionado ali na frente que a gente toma conta.
- Pô,cara, brigadão mesmo. O senhor é que é o dono da casa?
- Não,não, quem mora aqui é Carlinhos, mas ele deu uma saidinha.

E depois disso eu ainda tive que caminhar um quilômetro e meio com o barro cobrindo a calça e a chuva batendo forte no rosto pra chegar na obra e escutar do apontador:

- Você é doido de vir trabalhar nessa chuva, é? Nem os engenheiros e nem os técnicos vieram hoje, Vá pra casa, negão, que você ganha mais.


terça-feira, 3 de abril de 2012

Sete pecados - Gula

Há quanto tempo já não ficava excitada daquele jeito? Fez um esforço, mas desistiu. Não iria e nem queria lembrar. Estava decidida sobre mais uma mudança na sua vida. Mais um grande salto que daria na vida. Nem o Papa a impediria. Ele que entendesse que a necessidade fazia o homem, e a mulher também. Deus haveria de perdoá-la,nessa vida ou nas que viessem.

Não era sua culpa, o marido que arcasse com ela. Foram os erros dele que levaram-na a pecar. Chegou em casa com umas conversas esquisitas que ouvira do padre durante a missa. Tinham acabado de se casar na época, era hora de aproveitar os momentos a sós que não tiveram quando saiam para namorar. A mãe dele, muito ciumenta, que não deixava os dois em paz, o pai dela, coronel, que só permitia as saídas deles se levassem os cunhados juntos. Tudo que chegaram até chegar naquele ponto pareceu ter sido em vão depois de escutar a boa nova. Mais uma privação em nome do amor que tinha por ele.

Foram meses difíceis. Tentava mudar foco,mas não deixavam, as amigas principalmente. Toda vez que se encontravam, não importava por onde começavam, o assunto sempre voltava para aquele-que-não-deveria-ser-comentado. Uma falava que o do marido era o melhor, a outra defendia que o do dela era mais suculento, ao ponto de dar água na boca, mas ela só desconversava. Não tinha muita competência para falar do assunto, algumas vezes até mentia para não ficar por baixo. Acabou por se encher da palhaçada do marido. Ele quisesse resistir, que fosse sozinho. Ela se entregaria aos prazeres da carne.

Saiu de casa preparada. Foi direto ao local certo. Disse o que queria e as suas intenções ao primeiro que passou. Estava sedenta, era perceptível. Ele a levou para um lugar mais vazio, ali ela saciaria a sua vontade em paz. Pediu que ela sentasse, voltaria em instantes para satisfazê-la. Voltou já preparado, do jeito que ela tanto desejara. Lambeu os beiços para o pedaço de carne que se aproximava da sua boca. Se arrepiou toda quando sentiu aquele calor tão vivo encostar seus lábios. Gemeu baixinho. Cada centímetro do seu corpo pedia por mais. Isso, continue. Ficou ali sentadinha até atingir um orgasmo gastronômico.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Gran finale

Estava decidida. Definitivamente estava cansada também. Há alguns meses já vinha desconfiando da fidelidade do marido, mas sem nunca encontrar nenhuma prova das traições. As coisas pioraram quando os vizinhos começaram a perguntar sobre a mulher que sempre vinha visitar o marido enquanto ela não estava. Ele, é claro, desconversava. Safado. Ela podia ser boba, mas não burra. Pediu para que a avisassem da próxima vez que a tal mulher aparecesse. Foi justamente por conta da ligação que recebeu minutos antes, que decidiu pegá-lo no flagra.

Ligou para o celular dele para avisar que demoraria a chegar em casa. Precisava deixá-lo à vontade para ter certeza que não teria dúvidas do que estava acontecendo quando chegasse. Nada a não ser a caixa de mensagens. Seria o primeiro e último aniversário de casamento dos dois. Queria só ver a desculpa que o filho da mãe daria.

Entrou em casa calada e fechou a porta devagarinho. Escutava as molas da cama gemendo no quarto. Todas as janelas e cortinas estavam fechadas, dando um ar de abandono por conta da escuridão, provavelmente para esconder a safadeza dos vizinhos, mas ela usaria isso ao seu favor. A outra não teria lugar nenhum por onde fugir a não ser passando por ela na porta. Estava caminhando lentamente ao encontro dos dois quando o barulho que vinha das molas do colchão parou. Escutou o barulho dos lençóis e de passos rápidos. Escutou o baque seco da porta do guarda-roupa, correu e acendeu a luz:

- Que palhaçada é essa aqui? -disse vasculhando o quarto com os olhos à procura da outra ou de algum dos pertences dela.
- Que palhaçada? -o descarado estava apoiado no encosto e com as mãos cruzadas sobre o lençol como se nada tivesse acontecido.
- Eu sei que você tem outra, eu e todo mundo aqui no bairro. Cadê o seu celular? De hoje que te ligo e você não atende.
- Meu amor, não poderia atender o meu celular nunca. Esse tempo todo ele esteve com você.
- Comigo!? Você tá ficando doido? Você não me deixa nem chegar perto daquele aparelho, diz que é invasão de privacidade, mas agora eu entendi tudo. Não me trate como idiota.
- Conte até três, respire fundo e abra a sua bolsa.
- Você tá de sacanagem comigo, né? -contou até dez e respirou bem fundo para não voar no pescoço dele- Se esse celular estivesse aqui, eu teria escutado ele toc... Mas como ele veio parar aqui?! Eu tenho certeza de que não peguei nele e eu teria escutado caso ele tocasse.
- Vai ver você estava tão concentrada nisso que não percebeu e...
- Não me venha com essa conversa! Ainda não terminei com você. Tinha uma vagabunda e eu sei que ela está aqui, não to ficando doida. Escutei ela se escondendo -começou a chorar caminhando em direção ao guarda-roupa- a nossa história termina aqui.
- Se você tem certeza do que está fazendo, não vou te impedir, mas por que você não respira fundo e conta até três?

Não fez o que ele pediu apenas porque considerou aquilo como um último pedido de um condenado à morte, mas porque precisava daquilo para se controlar quando desse de cara com quem quer que estivesse lá. Quando puxou a porta não acreditou no que viu. Se não fosse pelas roupas dos dois, estaria vazio. Arrastou-o um pouco para ver a parte de trás, mas nada. Rodou o quarto todo e nem sinal de mulher alguma, marca de batom, perfume, maquiagem na fronha do travesseiro, peça de roupa, nada.

Ele tirou um buquê e uma caixa de bombons finos debaixo do lençol:

- Surpresa, feliz aniversário de casamento! -gritou sorrindo.
*
Anos mais tarde, ele divertia os netos com os truques que costumava encantar as plateias quando a mulher lembro do ocorrido. Ela foi ao seu encontro e sussurrou no seu ouvido:

- Como foi que você fez aquilo?

Ao que ele prontamente respondeu, sem nem tirar os olhos das crianças:

- Um mágico nunca revela seus truques.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Teste de nivelamento

Estávamos todos reunidos na casa dos meus avós. Meu tio que mora em Salvador estava aqui também, o que implica alguma data comemorativa, só não recordo qual. Esperávamos esse mesmo tio voltar do aeroporto com o filho para que pudéssemos começar a almoçar. Assim que ele chegou, nos espalhamos pela mesa, móveis e sofá para comer. Quem almoça em casa de vó no final de semana sabe bem como é: nunca falta comida, mas só os mais velhos e os mais rápidos têm bons lugares para comer.

O meu primo estava, depois de um ano, voltando do seu intercâmbio no Canadá. Como ele não mora aqui, não temos muito contato, mas uma viagem dessas não se guarda para si, então, eu e Augusto sentamos à mesa para escutar as histórias que Breno tinha para contar. No meio da conversa, fomos interrompidos pelo meu avô que já chegou abrindo espaço para sentar entre os outros dois:

- Dê uma licencinha aqui, meu filho, pro seu avô sentar - disse ajeitando a cadeira de forma que os dois pudessem se olhar com ele no meio-, quer dizer que você agora sabe falar o inglês?
- É, vô, deu pra aprender algumas coisas - disse Breno já meio sem jeito-, mas ainda tem muita coisa pra aprender.
- Sei, sei...Augusto tá fazendo um cursinho aqui, quero ver você falando aqui com ele pra gente ver se tá valendo à pena.

Os dois ficaram ali, parados, apenas olhando do outro para o meu avô, ambos achando que era tudo parte de alguma brincadeira dele. Até que perceberam que o coroa estava falando sério. Ainda encabulados, engataram uma conversa sem muitos rodeios, respostas simples e diretas. O velho Eurípedes acompanhava a conversa com o olhar e os braços cruzados. E ali do lado só rindo, admirado que o meu avô conseguia acompanhar tudo. Queria saber se os dois estavam mesmo dominando o idioma. Quando viu que os dois já estavam diminuindo o ritmo da conversa, interrompeu novamente:

- Pronto, tá bom. E aí Breno, seu primo tá sabendo falar direitinho?
- É, só tá precisando melhorar algumas coisas, mas fora isso tá tudo certinho.
- E você, Augusto, me diga aí o que foi que você entendeu da conversa com seu primo.
- Rapaz...ele tava me contando como eram algumas coisas lá no Canadá e me falando um pouco da viagem.
- Foi mesmo? Certeza? Eu escutei ele falando mais um monte de coisa...
- Resumindo foi isso, mas o senhor entendeu a conversa pra tá sabendo que faltou algo, foi?
- Meu filho, e eu lá entendo porra nenhuma dessas coisas. Vocês falaram um monte de coisa aí e depois você veio querendo me enrolar com uma resposta sapecada.

E foi assim que eu descobri que o meu avô não entendia nada da língua inglesa, mas que tinha experiência de sobra pra saber que estava sendo enrolado. Os três ali tinham uma boa fluência, mas ele era o verdadeiro mestre.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Vestibular

O ensino médio finalmente chegou ao fim. Algumas turmas resolvem fazer festa e outras resolvem viajar, mas o que importa mesmo é que estão todos reunidos e felizes. É hora de lembrar tudo o que aconteceu durante o ano com os amigos e dar em cima da pessoa que você passou o ano inteiro gostando sem contar pra ninguém. Esse final de semana marcará a sua vida e será lembrado no futuro como "um dos melhores momentos da minha vida". Só há um porém: se você está curtindo a sua festa ou a sua viagem, isso significa que o seu vestibular já está chegando. Então você deixa tudo de lado e mete a cara nos livros.

Final do ensino médio, muita gente enlouquece. Seus amigos não vão ter mais tempo pra você e quando tiverem você não terá pra eles. Tudo graças a uma prova que resume três anos da sua vida em um dia. O nervosismo, a pressão e o desespero se misturam e você fica com aquela sensação de que não estudou o suficiente para ser aprovado. Seus pais vão fazer de tudo pra que você relaxe, mas dificilmente algo surtirá efeito, seu emocional já está tão instável quanto um átomo de urânio. Entretanto, enquanto pais normais tentam impedir que toda essa ansiedade tome conta, a minha mãe queria que eu me estressasse.

Várias vezes tentaram fazer com que eu me importasse com o vestibular, mas nunca deu certo. Já estava decidido a ser indiferente à todo esse inferno. Só teve uma coisa, nesse período, com a qual me estressei e ela foi a minha mãe. Todos os dias ela me consumia a paciência falando do filho de Fulano que estava estudando pra passar em medicina ou da filha de Sicrano que abriu mão das saídas nos finais de semana pra passar em direito. Ela reclamava que não me via estudando, mesmo as minhas notas na escola sendo boas. O que ela queria mesmo era me ver sentado com os livros abertos pra ficar feliz. Aguentei isso por bastante tempo até que:


E nunca mais ela tocou no assunto.

sábado, 19 de novembro de 2011

Novos blogs

Apesar de podermos, muitas vezes, sermos mal interpretados ou prejudicados, a melhor coisa que a internet tem pra nos oferecer é a liberdade de escolha e de expressão. Nunca foi tão fácil expressar uma opinião ou um pensamento para que o mundo inteiro possa julgá-lo. Mais fácil ainda é criar um blog.

Em questão de minutos você tem à sua disposição um pequeno pedaço da web para poder chamar de seu. O céu é praticamente o limite e você pode deixá-lo com a sua cara em alguns instantes sem nenhum custo adicional. O único trabalho que você pode vir a ter é o de atrair as pessoas para o seu cantinho Seja com vídeos, fotos, crônicas e/ou tirinhas, todo atrativo é válido, depende apenas de quem acessa gostar ou não.

Eu, por exemplo, prefiro produzir ao invés de copiar e colar imagens e vídeos já vistos em outros lugares, aqui. Como o meu conteúdo é único, até mesmo o que escrevi no Xique Xique Blog é exclusico de lá, levo mais tempo pra trazer um produto final de qualidade até vocês. Só não consigo entender como esses blogs de tirinhas com memes conseguem ter mais visitas que qualquer outro.

As tirinhas são feitas em sites como esse e não levam muito tempo para serem feitas. Em menos de meia hora você já consegue fazer uma sem nunca ter usado essa desgraça na vida. Muitos deles apenas copiam as ideias de outros lugares e mudam os memes ou transformam piadas já feitas em tirinha. É engraçado, beleza, isso não posso negar, algumas muito boas por sinal, mas o cara virar celebridade na internet só por causa disso é apenas mais uma prova da qualidade intelectual das nossas futuras gerações. A última vez que vi um esforço tão pequeno pra se conseguir quinze minutos de fama foi quando a Monalisa Perrone foi atacada. Porém, já dizia o ditado: se não pode vencê-los, junte-se à eles.

Não se preocupem, ou preocupem-se, eu não pretendo parar de escrever:


domingo, 30 de outubro de 2011

Engenharia como nunca civil (4)

Quando resolvi fazer engenharia civil, saí perguntando às pessoas que conhecia como era o curso. Foram só elogios. Curso bom, momento de crescimento e ótimos salários. Não pensei duas vezes e prestei vestibular pra me tornar engenheiro. Depois que entrei foi que vi a furada que eu tinha entrado. Tudo o que me falaram é realmente verdade, mas até chegar no lugar que você quer, você sofre e sofre muito:


Antes eu tivesse visto esse vídeo mais cedo.

sábado, 22 de outubro de 2011

Apenas mais uma de amor (14)

Chegou em casa tão apressado que nem viu o homem sentado na calçada. Há dias estava fora de casa, mas terminara o serviço mais cedo e decidira fazer uma surpresa para a esposa. Tocou a campainha uma, duas, três vezes e nada. Ela deveria estar em casa. Tinha mandado uma mensagem horas antes avisando que tinha organizado um sarau em casa. Ele ficara bastante feliz ao saber que ela finalmente começara a se interessar por livros. Foi só após a quarta tentativa que notou a presença daquele estranho:

- Se veio pra festinha que tava rolando, perdeu a viagem. Os tiras receberam umas denúncias anônimas dos vizinhos e levaram todo mundo pra delegacia, era pó demais. Deram nem tempo pro pessoal se vestir...
- Er... desculpa, mas o senhor deve ter confundido a minha casa com a casa de shows que fica no outro quarteirão. Todo mundo aqui na rua já esperava que isso acontecesse um dia.
- Não, não, é aqui mesmo. Tá aqui escrito no convite, pode ler se quiser.
- Huuum, parece tá certo. Rua B, número 69, próximo ao posto de gasolina e assinado por... como é mesmo esse nome aqui? Arlete Boqu... Porra mermão, mas essa daqui é a minha muher. Que palhaçada é essa? Mais cedo eu recebi uma mensagem dizendo que estava rolando uma festinha em casa, só que ela me disse que era um sarau. Uma festa culta e refinada, não essa pouca vergonha daqui.
- Ah, mas isso foi. Culta e curta. Ela até fez citações do livro daquela escritora famosa que lançou filme recentemente.
- A Stephenie Meyer?
- Não, a Raquel Pacheco. Ela pegou o livro nas mãos e disse em alto e bom som que hoje não iria dar, só distribuir.
- Ma... ma... mas ela me disse que era só um sarau!
- Vai ver ela digitou suruba errado. É aquela coisa, digitar mensagem em cima de um mecânico não é pra qualquer um.
- Teve touro mecânico!?
- Rapaz, se ele era um touro na cama eu não sei, mas mecânico eu sei que ele era porque vi o macacão sujo de óleo.
- Eu sabia que não devia ter confiado, todo mundo sabia e já tinha me alertado. Só o trouxa aqui ainda quis acreditar na palavra daquela vagabunda miserável. Sempre foi assim piranha na cama só que dizia que era só comigo. Ela que fique lá presa pra aprender. Na delegacia eu só vou com o meu advogado e os papéis da separação.
- É, meu amigo, quem mandou confiar em mulher? Bom...o recado tá dado e eu ainda tenho muito o que fazer. Até mais.
- Peraí, só mais uma coisa que ainda não entendi. Como é que você sabe disso tudo sem estar na festa?
- Pra falar a verdade eu estava, mas fui expulso pouco antes da polícia chegar. Quando chegou a minha vez, a senhora sua mulher mandou eu me vestir e ir embora. Disse que não queria ninguém com um nome que lembrasse você. Quando ela estava saindo daqui no camburão, me pediu pra tomar conta da casa por uns dias que eu seria recompensado depois, mas eu juro que não sabia que ela era casada! Só descobri porque ela falou quando me botou pra fora.
- Quer dizer que aquela rapariga ia te dar, mas ficou com pena do otário aqui? Aquela filha da puta me paga, vou acabar com a vida dela.
- Aí já é briga de marido e mulher e eu não tenho que meter a minha colher, com todo respeito. Papo tá bom, mas como já disse, tenho que ir. Satisfação te conhecer.
- De certo modo foi bom ter te encontrado aqui ainda. Primeiro porque isso me fez acreditar no que me diziam e depois porque é difícil achar alguém com um nome tão esquisito como Adalgamir.
- Adalgamir? Eu acho que você se enganou. Meu nome é Cornélio.

Acompanhou o outro ir embora com o olhar. Os vizinhos já começavam a aparecer nas janelas e portas. Não iria aguentar a gozação. Mudou-se sem nem avisar à família.